A arte perdida da sinopse.

Nos últimos meses, temos ajudado algumas pessoas no desenvolvimento de projectos de cinema de terror e fantástico. E uma coisa que sentimos é que a maioria das pessoas trabalha com imensa pressa. Não que exista algo de errado com o querer chegar a algum lado. Muito pelo contrário, é óptimo quando existe uma vontade de ver a luz no fim do túnel. Mas o problema não é chegar ao outro lado. O problema é, antes, o estado em que lá chegamos.

Imagina que vais a caminho do Dubai num Airbus A380.  Ora, o tempo gasto no desenvolvimento do avião não culmina com a tua descolagem. Pelo contrário, ele culmina com a tua chegada (ao Dubai) vivo e num só pedaço. É para este momento que se trabalha. A descolagem é apenas mais um componente da tua chegada. Voar é bem diferente de ser arremessado.

É claro que vai voar! Mas que pergunta estúpida é esta?😛

Portanto, a forma como chegamos ao outro lado do túnel é muito mais importante do que o mero chegar. E é neste sentido que o trabalho no desenvolvimento do projecto faz todo o sentido. Mas também aqui existem armadilhas a nossa espera. A primeira e mais grave é exactamente a pressa. E a sua pior manifestação acontece quando achamos que a história que temos para contar (na nossa cabeça) está tão consolidada que mais vale ligar os motores e partir rumo ao Dubai – porque é óbvio que vamos lá chegar… de qualquer jeito. Bem-vindos ao Cinema Português.

O trabalho sobre a sinopse é (no nosso país) um dos investimentos mais desprezados de todos – com consequências terríveis. O pensamento mais comum é “por que motivo é que eu vou gastar tanto tempo a escrever uma coisa que nunca será filmada, quando posso investir logo no guião que – este sim – será filmado?” Postas as coisas desta forma, é claro que só há uma resposta possível: avança lá então para o guião, pá! Esquece a sinopse.

Mas imagina que o teu hipotético Airbus A380 está a aproximar-se da pista de aterragem (no Dubai) e o piloto pergunta “caraças, onde está o botão que faz descer o trem de aterragem?”. Enquanto estava na pista, antes de partir, o avião estava assente sobre o trem de aterragem – logo a questão de fazê-lo baixar não se punha. Prova disto é que o único botão que existe no painel lê-se “fazer subir o trem de aterragem”. O espaço ao lado do botão está vazio. Por acaso, sentado ao teu lado, está um engenheiro da Airbus que é chamado até o cockpit. Confrontado com a dúvida do piloto, o gajo responde: “eu sabia que estávamos a esquecer qualquer coisa”.

Cá está uma óptima ideia para um concurso de TV: "So You Think You Can Land".

Seria óptimo se pudéssemos agora acrescentar um comando para fazer descer o trem de aterragem… mas já é demasiado tarde. O avião já está construído. Teoricamente até seria possível abrir um buraco no chão, chegar até o trem de aterragem e fazer o sistema todo operar ao contrário. Mas o problema em si é demasiado complexo para ser resolvido em tempo útil e o esforço requer mais meios do que aquilo que existe no momento. O avião lá terá que aterrar como está e o piloto vai tentar não sujar demasiado a pista com sangue e pedaços de passageiros – até porque há outros aviões a espera de usar a mesma pista.

É óbvio que estes sorrisos só duram até a página 30.

Entre uma sinopse e um guião, a relação é muito semelhante. A sinopse é o momento ideal para pensar todas as questões cruciais da história – da descolagem até a aterragem – e é também a fase do trabalho em que podemos fazer inúmeras alterações radicais com o mínimo de esforço criativo. A sinopse perdoa-nos todos os erros e não nos exige nada em troca. O guião, pelo contrário, é fortemente retroactivo: mudar alguma coisa implica voltar atrás e reescrever uma boa parte do que já está. E quanto mais já foi escrito, maior o esforço criativo de adequar o que já está àquilo que agora se deseja. Não é impossível e pode até haver quem consiga fazer isto sem problemas. Porém, the casino ALWAYS has the edge over the player.

É por isto que ao aproximar-se a uma velocidade de 500Km/h da pista do aeroporto é SEMPRE possível resolver o problema do trem de aterragem que nunca iria descer sozinho devido a uma falha de design. No entanto, dado o tempo que existe e os meios disponíveis, é POUCO PROVÁVEL que alguém o faça agora. A melhor altura para resolver este problema com o mínimo de custo era durante a sinopse🙂 .

Mas a melhor parte ainda nem é esta.

"One shot".

Casos extremos como o do nosso A380 NUNCA acontecem na vida real porque – como todos nós sabemos – a indústria da aviação gasta milhões em desenvolvimento (para garantir um design tão perfeito quanto possível) e milhares de horas em testes de voo com protótipos ANTES de um A380 (ou qualquer outro avião comercial) sequer chegar às mãos de uma companhia aérea. E é aqui que está a questão central deste post: no cinema, não existem protótipos. Ou dito doutra forma, seria excelente se pudéssemos fazer o filme todo, estreá-lo um bocadinho aqui e ali, receber o feedback, chamar a equipa de volta e um mês depois estrear algo muito melhor com todos os problemas já resolvidos. Isto pode ser a norma na indústria dos transportes. Mas não nas indústrias criativas. Em cinema, cada filme (o produto final) é sempre um protótipo único que nunca terá a chance de conhecer o conforto de uma linha de produção em série. E esta, hmm?

Infelizmente, no cinema, temos que acertar à primeira. O tempo gasto em sinopses é um óptimo investimento no sentido de construir este tal “à primeira”. Mesmo quando falamos do guião como o protótipo daquilo que o filme será, a verdade é que isto é um erro porque o produtor (ou distribuidor) que lê um guião já é um cliente (o primeiro de todos). Num mundo onde a perfeição não existe, o nosso objectivo é sempre que o nosso guião seja ele próprio um produto final de qualidade – “uma história do caraças, com apenas duas ou três questões de pormenor a resolver” do que “a ideia é boa, mas temos que reescrever isso tudo”.

O guião pronto é um avião já certificado.

Para resumir tudo, criámos esta tabela de conversão muito útil que fica muito bem ao lado do computador de um argumentista, de um produtor ou de um qualquer cidadão de bem. Enjoy!

Percebe-se agora o porquê do investimento na fase de sinopse: porque quanto mais nos aproximamos do avião pronto, mais complexo e dispendioso é o ter que regressar à fase de design para corrigir seja o que for. A coisa que mais custa em qualquer mudança é a adaptação. Logo, quanto mais esforço de adaptação necessário, maior é a nossa resistência à mudança. Portanto, sigam o nosso conselho: invistam na sinopse.

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