Archive for March, 2011

Mestres do cinema de terror europeu II: Mario Bava.

March 25, 2011

Mario Bava (1914-1980) é provavelmente o mestre absoluto do cinema de terror europeu e um nome incontornável no género. Há precisamente 40 anos (em 1971) estreava um dos seus filmes mais sensacionais: REAZIONE A CATENA que os norte-americanos viriam a dar como título A BAY OF BLOOD e mais tarde TWITCH OF THE DEATH NERVE. Este filme, aliás, é um dos primeiros slashers contemporâneos e tanto o conhecido FRIDAY THE 13TH (1980) como a sua sequela FRIDAY THE 13TH PART 2 (1981) chegaram mais tarde a reutilizar inúmeras cues visuais e alguns murder set pieces. O filme possui ainda um dos melhores finais que já vimos num filme de terror. 🙂

Mas além de ser um dos maiores autores no género, Mario Bava foi ainda um brilhante director de fotografia (na maioria dos filmes que realizou, também acumulou esta função) e operador de câmara. O seu estilo foi decisivo no surgimento do Giallo. Seu filme LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO (1963) é considerado o filme inaugural deste subgénero tão italiano. E autores como Dario Argento, Umberto Lenzi e Pupi Avati referiram inúmeras vezes o seu trabalho. Os filmes de Mario Bava foram distribuídos no mundo inteiro – sendo ele um dos autores italianos mais rentáveis de sempre. Ainda hoje podemos encontrar facilmente os seus filmes, editados e reeditados em DVD.

Reazione a Catena

Friday the 13th

Dois dos seus maiores sucessos são LA MASCHERA DEL DEMONIO (1960) e I TRE VOLTI DELLA PAURA (1963) – ambos lançados nos Estados Unidos com os títulos respectivos: BLACK SUNDAY e BLACK SABBATH (este último título, por sua vez, viria a influenciar uma conhecida banda de Heavy Metal). 🙂

Vários críticos, por inúmeras vezes, notaram grandes semelhanças narrativas e visuais entre TERRORE NELLO SPAZIO (1965) e o ALIEN (1979) de Ridley Scott. Muitos chegaram mesmo a apontar o filme de Mario Bava como uma influência no filme de Scott. Mas tanto Ridley Scott como o argumentista Dan O’Bannon (este último viria a escrever e realizar THE RETURN OF THE LIVING DEAD em 1985) sempre disseram nunca terem visto o filme italiano. Isto significa que mesmo não sendo uma influência, as (aparentes) semelhanças apenas mostram o quão à frente do seu tempo estava Mario Bava – tornando-o ainda mais interessante e obrigatório.

Anos depois, Lamberto Bava viria a seguir as pisadas do pai em filmes de enorme sucesso comercial como DÈMONI (1985) e DÈMONI 2: L’INCUBO RITORNA (1986).

Filme europeu da semana: “Night Watch”.

March 20, 2011

NIGHT WATCH (2004) de Timur Bekmambetov é um dos maiores sucessos de sempre do cinema russo juntamente com a sua sequela, DAY WATCH (2006) – este sim, o maior sucesso de sempre.

O projecto começou como uma encomenda do Channel One Russia – o canal público de TV na Rússia – enquanto adaptação da série de livros escritos por Sergey Lukyanenko. No entanto, já em fase de produção, o material filmado demonstrou um potencial que não podia ser ignorado. A estratégia de distribuição foi repensada e o filme teve como destino as salas de cinema.

É impossível não notar como o “Canal 1” na Rússia é diferente do “Canal 1” em Portugal – risos.

NIGHT WATCH foi um sucesso estrondoso, atraindo logo a atenção da 20th Century Fox que rapidamente adquiriu os direitos de distribuição globais (excluindo a própria Rússia e as repúblicas do Báltico). Até a data, apenas o primeiro filme arrecadou mais de 30 milhões de dólares, tendo sido distribuído (pela Fox, claro) em mais de 40 países. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde o filme estreou em limited release, conseguiu uma receita bruta de um milhão e meio de dólares. Nada mal. Em Espanha arrecadou ainda mais: 2,7 milhões. No Brasil, 200 mil. Até nas Ilhas Fiji o filme foi distribuído.

