Os melhores primeiros dez minutos de um filme de terror.

Os primeiros dez minutos de um filme de terror são muito importantes na medida em que eles condicionam a resposta do espectador face ao filme inteiro. Esta é uma experiência pela qual todos nós já passámos: vemos o filme “X” e os seus primeiros dez minutos são completamente banais. A partir daqui a nossa relação com filme fica comprometida e o argumento ou o realizador ou outra coisa qualquer terão de ser absolutamente geniais para conseguir inverter esta relação (o que é muito raro). Por outro lado, vemos o filme “Y” e os primeiros dez minutos arrebatam-nos ao oferecerem muito mais do que a mera introdução da história. A partir daqui queremos gostar do filme – ficamos predispostos a isto – e o resto do filme passa a ter o seguinte desafio: confirmar esta predisposição (o que também não é fácil) ou frustrá-la (isto sim, e infelizmente, bem mais comum).

O grande problema é que nem todas as histórias permitem (ou mesmo pedem) uns primeiros dez minutos arrebatadores. Algumas histórias pedem um início discreto de forma a surpreender mais tarde o espectador com uma recompensa por terem aguentado uns dez minutos iniciais propositadamente apagados. É como se o filme claramente nos dissesse “aguentem lá estes dez minutos a brincar porque vai valer à pena, pois a partir do minuto 14 (ou 22) a gente vai dar-te mais do que aquilo que tu procuras”.

A diferença entre estes primeiros dez minutos deliberadamente banais e aqueles primeiros dez minutos verdadeiramente banais está em pequenos sinais que o próprio filme nos envia graças a um sistema de pistas bem posicionadas. Outra diferença tem a ver com a própria resposta do público que já viu o filme e que “passa a palavra” de que aquela história banal, a dada altura, descola para algo de sensacional. Todos nós já ouvimos isto.

Seja qual for o caso, estes primeiros dez minutos põem sempre o mesmo desafio: manter o espectador contente após dez minutos sensacionais ou fazer o espectador contente com uma descolagem para algo de sensacional após dez minutos intencionalmente banais.

Mas vamos lá a alguns exemplos para que se perceba do que estamos a falar.

Exemplo 1 – DAWN OF THE DEAD (2004)

Dawn of the Dead poster

DAWN OF THE DEAD (2007)

Este é o exemplo de um filme de terror que começa com os 10 minutos mais alucinantes que se podem imaginar. Primeiro começamos com Ana: a protagonista no fim do seu dia de trabalho enquanto enfermeira. Ela é caracterizada em menos de 30 segundos como alguém se esforça muito (trabalha para além do seu turno) diante de um médico insensível. O subtexto é claro e abre logo o caminho a uma relação de empatia com o espectador.

Este final de dia de trabalho para Ana contém mais do que o fim do dia: ele contém toda a vida de Ana – o seu trabalho, as suas amizades, o caminho para casa, a música de plástico que ouve no carro, a filha dos vizinhos, o marido que parece trabalhar em construção civil, a rotina do reality show nocturno e finalmente o sexo durante o duche seguido de uma noite de sono que resume exactamente isto: o absoluto despreparo para o caos que se seguirá.

Pela manhã, Ana acorda num mundo que não é o dela: a filha dos vizinhos é agora um zombie, seu marido transforma-se igualmente num zombie e a vizinhança está a ser destruída por zombies, incêndios, explosões e acidentes de carro. Ana é forçada a reagir (coisa que ela habitualmente não faz) e lutar pela sua sobrevivência.

Estes primeiros dez minutos mostram ainda algo de extraordinário: a crise com a qual todos são confrontados aconteceu durante a noite (foi elipsada pela narrativa) e apanhou todas as pessoas desprevenidas. O mundo que Ana conhecia já deixou de existir há muitas horas e ela esteve a dormir (e este dormir serve para a sua vida inteira até então). Por outras palavras, enquanto o mundo estava bem, Ana vivia a dormir e de tanto dormir, perdeu a hipótese de se preparar. Ana somos nós.

Estes primeiros dez minutos progridem do particular para o geral: da vida de Ana para a vizinhança em caos e desta para a cidade inteira (quando vemos o plano aéreo de Milwaukee onde são visíveis os múltiplos focos de destruição). A marcar o fim desta sequência, temos o acidente de carro que põe a protagonista de volta ao estado de desvantagem e despreparo inicial. Segue-se o genérico inicial. Desta forma, o filme quase que se reinicia.

Estes primeiros dez minutos em DAWN OF THE DEAD estão primorosamente bem construídos: resumem a vida da protagonista criando com eficácia uma relação de empatia entre ela e o espectador, mostram a forma inesperada como a crise começa, mostram com uma enorme economia narrativa a visão de um mundo em plena destruição e lançam a protagonista de volta ao seu problema principal: sobreviver ao resto do filme.

Apercebendo-se da extrema eficácia dos dez primeiros minutos de DAWN OF THE DEAD, o distribuidor (a Universal Pictures) decidiu exibi-los na televisão para promover a estreia do filme nas salas de cinema – uma iniciativa muito rara que nos permite perceber melhor o valor que o início de um filme pode representar.

O problema em DAWN OF THE DEAD é que o resto do filme, infelizmente perde o fôlego após os primeiros 60 minutos, terminando aquém das expectativas criadas – o que nos mostra como esta estratégia é difícil de gerir.

