Archive for August, 2011

Filme europeu da semana: The Beyond.

August 26, 2011

THE BEYOND é o título internacional pelo qual é conhecido aquele que é considerado por muitos a obra-prima de Lucio Fulci: L’ALDILÀ (1981). Este é o segundo filme da trilogia “Gates of Hell” que inclui ainda CITY OF THE LIVING DEAD (1980) e HOUSE BY THE CEMETARY (1981). No entanto, muitos fãs afirmam – e nós concordamos – que este filme é o que melhor introduz a obra de Fulci para aqueles que são novatos no género. E deste ponto de vista, THE BEYOND representa um momento da mais pura e absoluta stravaganza criativa: aranhas assassinas, zombies, ácido, fantasmas, warlocks, livros mágicos, portas para o Inferno, gore e violência em quantidades tão grandes que o distribuidor norte-americano achou melhor cortar.

Mas o filme, excessivo em todos os aspectos, ganhou desde cedo uma enorme quantidade de fãs que durante anos se deliciaram com cópias ilegais em VHS feitas a partir de uma versão japonesa sem cortes – ainda temos uma destas na prateleira… for sentimental reasons (risos). Consciente da enorme importância desta obra, Quentin Tarantino adquiriu os direitos de distribuição e deu início a um processo de restauro e recolha de materiais que deu origem ao lançamento da versão norte-americana em DVD – em 2008 – que até hoje é considerada como referência.

Mas pouca gente sabe que THE BEYOND é uma homenagem de Fulci ao seu dramaturgo favorito: Antonin Artaud e o seu “Teatro da Crueldade”.

Advertisements

Aventuras do cinema de animação pelos domínios do terror.

August 21, 2011

Recorded Live (1975) de S. S. Wilson.

Em tempos divulgámos algumas curtas-metragens de terror que consideramos excelentes… e esperamos ter a oportunidade de continuar a fazê-lo. No entanto, este post mostra algo pouco comum: curtas-metragens de animação que também exploram o género. O cinema de animação é pouco dado a incursões pelo terror por motivos bastante óbvios. Por um lado, existe a ideia geral de que a animação é coisa de crianças. Por outro, existe a percepção de que o terror é melhor veiculado pelo live action. Duh! Nada disto é verdade e apesar da maioria das animações serem direccionadas para o público infantil, há uma quantidade crescente de obras que claramente elegem os mais crescidos como o seu público de eleição. A mesma coisa se pode dizer acerca do live action: somente porque a maioria do cinema de terror é live action, tal não significa que apenas este seja capaz de transmitir ao espectador uma experiência digna do género. É aqui que entra o cinema de animação experimental que, totalmente livre das convenções e do senso comum, faz o que lhe compete: experimentar… e por vezes com imenso sucesso. Os exemplos que se seguem mostram um pouco daquilo que é possível fazer quando existem boas ideias… e alguma paciência. 🙂

1 – RECORDED LIVE de S. S. Wilson.

2 – MANNY de Adam Rosemberg.

3 – CROOKED ROT de David Firth.

4 – ALIVE..? de Nadia Rundblad.

5 – KEYHOLE de Kim Turner.

6 – HAUNT de Glenn Zimmatore.

7 – HUMAN HEAD REVIVAL de Jupsto.

LOL (parte VII)

August 17, 2011

Encontrámos na net esta receita para uma bebida que nos parece especial…

Filme europeu da semana: The Company of Wolves.

August 14, 2011

Antes do INTERVIEW WITH THE VAMPIRE (1994), antes do THE CRYING GAME (1992), do WE’RE NO ANGELS (1989) e da MONA LISA (1986), Neil Jordan escreveu e realizou este filme de lobisomens totalmente diferente do habitual. Numa casa de campo, na Inglaterra dos anos 80, uma rapariga está na cama a dormir. Ela sonha ser uma camponesa do século XVIII que após a morte da irmã fica sob a guarda da avó. Esta avó, por sua vez, tenta alertar a neta para os perigos do desejo, dos homens e da floresta 🙂 e conta-lhe histórias que mostram um pouco destes perigos.

