Archive for January, 2010

Alfred Hitchcock’s “The Birds” Barbie Doll (LOL)

January 31, 2010

Alfred Hitchcock's "The Birds" Barbie Doll

Esta é para quem achava que já tinha visto tudo!

Há dias estivemos em Paris e ofereceram-nos uma prenda absolutamente genial: uma boneca Barbie inspirada na Tippi Hedren no filme THE BIRDS (1963) do mestre Hitchcock. E não é que esta Barbie realmente está a ser atacada por pássaros?!?! Digam lá se isto não é uma grande homenagem? É claro que esta é uma edição de coleccionador: os pássaros estão cosidos à roupa da boneca e atrás dela vemos a escola primária de Bodega Bay. Retirá-la deste setup incrível seria um pecado. Sendo uma Barbie, esta Tippi Hedren continua a sorrir mesmo sendo atacada. Priceless!

Cá está a nossa, muito divertida enquanto é atacada.

 

Ficámos logo a imaginar outras Barbies que poderiam homenagear grandes filmes de terror. Senão vejamos:

1 – PSYCHO (1960): esta Barbie está nua no duche (a sorrir) e o seu corpo é em tons de cinzento (já que o filme é a preto e branco). O Ken é vendido em separado e está vestido de Sra. Bates.

2 – THE BRIDE OF FRANKENSTEIN (1935): esta é uma Barbie óbvia! A Elsa Lanchester bem merecia algo assim. A caixa da boneca terá que ser mais alta por causa do cabelo.

3 – POLTERGEIST (1982): esta seria uma Barbie Tangina Barrons – baixinha, gordinha e com óculos. A frase vem logo à mente: “this house is clean!”

ROSEMARY'S BABY (1968)

4 – ROSEMARY’S BABY (1968): que tal esta Barbie Rosemary com o cabelo curtinho, olheiras profundas e um ar tresloucado? A caixa bem podia vir com a faca e o berço negro. Ah, e é claro: o crucifixo de cabeça para baixo.

5 – THE RETURN OF THE LIVING DEAD (1985): esta Barbie Trash é um guilty pleasure.

6 – SHIVERS (1975): a enfermeira Forsythe era linda! Cá está a respectiva Barbie.

7 – RABID (1977): e já que falamos em Cronenberg, é impressão nossa ou a Marilyn Chambers daria uma óptima Barbie? Outro very guilty pleasure.

8 – HALLOWEEN (1978) e FRIDAY THE 13TH (1980): Jamie Lee Curtis e Adrienne King merecem uma Barbie! Cada uma delas com a respectiva faca.

WHATEVER HAPPENED TO BABY JANE? (1962)

9 – WHATEVER HAPPENED TO BABY JANE? (1962): tanto Joan Crawford como Bette Davis dariam óptimas Barbies. Mas talvez a Bette Davis desse uma Barbie um bocadiiiinho melhor.

10 – THE OMEN (1976): a caixa desta Barbie imita a ambulância onde a Lee Remick aterra após uma queda de oito andares. A boneca está dentro, num estado lastimável.

11 – CARRIE (1976): esta linda Barbie viria coberta de sangue.

12 – LES YEUX SANS VISAGE (1960): esta Barbie poderia trazer aquela máscara branca para quando não estivesse a utilizar os rostos transplantados (incluídos). Também na embalagem: um conjunto de bisturis coloridos. De arrepiar!

LES YEUX SANS VISAGE (1960)

13 – THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE (1974): esta seria uma Barbie conceptual. Ao invés da Marilyn Burns, a embalagem continha apenas pedaços de diferentes Barbies. E montes de ossos.

Também tínhamos pensado numa Barbie THE STEPFORD WIVES (1975), mas alguém nos lembrou que existem centenas de Barbies que já o são. Também não podemos pensar em tudo, não é? 🙂

Cá estão as sugestões. Esperamos pacientemente que a Mattel leia isto.

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Uma lição da Troma: segue o teu coração!

