O horrível mundo dos assassinos em série portugueses.

THE BOSTON STRANGLER (1968) foi inspirado em Albert DeSalvo.

Poucos tipos humanos têm fascinado tanto o cinema quanto os assassinos em série. Ano após ano, novos filmes vão surgindo que nos permitem um olhar sempre privilegiado sobre estas pessoas. Grandes produtores, argumentistas, actores e realizadores encontram nestes casos horríveis histórias de excepção que ainda hoje hipnotizam espectadores em todo o mundo. Assim, filmes como THE SILENCE OF THE LAMBS (1991), SE7EN (1995) e ZODIAC (2007) mostram aquilo que de melhor o cinema mainstream consegue produzir. Já obras como  HENRY: PORTRAIT OF A SERIAL KILLER (1986),  THE HONEYMOON KILLERS (1969) ou ANGST (1983) – de que já falámos antes – mantêm-se abaixo do radar como pérolas silenciosas a espera de serem descobertas por espectadores recém-chegados. No extremo posto, filmes como PSYCHO (1960), PEEPING TOM (1960) e THE BOSTON STRANGLER (1968) mantêm-se firmes na sua posição de clássicos definitivos.

Algumas pessoas podem pensar que os assassinos em série são uma coisa do cinema norte-americano. Trata-se de um erro grosseiro. Um pouco por todo o mundo, grandes filmes vão aparecendo por forma a mostrar que histórias como estas, em que o ser humano se revela capaz de monstruosidades extremas, existem muito próximas de nós. Dois casos ilustram isto muito bem THE CHASER (2008) e SPOORLOOS (1988): dois grandes filmes provenientes de cinematografias bastante distintas. O primeiro chega-nos da Coreia do Sul (cinematografia bastante rica em thrillers que são tão bons quanto são violentos). Já o segundo filme é uma co-produção entre a Holanda e a França que conta a história de um desaparecimento com contornos arrepiantes (Os direitos de remake do filme SPOORLOOS foram vendidos para os Estados Unidos onde a versão americana THE VANISHING de 1993 obteve um enorme sucesso).

Em Portugal, é incompreensível o quão pouco o nosso cinema olha para estas personagens tão fascinantes – ainda mais se pensarmos nos vários assassinos em série portugueses que ao longo dos anos têm sido notícia. E se pensarmos nos assassinos em série europeus em geral, a amplitude de personagens potencialmente únicas aumenta significativamente. Aqui segue uma rápida pesquisa sobre alguns dos “serial killers” portugueses mais conhecidos nos últimos tempos.

O Rei Ghob.

1 – FRANCISCO LEITÃO: O REI GHOB (Torres Vedras).

Durante semanas, Portugal inteiro andou fascinado com os desvarios e maluquices deste homicida esotérico que possuía no Youtube vídeos onde mostrava seus poderes paranormais (com recurso a vídeos toscamente alterados) enquanto tecia considerações sobre o fim do mundo. As pessoas achavam piada àquele homem “excêntrico” que vivia numa casa meio acastelada e que mantinha umas amizades estranhas com alguns jovens da zona. Mais tarde, alguns destes jovens acabaram por desaparecer, transformando esta história banal num caso de polícia. Claramente o Rei Ghob é uma personagem perdida num mundo que não é o nosso. Ou talvez ele seja o produto de um mundo que também é nosso. Muito já se disse sobre este homem… de “mente brilhante” à “retardado”. Os corpos ainda não foram encontrados. O processo já vai em 20 volumes e 30 testemunhas. “Retardado”? Muito improvável. Segundo a polícia, o Rei Ghob não é considerado um assassino em série. Detalhes… detalhes…

2 – O CABO DA GNR ANTÓNIO COSTA (Santa Comba Dão).

Já o Cabo da GNR António Costa é um caso diferente. Entre 2005 e 2006, violou e matou três raparigas. No entanto, estamos diante daquele perfil clássico do homem de bem, simpático, bondoso, educado, casado, religioso e honesto – sobre o qual jamais recairiam quaisquer suspeitas. E mais: tal como em inúmeros outros casos, o ex-cabo vivia muito próximo das vítimas e até era conhecido das mesmas. Porém, por detrás deste homem magro, baixo e religioso (com fotos do Papa João Paulo II espalhadas pela casa) residia uma outra figura capaz de crimes violentos provocados por impulsos horríveis. Sua esposa era cozinheira numa escola e um dos seus dois filhos também pertencia à GNR. Este homem era alguém acima de qualquer suspeita. Foi condenado a 25 anos de prisão.