Na prática estamos diante de uma estrutura ímpar de histórias dentro de uma história dentro de outra história. Mas THE COMPANY OF WOLVES (1984) é muito mais do que isto. Trata-se de uma colecção de histórias fantásticas que giram em torno de lobos e lobisomens… mas que falam realmente sobre folclore, erotismo, adolescência, desprezo e a descoberta do sexo.

Original key art.

Esta produção foi quase inteiramente filmada em estúdio e a floresta onde tem lugar a maior parte da acção é impressionante. Impressionante é também a melhor descrição de um belíssimo trabalho de production design do grande Anton Furst que aqui assina o seu terceiro filme. Mais tarde, Anton Furst assinaria também o production design de FULL METAL JACKET (1987) e BATMAN (1989). A música composta por George Fenton é da melhor que já se ouviu no género – George Fenton, aliás, seria o responsável pela música de outro grande filme: DANGEROUS LIAISONS (1988) que lhe valeria uma indicação para um Óscar.

THE COMPANY OF WOLVES lembra muitos outros filmes: entre eles, um pouco do THE RED SHOES (1948) da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger e ainda KWAIDAN (1964) do Masaki Kobayashi. O ambiente dominante é onírico, surreal e luxuriante. Cá está uma obra para descobrir: um exemplo raro de terror europeu que em muito ultrapassa o mero género.

É desnecessário dizer que o filme possuiu a sua quota de incompreensão – em especial se pensarmos que num certo sentido, THE COMPANY OF WOLVES é uma espécie de antítese do célebre AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON (1981) do John Landis. No entanto, esta obra de Neil Jordan – um terror claramente poético, longe daquilo que seria de esperar de um filme de lobisomens nos anos 80 – tem captado um número sempre crescente de seguidores desde a altura do seu lançamento. Algum do charme do filme deriva, ainda, do facto de ele ser por vezes anacrónico (outra raridade no género). Um exemplo disto é a cena em que o Diabo (Terence Stamp num papel perfeito 🙂 ) aparece num Rolls Royce branco em pleno século XVIII.

A historieta da mulher que transforma os convidados de um banquete de casamento em lobos é imperdível!

Mestres do cinema de terror europeu IV: Amando de Ossorio.

August 11, 2011

O cinema espanhol sempre teve uma relação bastante fecunda com o cinema de terror. Amando de Ossorio (1918-2001) pode não ser um dos autores mais reconhecidos. No entanto, o seu contributo para o fortalecimento do cinema de nuestros hermanos foi enorme. Após alguns “flamenco/spaghetti westerns” como LA TUMBA DEL PISTOLERO (1964) e I TRE DEL COLORADO (1967), Amando de Ossorio estreia-se no cinema de terror com MALENKA (1969). Naquela época, o cinema de terror europeu (em grande parte espanhol e italiano) era comercializado nos grandes mercados (como o norte-americano) por pequenos distribuidores locais que, de tempos em tempos, alteravam os títulos dos filmes para que estes parecessem novos (ou para aproveitar o sucesso de outros filmes).

MALENKA, por exemplo, só nos Estados Unidos possuiu quatro títulos: FANGS OF THE LIVING DEAD (numa alusão desastrada ao filme do Sr. Romero); MALENKA, THE VAMPIRE (mais simples); THE VAMPIRE’S NIECE (totalmente diferente, não?) e, por último, MALENKA, THE NIECE OF THE VAMPIRE (…e está tudo dito!). LOL!! Coisas destas aconteciam porque o mesmo filme podia saltitar de distribuidor em distribuidor conforme as regiões cobertas por cada um. Para além disto, o surgimento do mercado de home video (em Betamax ou VHS) criara uma enorme demanda por conteúdos: novos títulos = novos filmes = $$$.

Com o sucesso no campo dos vampiros, Amando de Ossorio havia descoberto o seu género de eleição. Segue-se logo o seu filme mais conhecido, LA NOCHE DEL TERROR CIEGO (1971) que partia de uma ideia totalmente original: guerreiros do século XIII ressuscitados como zombies que aterrorizam um grupo de jovens de férias em Portugal. Mas os zombies eram cegos e encontravam suas vítimas ao ouvir-lhes o batimento cardíaco. Nada mal.