January 30, 2010

Quem gosta e acompanha o Cinema de Terror certamente conhece o nome Troma – a produtora norte-americana de filmes como THE TOXIC AVENGER (1984), POULTRYGEIST: NIGHT OF THE CHICKEN DEAD (2006) entre centenas de outras obras. O seu produtor, Lloyd Kaufman possui uma das maiores (se não a maior) listas de créditos na História do Cinema como produtor, realizador, actor, argumentista, director de fotografia, etc. São centenas de filmes.

Recentemente, Lloyd Kaufman lançou o seu mais novo livro: PRODUCE YOUR OWN DAMN MOVIE! que surge após dois outros (MAKE YOUR OWN DAMN MOVIE! e DIRECT YOUR OWN DAMN MOVIE!). É necessário notar que este novo título é  publicado pela Focal Press, no less!

PRODUCE YOUR OWN DAMN MOVIE escrito por Lloyd Kaufman

Este novo livro destina-se a qualquer miúdo que queira fazer o seu filme e não saiba como. Ora, o Sr. Troma explica. No entanto, sendo Lloyd Kaufman uma das figuras mais impagáveis do Cinema de Terror contemporâneo, este livro é tudo menos um daqueles inúmeros manuais “how to” muito profissionais que podemos encontrar na Fnac ou em qualquer livraria. Sempre em tom de auto-paródia, Lloyd Kaufman nos mostra a filosofia por detrás da Troma e (melhor ainda) como é que todos os projectos nos quais ele se envolve acabam se transformando em lixo, desastre financeiro ou simplesmente merda (os termos são do próprio Kaufman). Mas sempre dentro do estilo Troma.

Ora, Troma só há uma… e duvidamos que exista lugar para outra. Os seus filmes (goste-se ou não deles) são objectos únicos que pertencem a um nicho de mercado muito especial – tão especial que a Troma já é uma marca de culto. E também é lógico que muitos dos conselhos de Lloyd Kaufman estão direccionados para produções que seguem o standard Troma. (Pergunta: o que se faz quando um actor abandona a nossa rodagem a meio? Resposta: substitui-se o actor e introduz-se uma fala no guião a dizer que a personagem fez uma cirurgia plástica!)

(Risos)

No entanto o livro não é só isto. Nele encontramos uma grande quantidade de textos e entrevistas preciosas com gente como Terry Jones e Roger Corman. E apesar dos conselhos by Troma, a vasta experiência de Lloyd Kaufman realmente chama a nossa atenção para os problemas, necessidades, obstáculos e soluções na produção de um filme independente de baixo orçamento. A auto-paródia é apenas auto-paródia… e o Sr. Kaufman é um pragmático que sabe bem o que diz.

Mas o mais importante que nós vimos neste livro – e que vale à pena mencionar – foi a sinceridade e honestidade de Lloyd Kaufman quando ele nos diz que devemos fazer aquilo em que acreditamos. Trata-se daquela coisa de “seguir o nosso coração”. Esta é uma mensagem valiosa (vinda de quem vem) que todas as pessoas que desejam fazer Cinema deviam levar muito a sério. Faz aquilo em que acreditas e segue o teu coração! 🙂

Sobre as máscaras.

January 29, 2010

Cá está uma frase que bem merece estar em destaque:

Tem piada que no post anterior, falávamos sobre o cliché das máscaras dos assassinos… quando o horror tem mesmo tudo a ver com máscaras ou melhor ainda, com a nossa descoberta acerca daquilo que elas escondem. Aliás, esta frase do Robert Bloch é importante porque o verdadeiro horror esconde-se sempre por detrás de algo. O horror não mostra apenas as coisas como elas, por vezes, são mas sim aquilo que nunca imaginávamos que elas realmente fossem.

Mas esta frase é tão simples e ao mesmo tempo tão profunda que é desnecessário comentá-la mais. É óbvio que cada um de nós, lá no fundo, fez a sua leitura pessoal e sabe exactamente o que ela quer dizer. Resta-nos apenas esconder.

Bom fim de semana!

Os maiores clichés no Cinema de Terror.

January 27, 2010

Assustar é como fazer rir: dá muito trabalho. Assim sendo, cá vão alguns clichés que, na ausência de boas ideias, continuam a aparecer no Cinema de Terror.

Cliché #1 – O assassino usa uma máscara!