3 – O ESTRIPADOR DE LISBOA (Lisboa).

Este homicida esteve activo entre 1992 e 1993, tendo assassinado três mulheres. Mas ao contrário dos anteriores, nunca foi apanhado, tendo simplesmente desaparecido. As três vítimas, prostitutas, foram estranguladas e cortadas – tendo alguns dos seus órgãos sido removidos. Mais tarde, a polícia viria a sugerir uma ligação deste assassino à duas outras mulheres mortas em 1990. O “Estripador de Lisboa” foi comparado ao célebre Jack the Ripper e algumas polícias chegaram também a compará-lo a outros homicídios envolvendo mulheres ocorridos noutros países. O que terá impedido este assassino de continuar? Estará vivo? Estará morto? Os crimes já prescreveram. A RTP, nos anos 90, até exibiu uma série inspirada no caso que… puh-leeese!

Cá está... o próprio!

4 – DIOGO ALVES (Lisboa).

Diogo Alves dispensa apresentações. Assaltava pessoas que passavam pelo Aqueduto das Águas Livres. Depois atirava-as lá de cima(!!). As vítimas foram – dizem – às dezenas. Foi executado em 1841. Sua cabeça encontra-se conservada em formol numa jarra de vidro na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Ugh! Curiosamente, um dos primeiros filmes de ficção feitos em Portugal chama-se “Os Crimes de Diogo Alves” que data de 1911 (há precisamente cem anos).

5 – ZÉ BORREGO (Lisboa).

Este assassino em série foi impelido por Nossa Senhora a vir para Lisboa com o objectivo de acabar com o pecado – leia-se: homossexuais. Estava-se em 1960. Zé Borrego faz ao todo cinco vítimas. Sempre com o mesmo método: seduzia um homem, levava-o para uma pensão onde estrangulava a vítima, esquartejava-a e depois lançava tudo para o rio. Na prisão faz amizade com um guarda que pediu-lhe que não voltasse a matar. Zé Borrego já há algum tempo lhe havia dito que faltava matar apenas duas pessoas (dois guardas que o tinham espancado). Ao aceitar o pedido do amigo, e sendo um homem de palavra, suicidou-se em sua cela.

6 – VITOR JORGE (Pombal)

O massacre da Praia de Osso da Baleia teve lugar em 1 de Março de 1987. Vitor Jorge matou cinco jovens (a quem tinha dado boleia) a tiro e à pancada. Depois foi para casa e matou a esposa e a filha mais velha de ambos. O crime chocou o país e o réu pediu para ser internado para o resto da sua vida. Tinha medo de voltar a matar. Foi condenado a 20 anos. Cumpriu 14. Foi libertado em 2001 e ao que parece, hoje vive em França. Ainda no dia do massacre, decidiu poupar a vida aos filhos mais novos.

Todas estas pessoas representam percursos de vida singulares que hoje, apesar de tudo, ainda permanecem apenas parcialmente compreendidos. No entanto, os dramas, terrores, medos, abusos e frustrações (ou seja lá o que for) que produzem assassinos em série têm muito a ver connosco na medida que vivemos todos a fazer mal uns aos outros. O cinema é prodigioso a compor retratos incríveis destes estados de monstruosidade. Sentados numa sala de cinema, observamos com enorme atenção estes seres quebrados. Acompanhamos as suas histórias com grande fascínio – um fascínio que talvez seja resultante do reconhecimento de que eles, afinal, somos nós depois de um ou mais dias em que tudo corre demasiado mal. No entanto, hipnotizados por um filme de terror, estamos protegidos de nós próprios.

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2 Respostas to “O horrível mundo dos assassinos em série portugueses.”

  1. boijorge mendes pina Says:

    vou bater o recorde portugues, brevemente… atencao ao dia 12- 07- 2012… no centro comercial colombo…

    • Bad Behavior Says:

      Caro amigo boijorge:

      Temos uma sugestão melhor: ESCREVE isso numa sinopse. Matar pessoas nos filmes tem muito mais piada do que na realidade. Se quiseres, ajudamos-te a escrever e ANTES do dia 12 ainda tens uma sinopse excelente pronta para avançar para Treatment… e depois guião.

      Grande abraço!
      BB

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