A controversa arte do remake.

Toda a gente parece odiar os remakes de filmes de horror que todos os anos inundam as nossas salas de cinema.

De facto, nesta primeira década do século XXI temos vindo a assistir o surgimento de remakes de tudo e mais alguma coisa – com especial destaque para o cinema de horror. Alguns são muito bons, outros são absolutamente horríveis. Aqueles que são fãs das versões originais gritam “sacrilégio!” enquanto outros espectadores olham para o THE LAST HOUSE ON THE LEFT original (1972) e não acreditam que aquilo alguma vez tenha assustado alguém. Cá na BAD BEHAVIOR acreditamos que o cinema de horror é um universo vivo e dinâmico, onde há lugar para tudo. E ao invés de estarmos a defender ou a atacar (não é este o nosso papel), vamos tentar explicar um pouco como funciona esta controversa arte do remake.

“Destruir” é um verbo muito forte. Mas é isto que os fãs muitas vezes sentem quando se anuncia o remake de um filme que todos amam. É o que está a acontecer, por exemplo, com a nova adaptação do filme sueco LET THE RIGHT ONE IN (2008) que irá estrear dentro de alguns dias nos Estados Unidos. Chama-se LET ME IN (2010) e é realizada por Matt (CLOVERFIELD) Reeves. Ora, como ainda não vimos o filme, é claro que não podemos estar a comparar (facto inevitável). No entanto, é impossível não reparar a onda de fãs da versão original (grande filme, sim senhor!) a gritar que Hollywood irá destruir o filme sueco em prol da sua versão.

Mas a realidade é mais complexa. Primeiro que tudo, Hollywood somente pode pensar em fazer um remake se o autor da obra original (neste caso, John Ajlinde Lindquist – que além do livro também escreveu o argumento da versão sueca) concordar em ceder (a troco de dinheiro) os direitos de adaptação ao produtor norte-americano interessado.

LET THE RIGHT ONE IN foi um sucesso de bilheteira e o mérito é de todos: dos actores, dos técnicos, do realizador, do produtor e do próprio Lindquist que criou uma história muito especial. Infelizmente, sendo um filme sueco, o seu poder de penetração em vários mercados (entre eles o norte-americano) é limitado e apesar das qualidades, o retorno financeiro do filme (embora excelente para um filme de horror escandinavo) tem os seus limites. E mais: tendo em consideração que o filme sueco foi uma produção relativamente pequena, é perfeitamente natural que Lindquist NÃO tenha ganho uma soma astronómica quer pela venda dos direitos de adaptação (para o filme), quer pelo trabalho enquanto argumentista da sua própria história.

Hollywood pode ter muitos defeitos, mas não é burra. Ao longo da sua história, foram inúmeros os produtores que sentiram o cheiro de uma boa narrativa e correram a adquirir os direitos de remake – o que significa um ganho adicional SUBSTANCIAL para autores como Lindquist que sabem que o seu “material”, se utilizado por Hollywood, ganha um valor (e um preço) bastante superior àquilo que foi pago na versão original. Isto significa que a primeira pessoa responsável pelo sacrilégio de um remake de LET THE RIGHT ONE IN é o próprio autor! (risos)

O grande George A. Romero (em breve no MOTELx) é o exemplo de um autor em constante luta contra um sistema industrial – basta lermos os inúmeros textos publicados que nos mostram como tem sido difícil para este criador erguer os seus projectos (a história conturbada de DAY OF THE DEAD (1985) vem-nos à cabeça imediatamente). Mas tem sido o próprio Romero quem (com toda a justiça e o mérito do seu talento) tem se beneficiado das vendas dos direitos para remake das suas obras. O seminal NIGHT OF THE LIVING DEAD (1968) já teve dois remakes (1990 e 2006 – este último em 3D) e o remake produzido em 2004 de DAWN OF THE DEAD (1978) foi um mega-sucesso. A questão central acaba por ser esta: mesmo sendo fãs das versões originais, devemos ficar muito felizes pelo facto do Romero estar a ganhar dinheiro e notoriedade adicionais graças aos remakes de que até podemos não gostar. Aliás, é em parte graças a este sucesso adicional que nos últimos cinco anos George A. Romero pôde nos dar três novos filmes da série “…of the Dead”.

