The Art of the Horror Movie Poster – Part 6.

COISA RUIM (2006) de Tiago Guedes e Frederico Serra é um objecto raro no cinema português: é um filme de terror. Na altura da estreia obteve uma resposta bastante positiva por parte da crítica, tendo feito pouco menos de 30 mil espectadores. Um número respeitável. Porém, sendo o objecto raro que é e pertencendo a um género tão popular, o filme merecia ter tido uma performance melhor nas salas portuguesas, afinal, o filme estreou (segundo dados do ICA) com 26 cópias – caso também raro no nosso cinema: há apenas cerca de uma dezena de filmes portugueses distribuídos com um número de cópias superior.

Sendo um projecto tão especial, ficámos decepcionados com o poster criado para o filme. Certamente que a única longa-metragem de terror portuguesa produzida em muito tempo merecia um conceito mais claro, sofisticado e mais forte do que uma imagem a duas cores tão pouco estimulante (e até enganadora) acerca dos trunfos do projecto.

A clareza acerca da mensagem comunicada é muito importante na relação com o espectador e aqui muita gente confunde a mensagem com o seu conteúdo: somente porque o filme não é um típico splatter film tal não significa que não existam outros elementos de horror que não possam (ou não mereçam) ser comunicados com a eficácia de que o filme necessita. A aposta no vermelho, por exemplo, não pode ser um mero exercício estilístico na medida em que ela sugere um sangue (ou gore, se quisermos ser rigorosos) que não está no filme. Isto é ainda mais verdade quando existem casos que mostram o quão arriscada é esta estratégia.

Dois anos antes, aparecera o filme britânico DEAD MAN’S SHOES (2004)  de Shane Meadows. Basta olhar para ambos os posters para percebermos as semelhanças. A estratégia é quase idêntica. No entanto, o poster de DEAD MAN’S SHOES com a mesma monocromia é ligeiramente mais claro ao conduzir a nossa atenção para a lâmina do machado – objecto clássico do género e evidente no filme. O trabalho revela ainda alguns elementos de tensão importantes no projecto: a personagem a empunhar uma arma de fogo e um grupo de homens cuja posição é expressiva. A mensagem parece clara: sangue, confronto, vingança e violência – elementos importantes mas que não são assim tão espectaculares quanto alguns espectadores poderiam estar a espera. O problema está no facto do consumidor ser mais exigente do que isto e, neste género, não responder da mesma forma a projectos que pedem outro tipo de comunicação. DEAD MAN’S SHOES não teve uma carreira significativa, ficando-se por cerca dos 40 mil espectadores – um número decepcionante se tivermos em consideração o enorme mercado que é o Reino Unido. Talvez o resultado fosse outro se a promoção fosse diferente – talvez até o mercado olhasse para o projecto com outra percepção.

Um dos posters de 30 DAYS OF NIGHT (2007) de David Slade consegue comunicar muito mais sobre o filme, utilizando também a mesma estratégia. Porém, o trabalho aposta numa imagem clara, forte e muito mais estilizada. A estratégia parece funcionar em pleno quando o espectador percebe que o filme clara e inequivocamente possui os grandes valores de produção típicos do género: gore, criaturas, violência, etc. Como é óbvio, neste post não estão em causa as qualidades dos três filmes. No entanto, parece-nos que 30 DAYS OF NIGHT é um projecto mais bem posicionado para ter sucesso com esta estratégia “vermelho e preto” na medida em que o espectador parece perceber que o poster brinca consigo: o espectador não duvida que o filme possui todos os elementos de género que deseja ver – mesmo apesar da hiperestilização do poster – até porque o orçamento de promoção do filme permite uma grande quantidade de outros materiais (posters alternativos, fotos e etc.) que se encarregam de cumprir as expectativas.

28 DAYS LATER (2002) de Danny Boyle é outro grande exemplo: Londres, biohazard, texto… e uma campanha promocional magnífica que comunica um conceito simples e claro de apocalipse que se pode sintetizar em taglines brilhantes: “the days are numbered” ou ainda “be thankful for everything for soon there will be nothing”.

