Questões sobre o cinema de terror contemporâneo (parte 2).

LA HORDE (2009) de Yannick Dahan e Benjamin Rocher.

O cinema de terror é um dos géneros mais populares e comercialmente bem-sucedidos de todos. Mas é também um dos géneros mais incompreendidos e injustiçados. Este post é uma reflexão sobre a mecânica do género para que possamos compreender melhor como estes filmes funcionam.

A primeira coisa que devemos compreender é a distinção entre horror e terror. Um dicionário que consultámos define o horror desta forma: 1. An intense, painful feeling of repugnance and fear. 2. Intense dislike; abhorrence. 3. A cause of fear. Já o termo terror é definido desta forma: 1. Intense, overpowering fear. 2. One that instills intense fear: a rabid dog that became the terror of the neighborhood. 3. The ability to instill intense fear: the terror of jackboots pounding down the street.

Aparentemente, os termos parecem sinónimos. Mas não o são. Imaginem a cena: um grupo de homens sequestra quatro aviões comerciais. O objectivo? Um grande ataque suicida contra alvos pré-determinados. Minutos depois, o mundo assiste pela televisão aos ataques às torres gémeas de Nova York. Várias imagens entram instantaneamente para a nossa memória colectiva: as torres em chamas, os suicidas a saltar – às dezenas – para a morte, os destroços, o caos, o colapso das torres, a destruição, o choque, etc.

A este momento chamamos horror – o tal “painful feeling of repugnance and fear”; o tal “intense dislike; abhorrence”.

Agora imaginem a seguinte cena: um homem está sentado no seu escritório em Lisboa. Diante dele, sobre a mesa, está um bilhete de avião para Nova York. O voo está marcado para amanhã. O homem em causa está apreensivo, hesitante. Se pudesse, viajaria de navio. No entanto, a reunião de negócios terá lugar em Manhattan, dentro de 48 horas – e nenhum navio é tão rápido. As horas passam e a imagem de um avião a explodir sobre o Atlântico parece mais e mais real. No dia seguinte, a caminho do aeroporto, o homem sente-se nervoso. Em sua cabeça já são várias as imagens que têm lugar: uma bomba dentro de uma mala, outro passageiro trancado na casa de banho a montar uma bomba composta por substâncias banais, três homens próximos do aeroporto de Nova York a carregarem numa carrinha um míssil capaz de destruir um avião que se aproxima da pista de aterragem e tantas outras coisas horríveis que é capaz de imaginar.

SEI DONNE PER L'ASSASSINO (1964) de Mario Bava.

A estes momentos chamamos terror – o talintense, overpowering fear” diante de algo que não controlamos; o medo que sentimos quando percebemos que o horror pode voltar a acontecer a qualquer momento – e connosco. O terror pressupõe a tal “ability to instill intense fear” baseado no horror que já sentimos.

VERTIGO (1958) de Alfred Hitchcock.

Na prática, o horror é a nossa reacção a um momento de maldade abominável – pela violência, pelo nojo, pela destruição, pela feiura, pelo sofrimento. Já o terror vem depois, quando percebemos o quão frágil é a nossa tranquilidade e sentimos o medo de que novas experiências de horror possam acontecer a qualquer momento. O horror marca-nos. O terror é termos que viver marcados. A diferença entre horror e terror explica o facto de falarmos de “terrorismo” e não de “horrorismo”. O horror é curto. Já o terror perdura e condiciona-nos pela via do medo. O cinema de terror (ou horror – aqui os termos podem ser trocados livremente) joga com estes três elementos que, como se percebe, estão necessária e intimamente ligados:

  • Horror.
  • Terror.
  • Medo.

PEEPING TOM (1960) de Michael Powell.

No cinema de terror, começamos por ser pragmáticos e reconhecer as nossas limitações. A primeira é esta: nada daquilo que pomos no ecrã é verdade. É tudo ficção (pura) ou ficcionalização (da realidade). Logo, há sempre um limite na massa de horror que conseguimos atirar sobre o espectador. O nosso horror pode até ter uma massa considerável. Porém ela jamais irá conseguir esmagar o espectador, marcando a sua vida de forma decisiva para além do tempo que durou a sessão. É claro que existem pessoas impressionáveis (e são excepções) mas qualquer um de nós consegue perceber a diferença entre “um filme” e a “coisa verdadeira”. A segunda limitação é esta: o tempo. Sendo uma arte temporal, qualquer filme está condenado a terminar por completo ao fim da sessão. Isto significa que a maior parte daquilo que acontece connosco durante o filme permanece na sala de cinema quando vamos embora. E mesmo quando levamos algo connosco (grande filme!), no dia seguinte a vida real se encarrega de por as coisas nos seus devidos contextos.