THE HILLS RUN RED (2009)

LAID TO REST (2009)

Ok, este cliché é tão clássico que já se deve ter transformado num monumento. É incrível que após décadas e décadas de slashers, toda a gente continua a pôr máscaras nos assassinos, a espera que esta simples peça de indumentária faça alguma coisa pelo filme inteiro (ou pelo assassino). Curiosamente, o primeiro FRIDAY THE 13TH (1980) até é uma excepção na medida em que Mrs.Voorhees não usava uma máscara (o que nos chama a atenção para o poder que uma boa cara – Betsy Palmer – pode ter). Muito antes de Pamela Voorhees, o grande Vincent Price já provava que grandes assassinos necessitam de grandes actores (que infelizmente hoje custam caro). É um facto que Leatherface, Michael Myers e (mais tarde) Jason Voorhees tornaram-se figuras emblemáticas. Mas também é verdade que desde então as máscaras foram ficando cada vez mais elaboradas e os filmes cada vez menos interessantes.

Cliché #2 – Paredes que sangram.

1408 (2007)

Este é outro cliché que um dia foi uma grande ideia – mas que hoje já é tão banal que ninguém se impressiona quando vê. E quem diz paredes também diz candeeiros, fichas eléctricas na parede, duches e outros elementos domésticos. É que já não há pachorra! A última vez que vimos uma parede a sangrar foi no 1408 (2007) onde um quarto de hotel se transforma numa atracção da Disneylândia.

Cliché #3 – A última gaja sobrevive sempre!

Oh, please, digam lá se este não é ofensivo: então o assassino (mascarado?) mata com facilidade toda a gente que encontra pela frente até o momento em que tem o infortúnio de debruçar-se sobre a protagonista (curiosamente a única personagem que ainda não foi assassinada). A partir de então, é um sofrimento interminável! Ela corre, cai, levanta-se, atira-lhe com coisas, esconde-se, é perseguida, encontra os amigos mortos, tenta telefonar, tranca a porta, salta pela janela, corre, cai, levanta-se… e o assassino simplesmente não consegue matá-la! As feministas estão cansadas de gritar e o cliché perdura. E ele é quase tão comum quanto aquele que se segue.

Cliché #4 – Afinal, o assassino não morreu.

Desculpe lá… traz-me mais uma bebida, se faz o favor? Eu prometo que é a última! Obrigado.

Cliché #5 – Animais que surgem do nada.

Nós adoramos animais. Mas este cliché é mesmo a prova de que não se tem mesmo ideias boas. Subitamente surge um gato que salta para cima da personagem justamente quando nós achávamos que o pior ia acontecer. Mas isto é mesmo o pior que pode acontecer!

Cliché # 6 – A casa custou barato porque é assombrada!

THE HAUNTING IN CONNECTICUT (2009)

Qualquer pessoa normal que comprou casa e sofre todos os meses para pagar a prestação adoraria que estas coisas realmente lhe acontecessem. Nós, por exemplo, adorávamos comprar uma casa na Quinta da Marinha pelo preço de uma cave na Baixa da Banheira. Interessa-nos lá que haja demónios ou fantasmas na casa! É que na mesma hora púnhamos o imóvel a venda por um preço bom e passávamos a batata quente para a próxima família. O princípio parece-nos lógico: se nos apanharam a nós, também nós podemos apanhar outros. Desde que as paredes não sangrem quando os futuros compradores estiverem a visitar a casa… tudo bem. 🙂

Cliché #7 – Os animais sempre sentem os fantasmas!

É sempre a mesma velha história: a família muda-se para uma casa nova e o cão da família começa logo a ficar maluco. Pulgas? Não. Fantasmas. Ninguém nunca se lembrou que as iguanas também podem sentir o after life. Parece que desde o maravilhoso POLTERGEIST (1982) que o arquétipo de mensageiro passou a recair nos cães, pois são eles que anunciam que aquela casa maravilhosa foi, afinal, uma péssima compra.

Cliché #8 – A cena da banheira.