Já no caso do DEAD MAN’S SHOES e ainda mais no COISA RUIM, a imprecisão acerca do que é comunicado e a ausência de outros materiais gera desconfiança e incerteza. Ambos não possuem sequer uma tagline poderosa (elemento valioso na clarificação da proposta que a obra faz ao público). O espectador simplesmente não sabe exactamente que tipo de experiência vai ter. São propostas demasiado obscuras que no seu todo, comunicam mensagens complexas, contraditórias, difíceis de apanhar à primeira.

Se pensarmos em termos de universo de pertença, COISA RUIM está muito mais próximo de filmes como EL ORFANATO (2007) de Juan Antonio Bayona do que de filmes como THE AMYTIVILLE HORROR (2005) de Andrew Douglas – isto se formos buscar um dos elementos mais fortes nestes três filmes: a casa onde a acção tem lugar.

E sendo um filme que tal como o exemplo português não assenta no gore nem na violência indicadas pela cor vermelha, EL ORFANATO mostra-nos de forma exemplar como é possível comunicar bem e com toda a eficácia e clareza um filme de terror verdadeiramente único e diferente do splatter film habitual.

Este é o estilo de poster que melhor serviria a um filme como COISA RUIM. Este é o exemplo de um trabalho que, com enorme subtileza e bom gosto, comunica acerca de um filme aquilo que qualquer filme gostaria de ver comunicado acerca de si: qualidade, eficácia… um filme especial – tão especial quanto COISA RUIM é no panorama do cinema português.

COISA RUIM foi distribuído em DVD no mercado norte-americano pela Tartan sob o título de BAD BLOOD. E é aqui que as coisas complicam-se: ou o distribuidor não percebeu as características do projecto que tinha em mãos ou percebeu-as, porém teve medo delas. Somente uma destas hipóteses explica uma capa de DVD que pouco tem a ver com o filme. Na Amazon e no IMDB as críticas do público são bastante contraditórias. Na Amazon, por exemplo, podemos ler três críticas: “Ok movie, deceptive cover”, “A quiet menace” e “Bad movie”.

Talvez esta pessoa gostasse MAIS do filme se não achasse que foi enganada.

Não é de surpreender que no primeiro caso, o espectador esperava um filme diferente. Sua expectativa não foi satisfeita: o filme decepcionou-o. Apenas o segundo espectador aparentemente não foi influenciado pela capa do DVD. No último caso, a expectativa frustrada volta a acontecer. Mas desta vez, a resposta é claramente negativa: “o filme é mau”. É pena que duas das três experiências resultem contra o filme. Nenhuma obra necessita disto.😦

Se esta pessoa soubesse o que o filme tem para oferecer, decidiria se interessa-lhe ou não. E mesmo que decidisse ver, provavelmente a resposta não seria tão violenta.

Talvez a resposta destes espectadores fosse totalmente diferente (positiva) se o filme tivesse sido vendido de outra forma. Talvez a melhor estratégia para um projecto destes fosse preparar MELHOR os espectadores para um filme de terror onde o gore habitual no género não é o elemento mais forte.

Mas para isto, é fundamental um trabalho como deve ser: olhar para o projecto, perceber os seus objectivos, o seu estilo e compreender “quem é que vai gostar deste filme?” Uma miúda a flutuar diante de uma escada inundada de sangue provavelmente não é a melhor solução porque engana o espectador. A pior coisa que podemos fazer pelo nosso filme é não nos preocuparmos em posicioná-lo correctamente. Se não posicionamos o nosso filme de todo, então estamos a deixar que seja o espectador a ter esta tarefa: perdemos o controlo sobre este aspecto tão importante e as consequências podem ser terríveis. Se posicionamos mal o nosso filme (tentando vendê-lo como aquilo que ele não é) e atraímos os espectadores errados, o resultado é a rejeição.

Quando convencemos alguém a comprar um bilhete para ver o nosso filme, estamos a ganhar o jogo. As regras do jogo foram explicitadas nos trailers, nos posters e nos demais objectos de promoção/comunicação. Isto significa que o espectador que comprou o bilhete quer gostar do nosso filme. Cabe-nos a nós deitar tudo a perder.

Food for thought.🙂

BAD BEHAVIOR

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