Trailer do filme PARANORMAL ACTIVITY (2007) de Oren Peli.

Isto não significa que o cinema de terror seja uma versão fraca de uma realidade horrível. Significa apenas que o cinema é um meio excelente na simulação de um horror e de um terror que chegam, durante 90 minutos, o mais próximo possível da experiência verdadeira – próxima (e ao mesmo tempo segura) o suficiente ao ponto do espectador desejar repetir a experiência.🙂

Como é que isto se consegue?

Ao contrário da vida real, o cinema não dispõe de formas verdadeiramente eficazes (como a experiência do horror real) de gerar estes três elementos acima citados – prova disto é que ninguém sai a correr da sala. Para tentar dar a volta a este problema, o cinema de terror utiliza três dispositivos que, devidamente conjugados, conseguem simular no espectador um sentimento de horror, terror e medo muito próximo do real. Estes três dispositivos são:

  • O perturbante (que em inglês costuma traduzir-se como “disturbing”).
  • O chocante (normalmente por via visual).
  • O susto.

FREAKS (1932) de Tod Browning.

São estes três dispositivos que, combinados entre si, conseguem uma eficácia satisfatória. O perturbante costuma ser o primeiro de todos na medida em que prepara o espectador, apresentando-lhe o universo alternativo (de sofrimento, desajustamento e diferença radical). Este perturbante é um estimulante que é dado ao espectador, de forma a ajustar-lhe o mindset correcto, sintonizando-o na frequência (risos) certa. O chocante é o dispositivo principal que utiliza-se do “posicionamento” (pedimos o termo emprestado ao marketing – LOL!) correcto do espírito do espectador – que gera o horror. Os sustos servem à gestão do terror ao longo do filme: gerando no espectador a ansiedade que resulta da falta de controlo sobre aquilo que lhe será mostrado. Esta ideia de gestão do terror também é conhecida por outro nome: o suspense – o facto de, na generalidade, sabermos mais do que as personagens: sabemos que o horror pode e vai acontecer; sabemos (como dizia o Hitchcock) que há uma bomba que irá explodir. Não sabemos é quando. As personagens lá continuam a conversar sobre o tempo. A ansiedade por nada podermos fazer, esta é toda nossa!

Os filmes também não investem com a mesma força nos três dispositivos. ROSEMARY’S BABY (1968) e THE SILENCE OF THE LAMBS (1991), por exemplo, quase não possuem sustos. Mas possuem algum chocante e imenso perturbante. Já NEKROMANTIK (1987),  HOSTEL (2005) e A SERBIAN FILM (2010) apostam maioritariamente no chocante. THE RING (2002) e BOOGEYMAN (2005) apostam nos sustos. Outros filmes procuram o equilíbrio entre dois ou três destes dispositivos: THE THING (1982), [REC] (2007), AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON (1981) e THE EVIL DEAD (1981). O panorama é muito diverso e há excelentes filmes que exemplificam as diferentes estratégias e combinações. Tudo é uma questão de opção. Alguns espectadores também são mais sensíveis aos sustos do que ao perturbante. Outros preferem o choque. Tudo é uma questão de gosto ou sensibilidade pessoal – que faz com que outras pessoas possuam opiniões distintas acerca de quais dos filmes citados acima apostam mais no quê. Já o tempo também muda a percepção do público: NIGHT OF THE LIVING DEAD (1968) já foi chocante. Hoje já não o é. Já o FREAKS (1932) mantém-se chocante e perturbante – talvez pelo facto de fugir à regra e mostrar casos reais.

Curiosamente, as ferramentas utilizadas na construção do perturbante, do chocante e do susto são as mesmas: a história, a imagem, os ruídos, a música, a caracterização, os actores, os efeitos especiais, a montagem, o suspense, o mistério, os ambientes, a atmosfera, a identificação do espectador com as personagens, etc. Isto significa que muito provavelmente o cinema de terror é o género que melhor utilização faz da totalidade dos meios que constituem o cinema.

Esta é a razão que explica a popularidade do género: o cinema de terror é um cinema total.🙂

Viva o cinema de terror europeu!

BAD BEHAVIOR

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