Novamente, é impossível não notar como o “Canal 1” na Rússia é diferente do “Canal 1” em Portugal…

O filme custou 4,5 milhões de dólares e, se tivermos em conta a enormidade de efeitos especiais que o filme possui, é inegável que NIGHT WATCH é um triunfo de produção – goste-se ou não do filme em si. E no domínio do gosto, este filme também é ímpar: mesmo antes de estar terminado o filme foi sistematicamente atacado por alguns intelectuais e artistas russos que criticaram violentamente o uso abrangente de efeitos especiais. Chegaram mesmo a apelidar o filme de “Night Shame”.

Mas há outro elemento interessante por detrás de NIGHT WATCH que seria bom observar: a sua estratégia de product placement. Ao longo do filme pode-se ver as seguintes marcas: Audi, Nescafé, Nokia, Adidas, Rambler (um motor de busca e portal russo) e MTS (a maior operadora russa de telemóveis – equivalente à nossa TMN).

Nada mal. Cá vão alguns screenshots bem elucidativos.

A Nescafé aparece em duas cenas.

Este Audi TT é conduzido pelos vampiros e aparece em várias cenas com enorme destaque.

Além do Audi, este vampiro veste Adidas (que aparece em duas cenas).

A Nokia aparece sozinha ou na companhia da operadora MTS.

A Rambler aparece em enorme destaque numa cena do filme.

Se pensarmos no NIGHT WATCH como um exemplo daquilo que um canal público consegue fazer quando pensa em produzir projectos altamente competitivos a nível internacional, então torna-se clara a quantidade de coisas sensacionais que os canais portugueses (públicos ou não) poderiam estar a fazer… mas não fazem.

Viva o cinema de terror europeu.

Questões sobre o cinema de terror contemporâneo (parte 1).

March 19, 2011

Há anos que os zombies têm sido uma presença constante no cinema de terror.

"They are coming to get you, Barbara!"

Mas desde o clássico NIGHT OF THE LIVING DEAD (1968) do mestre George A. Romero, estes monstros evoluíram para um dos subgéneros mais populares e rentáveis no interior do cinema de terror. E ao longo do percurso, os zombies foram mudando ao sabor dos tempos, das modas e dos orçamentos. O próprio Romero sempre reconheceu que nunca imaginou que o seu filme fosse ter um impacto tão profundo no género. E se antes dele os zombies no cinema eram figuras claramente insignificantes, depois do Romero, os zombies transformaram-se em criaturas fascinantes.

A primeira coisa que sempre colocou os zombies numa classe só deles foi a ideia de apocalipse generalizado que eles parecem trazer. Esta questão está relacionada com um elemento fundamental no cinema de terror: a invencibilidade e a omnipresença do Mal. De facto, os zombies são uma ameaça massiva e mortal contra a qual nenhum protagonista consegue lutar por muito tempo. Na maioria esmagadora dos casos, o jogo está perdido à partida e os protagonistas da história sabem que um final feliz é impossível. Romero deixou esta questão clara em DAWN OF THE DEAD (1978) que termina com a fuga dos protagonistas para um destino incerto. No fim, os zombies continuam uma ameaça mais forte do que nunca: eles dominam o mundo.

A explicação por detrás dos zombies sempre foi no mínimo escorregadia. No filme de 1968, Romero nada nos explica. Lança algumas pistas ao aludir para uma eventual sonda radioactiva a regressar de Vénus (!) mas termina sempre por evitar a questão. Romero percebeu desde cedo que o género ganhava com a perplexidade das personagens perante um problema novo e desconhecido. A lógica apresentada diante do espectador parece ser “YOU try to solve this later if you can”, alimentando a criatividade de gerações de fãs.

Romero abriu a porta para o novo subgénero. Vários outros autores seguiram-lhe o rasto, introduzindo inovações ou alterações.

