Questões sobre o cinema de terror contemporâneo (parte 1).

Há anos que os zombies têm sido uma presença constante no cinema de terror.

"They are coming to get you, Barbara!"

Mas desde o clássico NIGHT OF THE LIVING DEAD (1968) do mestre George A. Romero, estes monstros evoluíram para um dos subgéneros mais populares e rentáveis no interior do cinema de terror. E ao longo do percurso, os zombies foram mudando ao sabor dos tempos, das modas e dos orçamentos. O próprio Romero sempre reconheceu que nunca imaginou que o seu filme fosse ter um impacto tão profundo no género. E se antes dele os zombies no cinema eram figuras claramente insignificantes, depois do Romero, os zombies transformaram-se em criaturas fascinantes.

A primeira coisa que sempre colocou os zombies numa classe só deles foi a ideia de apocalipse generalizado que eles parecem trazer. Esta questão está relacionada com um elemento fundamental no cinema de terror: a invencibilidade e a omnipresença do Mal. De facto, os zombies são uma ameaça massiva e mortal contra a qual nenhum protagonista consegue lutar por muito tempo. Na maioria esmagadora dos casos, o jogo está perdido à partida e os protagonistas da história sabem que um final feliz é impossível. Romero deixou esta questão clara em DAWN OF THE DEAD (1978) que termina com a fuga dos protagonistas para um destino incerto. No fim, os zombies continuam uma ameaça mais forte do que nunca: eles dominam o mundo.

A explicação por detrás dos zombies sempre foi no mínimo escorregadia. No filme de 1968, Romero nada nos explica. Lança algumas pistas ao aludir para uma eventual sonda radioactiva a regressar de Vénus (!) mas termina sempre por evitar a questão. Romero percebeu desde cedo que o género ganhava com a perplexidade das personagens perante um problema novo e desconhecido. A lógica apresentada diante do espectador parece ser “YOU try to solve this later if you can”, alimentando a criatividade de gerações de fãs.

Romero abriu a porta para o novo subgénero. Vários outros autores seguiram-lhe o rasto, introduzindo inovações ou alterações.

CHILDREN SHOULDN’T PLAY WITH DEAD THINGS (1972) de Bob Clark não foi o primeiro filme a dar segmento ao subgénero. Porém, foi um dos mais bem-sucedidos. Na verdade, este é o filme que estabelece de uma forma mais clara a imagem dos zombies em decomposição a sairem dos túmulos. Se nos lembrarmos bem, tanto em NIGHT OF THE LIVING DEAD como em DAWN OF THE DEAD, os zombies são cadáveres frescos que ainda não foram enterrados. Repleta de gore e de efeitos de caracterização, a proposta de Clark (e não a de Romero) seria aquela que viria a dominar o subgénero durante os anos 70 e boa parte dos anos 80.

Lucio Fulci, uma figura incontornável no terror italiano, foi provavelmente quem melhor percebeu o potencial deste universo num conjunto de filmes que explora com total eficácia o gore, a violência, a caracterização… e o sexo. Porém, em dois dos seus filmes mais célebres  – ZOMBI 2 (1979) e PAURA NELLA CITTÀ DEI MORTI VIVENTI (1980) – Fulci ensaia diferentes explicações para o zombies sempre muito ligadas ao sobrenatural.

How about a kiss?

O próprio Romero viria a reflectir estes desenvolvimentos do subgénero no terceiro filme da sua trilogia: DAY OF THE DEAD (1985) cuja história tem lugar numa fase mais avançada da crise, quando os zombies já dominam a Terra e o espectáculo visual de caracterização (ausente nos seus filmes anteriores) torna evidente o grande trunfo que os zombies representam para o género enquanto um todo.

Outros autores continuaram durante os anos 80 a propor novas abordagens: RETURN OF THE LIVING DEAD (1985) de Dan O’Bannon propõe uma mudança radical: os zombies apenas devoram cérebros, falam e são o resultado de um agente químico desenvolvido pelos militares. Apesar da proposta nunca ter encontrado eco noutros autores (a excepção é o próprio Fulci que viria a reutilizar alguns elementos deste filme em 1988 no seu ZOMBI 3), ela foi continuada ao longo de várias sequelas com graus diferentes de sucesso. LIFEFORCE (1985) de Tobe Hooper e NIGHT OF THE CREEPS (1986) de Fred Dekker fundem o universo dos zombies com o universo dos aliens parasitas também sem grande tracção por parte dos autores.

A década de 90 marca uma época de transição. O subgénero procura novas saídas. Várias propostas seguem em paralelo e com características muito distintas: BRAINDEAD (1992) de Peter Jackson assinala um momento de extravagância absoluta (extravagância que já havia sido iniciada no célebre THE EVIL DEAD (1983) de Sam Raimi). DELLAMORTE DELLAMORE (1994) de Michele Soavi introduz um mundo fascinante onde os zombies servem de combustível filosófico acerca das relações entre a vida, o amor e a morte vistas pelos olhos de Tiziano Sclavi. Já o injustamente esquecido DEATH BECOMES HER (1992) de Robert Zemeckis transforma radicalmente o universo dos zombies numa comédia negra onde os mortos-vivos são estrelas de Hollywood obcecadas pela juventude eterna.

No final dos anos noventa, começa a tornar-se claro o caminho que os zombies viriam a seguir e, de todas as diferentes propostas, quais os elementos que viriam a predominar (e quais os elementos rejeitados).

