Case study: “Fritt Vilt” e o terror norueguês.

FRITT VILT (2006) realizado por Roar Uthaug é um filme de terror norueguês cujo título internacional é COLD PREY. Trata-se de um dos maiores sucessos do cinema norueguês e um dos filmes mais exportados de sempre daquele país. Cá está um case study interessante que vale a pena analisar. O filme é muito mais do que um slasher: é um filme onde efectivamente todos os elementos comunicam um produto audiovisual de qualidade. A produção não foi barata na medida em que as filmagens decorreram numa zona de acesso difícil, tendo (por exemplo) todo o material técnico a necessidade de ser transportado de helicóptero. O orçamento ficou-se um pouco acima dos dois milhões de dólares. No entanto, a carreira internacional do filme foi excelente e até 2008, o filme tinha arrecadado cerca de 14 milhões de dólares. No seu país de origem, o filme chegou aos 260 mil espectadores em salas de cinema. Nos Estados Unidos, foi distribuído pela Anchor Bay – uma das maiores distribuidoras de cinema de terror. No Brasil (país fortemente influenciado pela cultura norueguesa e que até fala o norueguês), o filme foi distribuído comercialmente sob o título PRESOS NO GELO.

O filme conta a história de um grupo de amigos que vai passar umas férias em Jotunheimen. Um deles acaba por partir a perna ao praticar snowboard. Enquanto procuram ajuda, o grupo chega a um hotel abandonado onde percebem que um assassino os observa. O que se segue é cinema de terror no seu melhor: ritmo, tensão, uma atmosfera brilhantemente bem conseguida… e muito sangue. Numa entrevista recente ao Bloody Disgusting, fizeram ao realizador a seguinte pergunta:

BD: Over the last eight years the scariest movies I’ve seen have come from Europe, England and Asia. For example “A tale of two sisters”, “28 days later”, “Ringu”, “High Tension”, “Inside”, “Frontieres”, “Them”, “Rec” and of course “Fritt Vilt”. Yet at the core of all their stories are very “Americana” horror ideas. Home invasion, isolation, revenge, urban legends, zombies and the always popular, teenagers being stalked by unknown killers. However, with some exceptions a lot of recent American horrors have failed to scare their audience using the above themes. What do you think it is that European and Asian horror Directors do to get it so right?

RU: I think in some cases we are blessed with not having so many investors and executives trying to make our films as mainstream as possible. This can open up for more orginal ideas and different approaches, something that could be very rewarding in a horror where you’re supposed to be caught off guard. I also think that foreign cultures, unknown places and these kinds of things help with making our movies scary for American audiences.

E cá está ainda um bom exemplo de product placement.

Hmm… interessante. Então ele diz que na Europa, somos menos pressionados pelo cinema mainstream e que temos mais liberdade para fazer filmes que queremos e nos quais o público reconhece qualidade e diferença. Tem graça que o discurso em Portugal é quase igual: que somos abandonados pelos distribuidores que só querem cinema mainstream e que nos querem roubar a liberdade para fazer os filmes que queremos e que o público não compreende.

Não deixa de ser curioso que em Portugal, vivemos a nos queixar de que o mundo está contra nós – distribuidores, exibidores, público… toda a gente! Mas aqui está um realizador norueguês que pensa o contrário: faz cinema de terror norueguês falado em norueguês e que não parece ter ninguém contra ele. Roar Uthaug fez um grande filme e o público apareceu aos magotes! Por que motivo não conseguimos fazer filmes como este?

É uma questão interessante que levanta outras questões: escrevemos filmes destes por cá? Talvez. É possível financiar filmes destes por cá? Talvez. As pessoas que decidem os apoios alguma vez escolheriam um filme destes? Jamais! Temos realizadores interessados em realizar filmes destes? É possível que sim. Temos público para filmes destes? Sem dúvida! Alguém está realmente preocupado com os filmes que o país produz? Não. Qual é a estratégia que orienta o cinema português? Podemos encontrá-la aqui.

Se estratégia existe, não se sabe e não se sente. Alguns de nós bem podem ir para a televisão e dizer que o cinema não é para contar histórias e que os distribuidores estão a nos tramar… mas por mais que queiramos dormir, o Sol teimará sempre em amanhecer. Podemos culpar quem quisermos – como fez a Blockbuster no link – mas não há genialidade, vontade ou Arte que salve uma estratégia má ou um modelo de negócio que não funciona. No fim, perderemos todos.

FRITT VILT fez tudo aquilo que o cinema é suposto fazer: levou o país a sítios onde este nunca foi, mostrou o talento dos técnicos e actores envolvidos, ganhou dinheiro, pagou impostos, permitiu a criação de mais filmes noruegueses, trouxe mais negócios para o país e foi visto por largos milhares de espectadores. Se tivesse falhado, jamais teria tido uma sequela – FRITT VILT 2 (2008) realizada por Mats Stenberg – e outra: FRITT VILT 3 (2010) realizada por Mikkel Brænne Sandemose.

Este é apenas um exemplo de um tipo de cinema que Portugal não quer produzir. Benefícios que Portugal não quer ter. Estrategicamente falando, é muito mais interessante fingir que nada disto é possível, que temos tudo contra nós, que o público nos odeia, mostrar com toda a unanimidade que até o Sol nasce contra nós para podemos convencer o Estado de que qualquer iniciativa que vise apoiar o desenvolvimento sustentado de uma indústria de cinema em Portugal não vale a pena. É o discurso de coitadinhos que conhecemos tão bem. Afinal até existe uma estratégia! LOL!

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