Apesar de ter sido lançado na sua forma original, nos Estados Unidos, com o título THE BLIND DEAD, alguns distribuidores tentaram colar o filme a uma outra produção alemã que tinha obtido sucesso: MARK OF THE DEVIL (1970) – filme que ficou célebre por oferecer aos seus espectadores sacos de vómito que faziam jus a tagline “positively the most horrifying film ever made”. Assim sendo, THE BLIND DEAD foi espetado com dois títulos muito divertidos: MARK OF THE DEVIL, PART 4: TOMBS OF THE BLIND DEAD e depois em vídeo: MARK OF THE DEVIL, PART 5: NIGHT OF THE BLIND TERROR. Esta aparente confusão acerca da parte faz com que esta obra seja uma sequela dela própria. Quantos filmes conseguem esta proeza? 🙂 Outros distribuidores norte-americanos tiveram uma ideia muito mais sofisticada (risos): remontaram partes do filme, acrescentaram-lhe um novo início que explica que há muitos milénios houve uma civilização de macacos que blá, blá, blá… e (bang!) lançaram o filme com o título REVENGE FROM PLANET APE. E há quem diga que hoje os autores não são respeitados! 😛

Caixa THE BLIND DEAD disponível nos Estados Unidos.

Mas nada disto impediu o filme de ser um sucesso e Amando de Ossorio regressou ao conceito mais três vezes em EL ATAQUE DE LOS MUERTOS SIN OJOS (1973), EL BUQUE MALDITO (1974) e LA NOCHE DE LAS GAVIOTAS (1975). Como é óbvio, cada um dos filmes conta com uma lista de títulos alternativos tão genéricos quanto engraçados (THE RETURN OF THE EVIL DEAD, ZOMBIE FLESH EATER… ou até mesmo ZOMBIE 8 – risos).

Mas nem tudo são risos. Amando de Ossorio foi alguém que lutou durante anos contra orçamentos (e produtores) que claramente não conseguiam concretizar aquilo que era a sua visão original. Vistos após tantos anos, estes filmes parecem envelhecer mal. No entanto, é impossível desligar os filmes do seu contexto, sendo fundamental reconhecê-lo: o cinema espanhol ganhou muito dinheiro, experiência e público graças a pessoas como Amando de Ossorio. SERPIENTE DE MAR (1984) marca o fim da sua carreira. Cansado e desapontado mais uma vez com o produto final, Amando de Ossorio reformou-se.

Viva o cinema de terror europeu!

Algumas notas sobre o Found Footage.

August 8, 2011

O cinema de ficção tem, já há muito tempo, experimentado formas diferentes de fusão com o documentário. Muitos projectos e histórias parecem ganhar algo mais ao tentar incorporar a realidade dentro da ficção. Até aqui não há nada de novo e, embora seja difícil identificar com exactidão o filme ou o realizador que fez pela primeira vez este tipo de aproximação, podemos facilmente encontrar no passado exemplos importantes de grande qualidade: GERMANIA ANNO ZERO (1948) de Roberto Rossellini, AIR FORCE (1943) de Howard Hawks e LA BATTAGLIA DE ALGERI (1966) de Gillo Pontecorvo são apenas três exemplos interessantes. Mas se em alguns casos este tipo de inclusão do documental visa atribuir à ficção alguma da autenticidade dos factos reais nos quais ela se baseou (daí o facto dos três exemplos acima estarem ligados ao género de guerra), outros casos há em que aproximação é puramente formal, não havendo qualquer base real. A ficção, neste caso, ganha uma energia de sátira ou paródia justamente pela enorme tensão criada entre o conteúdo claramente ficcional e uma forma que jura realidade. É aqui que entramos no reino dos mockumentaries, um subgénero da comédia que também possui algumas obras-primas como ZELIG (1983) de Woody Allen, THIS IS SPINAL TAP (1984) de Rob Reiner e MAN BITES DOG (1992) de Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde.