Perdeu-se a noção de uma ameaça sem explicação que se revela social e espiritualmente perturbante (Romero!). A ideia de que os zombies são causados por uma doença (habitualmente um vírus) parece ter triunfado. Provavelmente a explicação por detrás disto está nos medos contemporâneos causados, por exemplo, por surtos de ébola (que foram notícia nos anos 90) ou pelos receios criados em torno da manipulação biológica (hoje mais presente do que nunca no nosso imaginário). Esta proposta não é nova: no esquecido HORROR EXPRESS (1972) de Eugenio Martín ela já aparece de forma quase igual à que vemos hoje. O resultado de tudo isto são filmes como 28 DAYS LATER (2002) de Danny Boyle, RESIDENT EVIL (2001) de Paul W. S. Anderson, o remake DAWN OF THE DEAD (2004) de Zack Snyder e o mais recente mega-sucesso ZOMBIELAND (2009) de Ruben Fleischer.

Neste sentido, a separação entre cadáveres e pessoas doentes (Romero, Clark e Fulci) esbateu-se, dando origem a zombies que em muitos casos fogem completamente à lógica original: o espanhol [REC] (2007) de Jaume Balagueró e Paco Plaza, o remake DAY OF THE DEAD (2008) de Steve Miner e ainda o francês LA HORDE (2009) de Yannick Dahan e Benjamin Rocher são bons exemplos. Nestes casos, os zombies pouco têm de mortos, estando muito mais próximos de vítimas de uma doença incontrolável. Seja qual for a inspiração (ébola, Sida ou raiva) não deixa de ser interessante notar como o cinema de terror reflecte os nossos medos (e também os nossos preconceitos: estar infectado já é igual a estar morto).

Outro elemento descartado foi a forma como os zombies se movimentavam até os anos 80. Os já citados RETURN OF THE LIVING DEAD (1985) e LIFEFORCE (1985) parecem assinalar a passagem dos zombies cambaleantes aos zombies capazes de correr. Uma das razões para esta mudança pode ser a necessidade sentida de tornar os zombies em monstros mais perigosos e ainda mais fortes – não é só uma questão de número, mas também de qualidade. Esta característica assumiu contornos absurdos no já citado remake DAY OF THE DEAD (2008) no qual os zombies até sobem pelas paredes e tectos.

Outro elemento que caiu em parcial desuso foi o canibalismo (mais um grande contributo de Romero) que às vezes está presente e noutras, ausente. Esta questão provavelmente está mais relacionada com o cuidado que os filmes têm em relação ao gore – cuidado que existe por questões comerciais. A questão é que nos filmes actuais, os zombies parecem estar muito mais interessados em morder, infectar ou matar a vítima (propagarem-se rapidamente) do que em devorá-la. Cenas de canibalismo como aquela que tem lugar na cave do edifício de apartamentos cercado (no DAWN OF THE DEAD original) ou mesmo o final genial do Capitão Rhodes (no DAY OF THE DEAD original) parecem hoje ser raríssimas.

Mas a questão central acaba por estar noutro lado: no custo dos filmes e na ausência de histórias fascinantes. Hoje em dia é óbvio que fazer cinema é muito mais barato do que há 20 anos atrás. Qualquer miúdo com mil euros hoje consegue comprar uma câmara de alta definição que põe num canto as câmaras utilizadas pelo Danny Boyle em 28 DAYS LATER (2002). De facto, a quantidade de filmes de zombies que encontramos num site como a Amazon ou o IMDB é absurda e a maioria dos filmes nada mais tem do que um grupo de amigos a correr de um grupo de amigos caracterizados (bem ou mal) como zombies. Os filmes parecem ser cada vez mais baratos e a criatividade parece ser alvo de um investimento cada vez menor. AUTOMATON TRANSFUSION (2006) de Steven C. Miller é apenas um exemplo entre centenas.

Porém, há excepções: filmes que tentam (embora nem sempre consigam inteiramente) oferecer algo de novo e fugir à regra de “mais do mesmo”: o canadiano PONTYPOOL (2008) de Bruce McDonald propõe uma doença que viaja através da língua inglesa (conversar torna-se perigoso). Já o vitoriano I SELL THE DEAD (2008) de Glenn McQuade situa-se deliciosamente entre o terror e a comédia, com personagens (vivos e mortos) impagáveis. O francês LES REVENANTS (2006) de Robin Campillo parece ser único no género pelo facto de apresentar zombies que são exactamente iguais aos vivos e ao explorar a ideia de uma crise social criada pelo retorno de milhões de pessoas que agora necessitam de um destino (infelizmente com um final decepcionante).

O cinema de terror é rico em biodiversidade e o universo dos zombies é apenas um entre inúmeros universos possíveis, criados ou ainda por criar. É fascinante poder olhar para todos estes filmes e perceber que uma parte deles é bem europeia, produzida em países como a França, o Reino Unido, a Itália e até a nossa vizinha Espanha. O mercado mundial está constantemente a procura de novos filmes, novas premissas, novas experiências… ou qualquer coisa de novo que se possa criar. Ou algo de velho com uma nova roupagem. Ou uma variação inesperada de algo que antigamente não resultou. Ou da fusão entre duas ou mais coisas díspares. Ou outra coisa!

O único limite é o da criatividade.

Viva o cinema de terror europeu!

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