 

SACRILÉÉÉGIO!!!

 

 

Um mega-sucesso.

 

Podemos detestar o remake “muito livre” (produzido em 2008) de DAY OF THE DEAD – lançado directamente em DVD e claramente feito a pensar na popularidade do remake do Zack Snyder (até o poster tenta copiá-lo) – mas ADORAMOS o Romero… e se alguém quiser lançar um perfume chamado “THE CRAZIES” (e comprar-lhe o direito do título), lá estaremos a aplaudi-lo de pé.

Os fãs muitas vezes também esquecem que são as obras originais aquelas que mais se beneficiam com um remake. Ou porque uma boa parte do público vais querer ver o original (que até então desconhecia) ou pelo simples facto do remake “alavancar” as vendas dos clássicos. [REC] (2007) é um bom exemplo: a versão em DVD apenas foi lançada na América depois do remake e beneficiou-se justamente porque uma boa parte dos espectadores ficou a saber que havia a versão espanhola. A versão em inglês deu notoriedade à versão original. O próprio remake foi um óptimo indício (para o produtor e para os realizadores espanhóis) de que o potencial do projecto não se extinguia com apenas um filme – daí o surgimento a posteriori de três sequelas. A primeira, [REC]2 (2009) já estreou mundialmente enquanto que as restantes (mesmo sem estarem filmadas) já possuem distribuição assegurada: [REC] Genesis (2011) e [REC] Apocalypse (2012).

O sucesso da nova versão do já referido clássico DAWN OF THE DEAD fez algo semelhante: no mesmo ano em que o remake chegou aos cinemas norte-americanos (capturando o primeiro lugar do box-office), a Anchor Bay lançou uma impressionante edição especial com quatro discos infestados de extras sensacionais. Ora, se pensarmos nos custos de produção e promoção, torna-se relativamente óbvio que se não fosse o remake, uma edição destas dimensões (raras mesmos entre os grandes clássicos) seria um enorme risco – e provavelmente jamais existiria. Aqui, o remake apenas beneficiou os fãs do filme original.

Por vezes o remake comete um efeito secundário indesejável: datar a versão original. THE THING (1982) e THE FLY (1986) são remakes tão diferentes das versões originais que é impossível não notar as décadas que as separam. O lado positivo é que são estas mesmas diferenças que direccionam espectadores específicos para versões específicas (num sistema onde ambas as versões co-existem com os seus respectivos pontos fortes). É claro que há quem prefira o THE INVASION OF THE BODY SNATCHERS de 1978 (quem não se lembra do cão com cara de homem?) sobre a versão de 1956… mas independentemente dos gostos pessoais, cada uma das versões tem o seu trunfo.

Em muitos destes casos, as noções de remake e readaptação se confundem. Se quiséssemos ser rigorosos, um remake seria a reutilização do mesmo guião no todo ou em parte num filme totalmente novo (o PSYCHO do Gus Van Sant é um grande exemplo), enquanto que uma readaptação pressupõe tendencialmente uma obra original noutro médium (um livro ou um conto, por exemplo) da qual os filmes partem. Drácula, por exemplo, possui (segundo o IMDB) dezenas de adaptações. Seria absurdo considerar que todas são remakes da primeira. Mas como é lógico, cada filme é um caso e é bem possível que algumas readaptações sejam também elas remakes mais ou menos claros de adaptações anteriores segundo objectivos de produção específicos.

É por esta razão que hoje, numa lógica de cinema industrial e global, ambas as noções se confundam com tanta frequência: porque apesar de ser uma readaptação (totalmente nova) do livro de Lindquist que não deseja destruir (ou substituir) o filme original, LET ME IN representa ao mesmo tempo uma tentativa de recriar numa escala Hollywoodiana o grande sucesso de uma pequena pérola europeia. Pode parecer ofensivo para uns, business para outros, ou ainda um sinal do reconhecimento da enorme qualidade de uma grande história.

Viva o cinema de horror europeu!

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