Dog Mendonça, Dark Horse e o mito sobre o que é possível fazer em Portugal.

Há dias soubemos que a banda desenhada “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” (escrita por Filipe Melo e desenhada por Juan Cavia) teria um spin-off americano publicado pela Dark Horse Comics. Ora, para além de ser uma excelente notícia a celebrar o talento dos seus autores, isto vem também nos chamar a atenção (novamente) para o enorme potencial (desprezado em Portugal) de tudo aquilo que por cá se cria nos domínios da fantasia, do fantástico e do terror.

Cá no nosso país há muito aquela ideia de que “cinema fantástico”, “filmes de terror” ou [escreva aqui uma designação semelhante] são tudo ideias malucas e que… bom mesmo é continuarmos a fazer os mesmos filmes de sempre porque cinema, como toda a gente sabe, não é para dar dinheiro. O problema é que o cinema é uma actividade como qualquer outra e ao fim de mais de cem anos de existência, ele continua a existir – a comprovar que se ele não dá dinheiro em Portugal a culpa não é do mercado. É nossa. É de quem o faz.

Nós é que procuramos (sistematicamente) nos posicionarmos fora do mercado, desenvolvendo e produzindo filmes que o mercado não deseja consumir. Não que o mercado seja estúpido ou ignorante: apenas acontece que ele encontra produtos melhores e mais baratos noutros países. É por isso que “Indústrias Criativas” é provavelmente o termo mais mal compreendido que anda por aí.

Ora, as Indústrias Criativas (de que fazem parte o Cinema, a Televisão, o Design, a Música, a Moda – e mais trezentas coisas sem as quais não conseguimos viver) apenas existem e são possíveis pressupondo uma ligação estreita entre elas (as tais indústrias) e o mercado em todo o seu esplendor. Deste ponto vista, estar em Hollywood, em Lisboa, no Rio de Janeiro ou em Marraquexe é igual. Isto acontece por duas razões. Primeiro porque os mercados actuais são globais e segundo porque o público consumidor é activo: ele procura aquilo que deseja consumir utilizando para isto um vasto arsenal de ferramentas nunca antes disponível. A geografia é irrelevante. A criatividade não.

Cá está o poster em Hi-Def (coisas de geeks como nós...).

O cinema de terror norte-americano movimenta centenas de milhões de dólares todos os anos. Mas isto nós já sabemos: trata-se do mercado cinematográfico mais avançado, bem oleado, poderoso e com o maior alcance de todos. Estamos a falar de sequelas, remakes, franchises, direitos de merchandising e marcas muito bem trabalhadas. Basta lembrarmos, por exemplo, de quando a Paramount Pictures vendeu à New Line Cinema os direitos sobre a série “FRIDAY THE 13TH”.

Na falta de um bom título, acaba-se com coisas assim...

Após o relativo fracasso do oitavo filme da série (1989), a Paramount achou que mais valia vender os direitos a outro estúdio que quisesse arriscar em novos filmes. Para isto, vendeu o direitos sobre a história e personagens MAS reteve o direito sobre o título “FRIDAY THE 13TH” – justamente porque esta “marca” é um bem demasiado valioso (mesmo desligada dos filmes).

E isto é verdade se nos lembrarmos não somente de todos os produtos que foram lançados sob esta marca (ver o exemplo da BD ao lado) mas ainda do reboot recente que “obrigou” a New Line Cinema a dividir com a Paramount os direitos de distribuição (porque apesar de poder produzir o filme, a New Line Cinema não podia utilizar o título “FRIDAY THE 13TH”).

Um casamento forçado... para o bem dos filhos🙂

“FRIDAY THE 13TH” permanece como um dos franchises mais rentáveis e valiosos do cinema norte-americano – juntamente com outras marcas que todos conhecemos: “HALLOWEEN”, “A NIGHTMARE ON ELM STREET” e os mais recentes mega-sucessos “TWILIGHT” e “SAW”.

Mas agora todos podem dizer “pois, tudo isto é muito bonito… mas estas coisas só existem nos Estados Unidos. Cá na Europa não se consegue fazer coisas destas”.

Errado.

Cá na Europa existem exemplos de grande sucesso. O melhor deles está mesmo aqui pertinho: “[REC]” de Jaume Balagueró e Paco Plaza. Este filme multi-premiado é mais do que um filme. É um óptimo produto audiovisual que nada fica a dever ao cinema norte-americano. E é um tipo de filme perfeitamente dentro daquilo que é orçamentável dentro dos parâmetros portugueses. Se pensarmos agora num mercado global permanentemente a procura de produtos de qualidade superior (porque a concorrência o exige) então chegamos à conclusão que “[REC]” é mais do que um grande produto: é o produto certo na hora certa. Há vinte anos atrás, um projecto destes não teria o alcance que teve. Mas hoje tem. O resto é História: o sucesso do filme gerou imediatamente um remake norte-americano… que por sua vez impulsionou o projecto original, dando origem a três sequelas (uma delas já estreada com enorme sucesso).

Mas agora todos podem dizer “pois, tudo isto é muito bonito… mas estas coisas só existem em Espanha (tão longe, não é?). Cá em Portugal não se consegue fazer coisas destas”.

Errado.

E cá estamos de volta ao nosso amigo Filipe Melo que consegue ter a sua BD (que começou, anos atrás, como um projecto para um filme) publicada pela mesma editora que trabalha “marcas” como “HELLBOY”, “ALIENS”, “PREDATOR” e “STAR WARS”. O universo do Dog Mendonça e do Pizzaboy não é apenas uma ideia maluca (como fazer filmes de terror em Portugal – risos🙂 ). É uma grande marca com um enorme potencial internacional – coisa que a Dark Horse Comics percebeu imediatamente.

Esta é a interpretação correcta do termo “Indústrias Criativas” – que concebe e produz produtos em total sintonia com aquilo que o mercado procura, quer consumir e pode pagar. E também é por isso que o Filipe está de parabéns🙂

Cá está um teaser da sequela que roubámos descaradamente do Facebook do Filipe.

É claro que este exemplo está longe do [REC]. Mas se o cinema português está longe de desenvolver e produzir projectos deste calibre (ou melhores) é porque é assim que queremos estar. Não é certamente porque é-nos impossível. O sucesso internacional da criação do Filipe Melo é uma pequena prova de que não há limites para aquilo que se consegue obter quando trabalhamos dentro do mercado, a dar o nosso melhor. Em Portugal e em português.

Até breve.

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4 Respostas to “Dog Mendonça, Dark Horse e o mito sobre o que é possível fazer em Portugal.”

  1. Francisco Peres Says:

    Quero tanto fazer cinema de fantasia em Portugal e em bom português!!!

  2. Os números de 2010. « Bad Behavior Says:

    […] O seu dia mais activo do ano foi 18 de Dezembro com 222 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Dog Mendonça, Dark Horse e o mito sobre o que é possível fazer em Portugal.. […]

  3. Sobre o Dog Mendonça e Pizzaboy II e a força das Indústrias Criativas. « Bad Behavior Says:

    […] ano passado, escrevemos um post acerca do convite feito pela Dark Horse Comics para publicação de histórias originais do Dog […]

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