Nós todos sabemos que desde 1960 que tomar um banho deixou de ser um acto banal, passando a ser um espectáculo audiovisual de montagem e som. Conscientes de que cenas destas são irrepetíveis, os argumentistas de terror criaram a alternativa à cena do duche: a cena da banheira. A partir de então todo o terror doméstico que se preze tem que ter uma cena na banheira: ou é a mão que tenta afogar a rapariga ou é a cortina que tenta sufocá-la ou é outra coisa qualquer (acompanhada ou não do sangue que pinga sempre do tecto ou de outro sítio qualquer). A lavagem a seco, como aconselhava o Hitchcock, nunca fez tanto sentido.

Cliché #9 – Smash cuts com imagens bizarras no meio da cena.

BOOGEYMAN (2005)

De todos, este é o cliché mais recente – resultado do enorme poder que os sistemas de edição digital vieram dar aos produtores, realizadores e afins. Um gajo aproxima-se muito lentamente de uma porta. Vai tocar a maçaneta… e subitamente é como se o furacão Katrina tomasse conta do ecrã com 200 planos de imagens bizarras e ruídos esquisitos exibidos em três ou quatro segundos. Voltamos ao gajo que roda a maçaneta e a surpresa suprema: a porta abre-se e não há nada do outro lado. O que nós não conseguimos perceber é se este efeito serve para acordar os espectadores que estão a dormir ou se é para gastar tempo fazendo um filme de 20 minutos passar a ter 90. O júri ainda não se decidiu. Parece-nos tristemente irónico que a casa (ou neste caso hotel) que Kubrick construiu foi destruída por um computador!

Cliché #10 – A floresta é habitada por freaks homicidas.

Lá está outro cliché que já tem barbas: um grupo de amigos atravessa uma floresta e descobre uma família de freaks. Mas o que chateia mais não é o facto deste cliché derivar de um grande filme – DELIVERANCE (1972) – mas sim o facto deste ser um cliché incorrecto. Aliás, qualquer pessoa que vá ao Bairro Alto num Sábado à noite consegue ver que este cliché está errado. As florestas, afinal, são profundamente seguras.

Cliché #11 – Os vampiros são sempre chiques e ricos.

UNDERWORLD (2003)

Os certificados de aforro ao fim de 400 anos só podem render uma fortuna! Esta só pode ser a explicação para os vampiros serem sempre chiques e riquíssimos. Basta ver a casa dos vampiros no TWILIGHT (2008). Estas pessoas sequer declaram IRS? A entrada da mansão dos vampiros em UNDERWORLD (2003) mais parece o lounge de uma discoteca da moda: gente jovem, linda e bem vestida sentada em sofás de pele em momento de chillout. Felizmente algumas mentes iluminadas já começaram a fugir a este cliché irritante.

Cliché #12 – Carros que teimam em não funcionar.

Uma das razões pelas quais a indústria automobilística norte-americana está com tantos problemas não tem nada a ver com a concorrência japonesa. A verdade é que as pessoas se acostumaram durante anos com a ideia de que quando queremos fugir de alguma coisa os carros norte-americanos levam tempo a funcionar (quando funcionam). Este é, felizmente, outro cliché que está a cair em desuso.

Cliché #13 – O assassino está no banco de trás.

Este é outro clássico que ninguém parece querer desafiar – para piorar os males de Detroit. Não só os carros norte-americanos demoram a funcionar como ainda são um convite fácil ao primeiro facínora que neles queira entrar. Na vida real, um assassino fechado num carro nem que seja por dez minutos embacia logo os vidros todos. Duh!

Conheces mais clichés? Nós conhecemos montes deles!  Estes 13 (gulp!) são apenas aqueles que nos parecem mais absurdos. Diz-nos quais são os teus clichés favoritos e nós garantimos que aqui na Bad Behavior tentaremos fugir deles. Até breve!

Os melhores primeiros dez minutos de um filme de terror.

January 22, 2010

Os primeiros dez minutos de um filme de terror são muito importantes na medida em que eles condicionam a resposta do espectador face ao filme inteiro. Esta é uma experiência pela qual todos nós já passámos: vemos o filme “X” e os seus primeiros dez minutos são completamente banais. A partir daqui a nossa relação com filme fica comprometida e o argumento ou o realizador ou outra coisa qualquer terão de ser absolutamente geniais para conseguir inverter esta relação (o que é muito raro). Por outro lado, vemos o filme “Y” e os primeiros dez minutos arrebatam-nos ao oferecerem muito mais do que a mera introdução da história. A partir daqui queremos gostar do filme – ficamos predispostos a isto – e o resto do filme passa a ter o seguinte desafio: confirmar esta predisposição (o que também não é fácil) ou frustrá-la (isto sim, e infelizmente, bem mais comum).