CHILDREN SHOULDN’T PLAY WITH DEAD THINGS (1972) de Bob Clark não foi o primeiro filme a dar segmento ao subgénero. Porém, foi um dos mais bem-sucedidos. Na verdade, este é o filme que estabelece de uma forma mais clara a imagem dos zombies em decomposição a sairem dos túmulos. Se nos lembrarmos bem, tanto em NIGHT OF THE LIVING DEAD como em DAWN OF THE DEAD, os zombies são cadáveres frescos que ainda não foram enterrados. Repleta de gore e de efeitos de caracterização, a proposta de Clark (e não a de Romero) seria aquela que viria a dominar o subgénero durante os anos 70 e boa parte dos anos 80.

Lucio Fulci, uma figura incontornável no terror italiano, foi provavelmente quem melhor percebeu o potencial deste universo num conjunto de filmes que explora com total eficácia o gore, a violência, a caracterização… e o sexo. Porém, em dois dos seus filmes mais célebres  – ZOMBI 2 (1979) e PAURA NELLA CITTÀ DEI MORTI VIVENTI (1980) – Fulci ensaia diferentes explicações para o zombies sempre muito ligadas ao sobrenatural.

How about a kiss?

O próprio Romero viria a reflectir estes desenvolvimentos do subgénero no terceiro filme da sua trilogia: DAY OF THE DEAD (1985) cuja história tem lugar numa fase mais avançada da crise, quando os zombies já dominam a Terra e o espectáculo visual de caracterização (ausente nos seus filmes anteriores) torna evidente o grande trunfo que os zombies representam para o género enquanto um todo.

Outros autores continuaram durante os anos 80 a propor novas abordagens: RETURN OF THE LIVING DEAD (1985) de Dan O’Bannon propõe uma mudança radical: os zombies apenas devoram cérebros, falam e são o resultado de um agente químico desenvolvido pelos militares. Apesar da proposta nunca ter encontrado eco noutros autores (a excepção é o próprio Fulci que viria a reutilizar alguns elementos deste filme em 1988 no seu ZOMBI 3), ela foi continuada ao longo de várias sequelas com graus diferentes de sucesso. LIFEFORCE (1985) de Tobe Hooper e NIGHT OF THE CREEPS (1986) de Fred Dekker fundem o universo dos zombies com o universo dos aliens parasitas também sem grande tracção por parte dos autores.

A década de 90 marca uma época de transição. O subgénero procura novas saídas. Várias propostas seguem em paralelo e com características muito distintas: BRAINDEAD (1992) de Peter Jackson assinala um momento de extravagância absoluta (extravagância que já havia sido iniciada no célebre THE EVIL DEAD (1983) de Sam Raimi). DELLAMORTE DELLAMORE (1994) de Michele Soavi introduz um mundo fascinante onde os zombies servem de combustível filosófico acerca das relações entre a vida, o amor e a morte vistas pelos olhos de Tiziano Sclavi. Já o injustamente esquecido DEATH BECOMES HER (1992) de Robert Zemeckis transforma radicalmente o universo dos zombies numa comédia negra onde os mortos-vivos são estrelas de Hollywood obcecadas pela juventude eterna.

No final dos anos noventa, começa a tornar-se claro o caminho que os zombies viriam a seguir e, de todas as diferentes propostas, quais os elementos que viriam a predominar (e quais os elementos rejeitados).

Perdeu-se a noção de uma ameaça sem explicação que se revela social e espiritualmente perturbante (Romero!). A ideia de que os zombies são causados por uma doença (habitualmente um vírus) parece ter triunfado. Provavelmente a explicação por detrás disto está nos medos contemporâneos causados, por exemplo, por surtos de ébola (que foram notícia nos anos 90) ou pelos receios criados em torno da manipulação biológica (hoje mais presente do que nunca no nosso imaginário). Esta proposta não é nova: no esquecido HORROR EXPRESS (1972) de Eugenio Martín ela já aparece de forma quase igual à que vemos hoje. O resultado de tudo isto são filmes como 28 DAYS LATER (2002) de Danny Boyle, RESIDENT EVIL (2001) de Paul W. S. Anderson, o remake DAWN OF THE DEAD (2004) de Zack Snyder e o mais recente mega-sucesso ZOMBIELAND (2009) de Ruben Fleischer.

