Resolução de ano novo: que tal começar a escrever uma grande história?

A frase até pode ser um grande cliché: “ano novo, vida nova”. Mas os clichés não se tornam clichés sem algum motivo. E neste sentido, aquilo que propomos aos nossos leitores neste primeiro post do ano é algo de muito simples. Que tal começar hoje a trabalhar numa história de horror sensacional que venha a transformar-se num grande filme? É fácil pensar nas resoluções de ano novo mais comuns: frequentar o ginásio, deixar de fumar, comer alimentos mais saudáveis, divórcio e tantas outras. Mas esta resolução é muito mais simples, barata (sim, porque a crise não irá embora tão cedo) e apenas requer um pouco de tempo e paciência.

Há várias formas de começar.

LET THE RIGHT ONE IN (2008)

1 – Comece pela personagem. Não existe uma grande história sem grandes personagens. Veja, por exemplo, Oskar em LET THE RIGHT ONE IN (2008). Aparentemente trata-se de um miúdo de 12 anos como qualquer outro. No entanto, se esta personagem fosse apenas um miúdo como qualquer outro, a história não teria o mesmo interesse. A diferença está aqui: Oskar possui uma voz interior, vontades, problemas e desejos que se manifestam de uma forma clara ao ponto de criar uma ligação forte entre ele e o espectador. Nós não conhecemos o Oskar e muitos de nós podem nunca ter passado por aquilo que ele passou. No entanto, compreendemo-lo perfeitamente na medida em que tudo acerca dele faz sentido.

A SERBIAN FILM (2010)

2 – Comece pelo problema. Milos, em A SERBIAN FILM (2010) possui um problema: dinheiro. Agora junte-lhe uma oportunidade: uma velha amiga oferece-lhe a hipótese de ganhar uma soma bastante tentadora se Milos concordar em fazer um trabalho. O problema é, na prática, aquilo que pode lançar uma história da melhor maneira – se realmente for algo pungente e incontornável. Noutro filme totalmente diferente, THE WICKER MAN (1973), o protagonista possui uma missão (investigar o desaparecimento de uma rapariga) e dois problemas interligados: a) ele não consegue fazer valer a sua autoridade e b) ninguém na aldeia parece dizer a verdade e todos parecem esconder algo de horrível.

MARTYRS (2008)

3 – Comece pelo fim. Comece por fazer a seguinte pergunta: “qual seria o melhor final para este protagonista?” Ele consegue o que deseja? Ele não consegue o que deseja? Ele consegue algo que não esperava conseguir? Ele consegue aquilo que deseja e descobre que afinal deseja outra coisa? As opções podem ser infinitas, mas é excelente termos aquela que potencie todo o percurso até então. O objectivo não passa necessariamente por dar ao espectador um final que este não espera. Trata-se antes de encontrar um final face ao qual ninguém saia indiferente: MARTYRS (2008).

¿QUIÉN PUEDE MATAR A UN NIÑO? (1976)

4 – Comece pelo antagonista. O protagonista apenas será tão sensacional quanto o antagonista lhe exigir. Isto significa uma relação clara entre “poder” e “capacidade”. O antagonista tem o poder para causar todos os danos. O protagonista tem a capacidade de crescer e enfrentar os problemas (mesmo que o final resulte em fracasso). Os zombies e os vampiros, por exemplo, representam antagonistas massivos que exigem do protagonista um conjunto único de capacidades. Mas os antagonistas não necessitam de ser monstros horrorosos. Alguns dos melhores antagonistas estão em personagens que habitualmente não vemos enquanto tal. Em ¿QUIÉN PUEDE MATAR A UN NIÑO? (1976), por exemplo, os antagonistas são crianças adoráveis que habitam uma ilha espanhola – que um dia decidem matar todos os adultos.

LA HORDE (2009)

5 – Explore um espaço, um momento ou uma circunstância única. Ok, então Ángela Vidal está presa com o seu operador de câmara num prédio de apartamentos que acaba de ser selado pela polícia. E agora? Agora [REC] (2007). Ok, então os polícias e os criminosos percebem que devem necessariamente trabalhar juntos se quiserem escapar dos zombies. E agora? Agora LA HORDE (2009). Ok, então as duas irmãs começam a sentir o efeito da droga que o Dr. Heiter pôs na bebida. Não, ele não as quer torturar. O Doutor deseja muito mais: THE HUMAN CENTIPEDE (FIRST SEQUENCE) (2009).

LES DIABOLIQUES (1955)

6 – Explore a vida real. O mundo que nos rodeia pode oferecer inúmeras personagens, espaços e situações que desafiam qualquer ficção. Por si só, elas não vão além de uma nota de jornal. No entanto, podemos sempre tomar estas pequenas coisas como ponto de partida para “a tal personagem única” ou “o tal problema incontornável” que farão toda a diferença. Depois disto, deixe a ficção seguir o seu curso e não se preocupe tanto com a realidade (se a personagem deve ter a chave na mão ou no bolso – e em qual bolso?). Preocupe-se antes com a eficácia (o protagonista necessita desesperadamente de encontrar a chave – que solução resolve melhor o problema e exige mais sacrifício?). Bem vistas as coisas, Christina já teria morrido do coração ao fim dos primeiros 30 minutos do filme LES DIABOLIQUES (1955). Who cares? E será que alguém acredita que a filha do Dr. Génessier ainda estaria viva ao fim de tantos transplantes em LES YEUX SANS VISAGE (1960)? Who cares? E quanto ao Doutor Heiter, mostre-nos a centopéia sem as ligaduras e nós perdoamos-lhe tudo.🙂

Viva o cinema de terror europeu e tenham todos um grande 2011!🙂

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2 Respostas to “Resolução de ano novo: que tal começar a escrever uma grande história?”

  1. drminsky Says:

    ola
    Bom ano
    e curioso que de entre os filmes que fala
    um nao foi exibido no Fantasporto LET THE RIGHT ONE IN
    outro vai ser exibido este ano A SERBIAM MOVIE
    e os OUTROS fora todos ja exibidos…
    abraço
    MD

    • Bad Behavior Says:

      Verdade, amigo Mário.
      O Fantas sempre foi (e sempre será) uma referência e um porto amigo🙂
      Mas não lhe causa comichão (risos) que com um festival tão espectacular, Portugal não produza um único filme de terror por ano?
      Pois a nós causa e é isto que queremos mudar. Será que há algo de errado com a água que os nossos produtores e realizadores bebem em Lisboa?
      Nós já comprámos um filtro de água novo (não vá o Diabo tecê-las!) e cá continuamos a trabalhar duro nos nossos projectos. Esperamos um dia (em breve) impedir que alguns prémios saiam do nosso país. Estamos a preparar cinema de terror de qualidade e o Porto não será poupado.🙂
      Até breve e um grande abraço da Bad Behavior!
      Vemo-nos no Porto!

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