O grande problema é que nem todas as histórias permitem (ou mesmo pedem) uns primeiros dez minutos arrebatadores. Algumas histórias pedem um início discreto de forma a surpreender mais tarde o espectador com uma recompensa por terem aguentado uns dez minutos iniciais propositadamente apagados. É como se o filme claramente nos dissesse “aguentem lá estes dez minutos a brincar porque vai valer à pena, pois a partir do minuto 14 (ou 22) a gente vai dar-te mais do que aquilo que tu procuras”.

A diferença entre estes primeiros dez minutos deliberadamente banais e aqueles primeiros dez minutos verdadeiramente banais está em pequenos sinais que o próprio filme nos envia graças a um sistema de pistas bem posicionadas. Outra diferença tem a ver com a própria resposta do público que já viu o filme e que “passa a palavra” de que aquela história banal, a dada altura, descola para algo de sensacional. Todos nós já ouvimos isto.

Seja qual for o caso, estes primeiros dez minutos põem sempre o mesmo desafio: manter o espectador contente após dez minutos sensacionais ou fazer o espectador contente com uma descolagem para algo de sensacional após dez minutos intencionalmente banais.

Mas vamos lá a alguns exemplos para que se perceba do que estamos a falar.

Exemplo 1 – DAWN OF THE DEAD (2004)

Dawn of the Dead poster

DAWN OF THE DEAD (2007)

Este é o exemplo de um filme de terror que começa com os 10 minutos mais alucinantes que se podem imaginar. Primeiro começamos com Ana: a protagonista no fim do seu dia de trabalho enquanto enfermeira. Ela é caracterizada em menos de 30 segundos como alguém se esforça muito (trabalha para além do seu turno) diante de um médico insensível. O subtexto é claro e abre logo o caminho a uma relação de empatia com o espectador.

Este final de dia de trabalho para Ana contém mais do que o fim do dia: ele contém toda a vida de Ana – o seu trabalho, as suas amizades, o caminho para casa, a música de plástico que ouve no carro, a filha dos vizinhos, o marido que parece trabalhar em construção civil, a rotina do reality show nocturno e finalmente o sexo durante o duche seguido de uma noite de sono que resume exactamente isto: o absoluto despreparo para o caos que se seguirá.

Pela manhã, Ana acorda num mundo que não é o dela: a filha dos vizinhos é agora um zombie, seu marido transforma-se igualmente num zombie e a vizinhança está a ser destruída por zombies, incêndios, explosões e acidentes de carro. Ana é forçada a reagir (coisa que ela habitualmente não faz) e lutar pela sua sobrevivência.

Estes primeiros dez minutos mostram ainda algo de extraordinário: a crise com a qual todos são confrontados aconteceu durante a noite (foi elipsada pela narrativa) e apanhou todas as pessoas desprevenidas. O mundo que Ana conhecia já deixou de existir há muitas horas e ela esteve a dormir (e este dormir serve para a sua vida inteira até então). Por outras palavras, enquanto o mundo estava bem, Ana vivia a dormir e de tanto dormir, perdeu a hipótese de se preparar. Ana somos nós.

Estes primeiros dez minutos progridem do particular para o geral: da vida de Ana para a vizinhança em caos e desta para a cidade inteira (quando vemos o plano aéreo de Milwaukee onde são visíveis os múltiplos focos de destruição). A marcar o fim desta sequência, temos o acidente de carro que põe a protagonista de volta ao estado de desvantagem e despreparo inicial. Segue-se o genérico inicial. Desta forma, o filme quase que se reinicia.

Estes primeiros dez minutos em DAWN OF THE DEAD estão primorosamente bem construídos: resumem a vida da protagonista criando com eficácia uma relação de empatia entre ela e o espectador, mostram a forma inesperada como a crise começa, mostram com uma enorme economia narrativa a visão de um mundo em plena destruição e lançam a protagonista de volta ao seu problema principal: sobreviver ao resto do filme.