Exemplo 2 – ZOMBIELAND (2009)

Zombieland poster

ZOMBIELAND (2009)

Este é outro exemplo de um filme de terror que arranca com dez minutos alucinantes. Mas ao contrário de DAWN OF THE DEAD, que ainda procura mostrar de uma forma crítica os contrastes entre o antes e o depois do surgimento dos zombies na vida da protagonista, ZOMBIELAND já começa in media res. O mundo já está plena crise e os zombies já estão por todo o lado. É no meio disto tudo que encontramos Columbus, um rapaz meio neurótico que sobrevive devido a uma lista de medos e obsessões que o protegem dos problemas.

O filme já começa em plena crise, tirando partido de tudo aquilo que o espectador já sabe, imagina ou já viu noutros filmes. É como se o filme dissesse “não vamos gastar tempo com contextualizações porque vocês já as viram noutros filmes.” E a estratégia funciona em parte graças às situações em que o protagonista se encontra e em parte graças à forma engraçada como a narrativa faz alusão às regras que Columbus segue religiosamente (e que aparecem inscritas no próprio filme como se fizessem parte da ficção).

ZOMBIELAND diverge de DAWN OF THE DEAD por três motivos: é uma mistura de géneros (terror e comédia), é um road movie e possui uma narração em voice-over. Os dez minutos iniciais estão centrados unicamente na caracterização de Columbus (a forma como ele sobrevive num mundo em crise graças às neuroses que antes eram uma desvantagem) e no seu encontro com Tallahassee (uma personagem que é o oposto de Columbus em termos de traços e temperamento).

Ao fim dos primeiros dez minutos, o conta-quilómetros e o velocímetro da história praticamente regressam ao zero e o protagonista está a caminhar sozinho por uma estrada no primeiro momento importante do filme: o encontro com Tallahassee. O terror vem das situações que os dois vão encontrar. A comédia surge do contraste de temperamentos (uma fórmula de sucesso em muitas comédias).

Também ao contrário de DAWN OF THE DEAD, em ZOMBIELAND o argumento teve o cuidado em manter a história genuinamente assustadora e engraçada – o que faz deste filme o exemplo de como a qualidade dos dez minutos iniciais podem ter continuidade. Esta é uma das razões pelas quais ZOMBIELAND obteve um enorme sucesso de bilheteira mesmo pertencendo a um subgénero (mistura de terror com comédia) que habitualmente não tem tanto retorno quando o género de terror puro. ZOMBIELAND até ultrapassou DAWN OF THE DEAD como o filme de zombies mais rentável dos últimos anos.

Exemplo 3 – [REC] (2007)

REC (2007)

Aqui trata-se do exemplo contrário: este filme possui uns dez primeiros minutos deliberadamente desinteressantes contra a promessa de um horror que só aparece mais tarde. Isto acontece porque [REC] começa com uma ficção dentro da ficção: a protagonista é uma repórter de um programa nocturno de televisão no meio da gravação do seu programa. E este programa cobre a noite supostamente interessante (mas na verdade muito desinteressante) de um quartel de bombeiros.

Dez minutos são justamente o tempo que [REC] gasta nesta ficção absolutamente desinteressante até o momento em que os bombeiros (e a protagonista) entram no prédio desconhecido para responder a uma chamada de emergência. E é apenas a partir daqui que o filme de terror realmente começa.

É claro que se a promessa feita ao espectador é confirmada ou frustrada, é sempre uma questão de gosto. No entanto, este é o acordo feito ao longo dos primeiros dez minutos de filme. Os sinais que o filme lança são claros: a noite no quartel dos bombeiros é tão desinteressante (homens a comer, a jogar e a dormir) que seja o que for que venha pela frente deve ser muito bom – caso contrário, o filme inteiro é um grande falhanço. Novamente ficamos curiosos a receptivos à proposta lançada e esperamos algo de especial na proporção inversa à banalidade apresentada.

Mas o problema neste tipo de construção é nada menos do que o problema central de todo o cinema de terror porque fora os filmes que começam já de forma alucinante (como nos casos de DAWN OF THE DEAD e ZOMBIELAND) todas as histórias começam com algum grau de banalidade face a qual, a dada altura, temos que descolar com um horror que surpreenda o espectador. Deste ponto de vista, [REC] é apenas um caso de sucesso em meio a muitos filmes menores.

É claro que estas duas estratégias de que estamos a falar não devem ser vistas de uma forma redutora como se apenas estivéssemos diante da opção entre uma e outra. Pelo contrário, estas duas opções estratégicas apenas representam os lados opostos de um espectro muito largo que vai do início apoiado em si próprio enquanto fonte de interesse do espectador ao início centrado na progressão linear da história enquanto fonte de interesse. Deste ponto de vista, ZOMBIELAND é um óptimo exemplo do primeiro tipo (um princípio marcado por um ritmo vertiginoso, relativamente independente do resto da história – muito semelhante aos prólogos nos filmes do James Bond) enquanto [REC] é um óptimo exemplo do segundo tipo (uma narrativa de tal forma apoiada na sequencial escalada dos acontecimentos que pode dar-se ao luxo extremo de gastar 10 minutos com um programa de televisão banal).

É entre estes dois extremos que se situam os primeiros dez minutos de todos os outros filmes de terror – independentemente até do sucesso que cada filme obtém na confirmação ou frustração das expectativas criadas pelas regras do jogo.

Aqui na Bad Behavior estamos a trabalhar muito para desenvolver projectos de Cinema de Terror que sejam especiais. Esperamos que este pequeno texto contribua para que se discuta o Cinema de Horror como ele merece.

Em breve daremos a conhecer os nossos projectos.

Fiquem atentos!

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