Neste sentido, a separação entre cadáveres e pessoas doentes (Romero, Clark e Fulci) esbateu-se, dando origem a zombies que em muitos casos fogem completamente à lógica original: o espanhol [REC] (2007) de Jaume Balagueró e Paco Plaza, o remake DAY OF THE DEAD (2008) de Steve Miner e ainda o francês LA HORDE (2009) de Yannick Dahan e Benjamin Rocher são bons exemplos. Nestes casos, os zombies pouco têm de mortos, estando muito mais próximos de vítimas de uma doença incontrolável. Seja qual for a inspiração (ébola, Sida ou raiva) não deixa de ser interessante notar como o cinema de terror reflecte os nossos medos (e também os nossos preconceitos: estar infectado já é igual a estar morto).

Outro elemento descartado foi a forma como os zombies se movimentavam até os anos 80. Os já citados RETURN OF THE LIVING DEAD (1985) e LIFEFORCE (1985) parecem assinalar a passagem dos zombies cambaleantes aos zombies capazes de correr. Uma das razões para esta mudança pode ser a necessidade sentida de tornar os zombies em monstros mais perigosos e ainda mais fortes – não é só uma questão de número, mas também de qualidade. Esta característica assumiu contornos absurdos no já citado remake DAY OF THE DEAD (2008) no qual os zombies até sobem pelas paredes e tectos.

Outro elemento que caiu em parcial desuso foi o canibalismo (mais um grande contributo de Romero) que às vezes está presente e noutras, ausente. Esta questão provavelmente está mais relacionada com o cuidado que os filmes têm em relação ao gore – cuidado que existe por questões comerciais. A questão é que nos filmes actuais, os zombies parecem estar muito mais interessados em morder, infectar ou matar a vítima (propagarem-se rapidamente) do que em devorá-la. Cenas de canibalismo como aquela que tem lugar na cave do edifício de apartamentos cercado (no DAWN OF THE DEAD original) ou mesmo o final genial do Capitão Rhodes (no DAY OF THE DEAD original) parecem hoje ser raríssimas.

Mas a questão central acaba por estar noutro lado: no custo dos filmes e na ausência de histórias fascinantes. Hoje em dia é óbvio que fazer cinema é muito mais barato do que há 20 anos atrás. Qualquer miúdo com mil euros hoje consegue comprar uma câmara de alta definição que põe num canto as câmaras utilizadas pelo Danny Boyle em 28 DAYS LATER (2002). De facto, a quantidade de filmes de zombies que encontramos num site como a Amazon ou o IMDB é absurda e a maioria dos filmes nada mais tem do que um grupo de amigos a correr de um grupo de amigos caracterizados (bem ou mal) como zombies. Os filmes parecem ser cada vez mais baratos e a criatividade parece ser alvo de um investimento cada vez menor. AUTOMATON TRANSFUSION (2006) de Steven C. Miller é apenas um exemplo entre centenas.

Porém, há excepções: filmes que tentam (embora nem sempre consigam inteiramente) oferecer algo de novo e fugir à regra de “mais do mesmo”: o canadiano PONTYPOOL (2008) de Bruce McDonald propõe uma doença que viaja através da língua inglesa (conversar torna-se perigoso). Já o vitoriano I SELL THE DEAD (2008) de Glenn McQuade situa-se deliciosamente entre o terror e a comédia, com personagens (vivos e mortos) impagáveis. O francês LES REVENANTS (2006) de Robin Campillo parece ser único no género pelo facto de apresentar zombies que são exactamente iguais aos vivos e ao explorar a ideia de uma crise social criada pelo retorno de milhões de pessoas que agora necessitam de um destino (infelizmente com um final decepcionante).

O cinema de terror é rico em biodiversidade e o universo dos zombies é apenas um entre inúmeros universos possíveis, criados ou ainda por criar. É fascinante poder olhar para todos estes filmes e perceber que uma parte deles é bem europeia, produzida em países como a França, o Reino Unido, a Itália e até a nossa vizinha Espanha. O mercado mundial está constantemente a procura de novos filmes, novas premissas, novas experiências… ou qualquer coisa de novo que se possa criar. Ou algo de velho com uma nova roupagem. Ou uma variação inesperada de algo que antigamente não resultou. Ou da fusão entre duas ou mais coisas díspares. Ou outra coisa!

O único limite é o da criatividade.

Viva o cinema de terror europeu!


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