Apercebendo-se da extrema eficácia dos dez primeiros minutos de DAWN OF THE DEAD, o distribuidor (a Universal Pictures) decidiu exibi-los na televisão para promover a estreia do filme nas salas de cinema – uma iniciativa muito rara que nos permite perceber melhor o valor que o início de um filme pode representar.

O problema em DAWN OF THE DEAD é que o resto do filme, infelizmente perde o fôlego após os primeiros 60 minutos, terminando aquém das expectativas criadas – o que nos mostra como esta estratégia é difícil de gerir.

Exemplo 2 – ZOMBIELAND (2009)

Zombieland poster

ZOMBIELAND (2009)

Este é outro exemplo de um filme de terror que arranca com dez minutos alucinantes. Mas ao contrário de DAWN OF THE DEAD, que ainda procura mostrar de uma forma crítica os contrastes entre o antes e o depois do surgimento dos zombies na vida da protagonista, ZOMBIELAND já começa in media res. O mundo já está plena crise e os zombies já estão por todo o lado. É no meio disto tudo que encontramos Columbus, um rapaz meio neurótico que sobrevive devido a uma lista de medos e obsessões que o protegem dos problemas.

O filme já começa em plena crise, tirando partido de tudo aquilo que o espectador já sabe, imagina ou já viu noutros filmes. É como se o filme dissesse “não vamos gastar tempo com contextualizações porque vocês já as viram noutros filmes.” E a estratégia funciona em parte graças às situações em que o protagonista se encontra e em parte graças à forma engraçada como a narrativa faz alusão às regras que Columbus segue religiosamente (e que aparecem inscritas no próprio filme como se fizessem parte da ficção).

ZOMBIELAND diverge de DAWN OF THE DEAD por três motivos: é uma mistura de géneros (terror e comédia), é um road movie e possui uma narração em voice-over. Os dez minutos iniciais estão centrados unicamente na caracterização de Columbus (a forma como ele sobrevive num mundo em crise graças às neuroses que antes eram uma desvantagem) e no seu encontro com Tallahassee (uma personagem que é o oposto de Columbus em termos de traços e temperamento).

Ao fim dos primeiros dez minutos, o conta-quilómetros e o velocímetro da história praticamente regressam ao zero e o protagonista está a caminhar sozinho por uma estrada no primeiro momento importante do filme: o encontro com Tallahassee. O terror vem das situações que os dois vão encontrar. A comédia surge do contraste de temperamentos (uma fórmula de sucesso em muitas comédias).

Também ao contrário de DAWN OF THE DEAD, em ZOMBIELAND o argumento teve o cuidado em manter a história genuinamente assustadora e engraçada – o que faz deste filme o exemplo de como a qualidade dos dez minutos iniciais podem ter continuidade. Esta é uma das razões pelas quais ZOMBIELAND obteve um enorme sucesso de bilheteira mesmo pertencendo a um subgénero (mistura de terror com comédia) que habitualmente não tem tanto retorno quando o género de terror puro. ZOMBIELAND até ultrapassou DAWN OF THE DEAD como o filme de zombies mais rentável dos últimos anos.

Exemplo 3 – [REC] (2007)

REC (2007)

Aqui trata-se do exemplo contrário: este filme possui uns dez primeiros minutos deliberadamente desinteressantes contra a promessa de um horror que só aparece mais tarde. Isto acontece porque [REC] começa com uma ficção dentro da ficção: a protagonista é uma repórter de um programa nocturno de televisão no meio da gravação do seu programa. E este programa cobre a noite supostamente interessante (mas na verdade muito desinteressante) de um quartel de bombeiros.

Dez minutos são justamente o tempo que [REC] gasta nesta ficção absolutamente desinteressante até o momento em que os bombeiros (e a protagonista) entram no prédio desconhecido para responder a uma chamada de emergência. E é apenas a partir daqui que o filme de terror realmente começa.

É claro que se a promessa feita ao espectador é confirmada ou frustrada, é sempre uma questão de gosto. No entanto, este é o acordo feito ao longo dos primeiros dez minutos de filme. Os sinais que o filme lança são claros: a noite no quartel dos bombeiros é tão desinteressante (homens a comer, a jogar e a dormir) que seja o que for que venha pela frente deve ser muito bom – caso contrário, o filme inteiro é um grande falhanço. Novamente ficamos curiosos a receptivos à proposta lançada e esperamos algo de especial na proporção inversa à banalidade apresentada.

Mas o problema neste tipo de construção é nada menos do que o problema central de todo o cinema de terror porque fora os filmes que começam já de forma alucinante (como nos casos de DAWN OF THE DEAD e ZOMBIELAND) todas as histórias começam com algum grau de banalidade face a qual, a dada altura, temos que descolar com um horror que surpreenda o espectador. Deste ponto de vista, [REC] é apenas um caso de sucesso em meio a muitos filmes menores.

É claro que estas duas estratégias de que estamos a falar não devem ser vistas de uma forma redutora como se apenas estivéssemos diante da opção entre uma e outra. Pelo contrário, estas duas opções estratégicas apenas representam os lados opostos de um espectro muito largo que vai do início apoiado em si próprio enquanto fonte de interesse do espectador ao início centrado na progressão linear da história enquanto fonte de interesse. Deste ponto de vista, ZOMBIELAND é um óptimo exemplo do primeiro tipo (um princípio marcado por um ritmo vertiginoso, relativamente independente do resto da história – muito semelhante aos prólogos nos filmes do James Bond) enquanto [REC] é um óptimo exemplo do segundo tipo (uma narrativa de tal forma apoiada na sequencial escalada dos acontecimentos que pode dar-se ao luxo extremo de gastar 10 minutos com um programa de televisão banal).

É entre estes dois extremos que se situam os primeiros dez minutos de todos os outros filmes de terror – independentemente até do sucesso que cada filme obtém na confirmação ou frustração das expectativas criadas pelas regras do jogo.

Aqui na Bad Behavior estamos a trabalhar muito para desenvolver projectos de Cinema de Terror que sejam especiais. Esperamos que este pequeno texto contribua para que se discuta o Cinema de Horror como ele merece.

Em breve daremos a conhecer os nossos projectos.

Fiquem atentos!

Bad Behavior has arrived!

January 22, 2010

Some Bad Behavior has arrived!

At last there is a place in Portugal for the development and production of Horror Films. But we are not talking about just any kind of Horror. What we are dealing with here are original concepts and ideas you won’t find easily anywhere. We are talking about a Horror that is much bolder than the usual because we know the international market is not looking for just more of the same. Today’s audiences are very much demanding. And so are we.

Our projects are already being developed in full gear and soon enough you’ll know more about each one of them.

But more than a place dedicated to Film Production, this is a meeting point for those who love the genre. Here you will find a place where the terror, the horror, the bizarre, the ugly, the subversive, the macabre, the strange and the uncanny will always be defended and cared for. And it will all be made in Europe.

This is our life. This is our vision. This is our project.

Be most welcome!

🙂 Do you wanna get in touch with us? Here is our e-mail address: badbehavior@sapo.pt .

A Bad Behavior chegou!

January 21, 2010

A Bad Behavior chegou!

Finalmente surge em Portugal um espaço de concepção, desenvolvimento e produção de Cinema de Horror. Mas não se trata de um Cinema de Horror qualquer. Trata-se antes de conceitos e ideias originais que você nunca viu. Trata-se de um horror mais arrojado do que o habitual porque nós sabemos que o mercado internacional não está a procura de mais do mesmo. O público actual é muito exigente. E nós também.

Os nossos projectos já se encontram em pleno desenvolvimento e muito em breve você ficará a conhecer mais sobre cada um deles.

Mas mais do que um espaço dedicado à produção de filmes, este espaço é um ponto de encontro para quem ama o género. Aqui, você encontrará um espaço onde o terror, o horror, o bizarro, o feio, o subversivo, o macabro, o estranho e o inquietante serão sempre defendidos e acarinhados. E será tudo made in Europe.

Esta é a nossa vida. Esta é a nossa visão. Este é o nosso projecto.

Sejam muito bem-vindos!

🙂 Deseja entrar em contacto connosco? Cá está o nosso e-mail: badbehavior@sapo.pt .


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