William Castle

Sendo um género que aposta em gerar no espectador experiências de horror, medo e choque, o cinema de terror sempre foi muito rápido a reconhecer o potencial destas fusões e aproximações entre o real, o documental e a ficção. William Castle, produtor e realizador, teve a ideia de fazer um grande esqueleto de plástico iluminado saltar de uma caixa negra e vaguear por cima do público durante uma cena importante do seu filme HOUSE ON HAUNTED HILL (1959). A preocupação do Sr. Castle não era para com o documental, mas sim para com o próprio real: gerar no espectador um choque e um sentimento de medo que fossem mais além daquilo que o filme proporcionava. Não resultou. As pessoas quando souberam da existência do “Emergo” (o nome atribuído ao esqueleto) passaram a levar sligshots e armas de pressão para o cinema. O efeito pretendido fora subvertido e o Emergo nunca mais saiu da sua caixa.

INVASION OF THE BODY SNATCHERS (1956)

A procura por um real que fosse mais além do que a ficção permite sempre esteve muito próxima do género. Podemos recuar um pouco mais até INVASION OF THE BODY SNATCHERS (1956) de Don Siegel, em cujo final o grande Kevin McCarthy grita directamente para o público “they are here already. You’re next!”. Esta ideia parecia trazer algo de novo: o real não é real por ser mostrado no ecrã; o real é real porque dizemos que ele o é. O cinema de exploitation, onde aquilo que se diz sobre o filme é quase tão importante quanto o próprio filme, ganhou novo fôlego a partir daqui.

Mas o exploitation que vemos em força a partir dos anos 60 (apesar de ser algo bem mais antigo) continuava a ser um gimmick de eficácia questionável. Para o cinema de terror a realidade presente no cinema documental continuava esquiva, elusiva, ilusória, efémera. Num certo sentido, o sucesso de Orson Welles com o seu WAR OF THE WORLDS (1938) parecia irrepetível.

Foi necessário esperar até 1980, ano no qual aparece o primeiro filme a utilizar uma forma documental com o objectivo de chocar os espectadores: CANNIBAL HOLOCAUST de Ruggero Deodato. O resultado foi uma sucessão de problemas para o realizador que quase foi parar na cadeia e um sucesso estrondoso para o filme que ao longo de anos foi intensamente explorado na sequência da percepção geral de que os factos narrados eram mesmo verdadeiros.  Havia nascido o Found Footage contemporâneo.

CANNIBAL HOLOCAUST (1980)

CANNIBAL HOLOCAUST representa a afirmação do Found Footage como o melhor exemplo de uma integração perfeita entre o ficcional, o documental e o real. O problema é que o sucesso destas estratégias – tal como acontecido em 1938 com Orson Welles – não apanha o mesmo espectador duas vezes: o fenómeno necessita de intervalos longos, caso contrário, banaliza-se e perde o impacto. E de facto, ao longo dos anos oitenta, esta estratégia aparece muito pouco e sempre em contextos muito localizados. Em 1998, ela aparece em ALIEN ABDUCTION: INCIDENT IN LAKE COUNTY (1998) de Dean Alioto, que narrava o rapto de uma família norte-americana captado em vídeo pelas próprias vítimas. O filme com 93 minutos construído com o tal found footage foi exibido pela United Paramount Network (UPN), causando imediatamente uma enorme confusão nos espectadores.

A controvérsia que se traduz em sucesso resulta desta confusão: na ausência (propositada) de uma explicação, aparecem várias teorias que se contradizem:

  1. O vídeo é verdadeiro;
  2. O vídeo não é verdadeiro, mas a família e a história contada sim;
  3. O vídeo e a família em causa não são verdadeiros, mas a história foi inspirada noutro caso real.

O sucesso deste projecto foi garantido por uma estratégia muito interessante: apesar de vir acompanhado (em vários países) de explicações acerca da controvérsia, esta última foi artificialmente prolongada quando alguns canais cortaram o genérico final (onde vemos os actores que interpretam as personagens).

THE LAST BROADCAST (1998) de Stefan Avalos e Lance Weiler tenta uma abordagem mais rebuscada: assume-se como um documentário claro acerca de um conjunto de crimes sobrenaturais e utiliza-se do found footage para encontrar a verdade. A diferença está no facto do filme introduzir um twist final (o próprio documentarista é o assassino) que dificilmente combina com toda a estratégia arquitectada. O Found Footage afinal possui regras, e THE LAST BROADCAST atropelou uma delas: não misturar o mistério em torno do found footage com o filme final que utiliza o Found Footage. O filme não foi um sucesso e não gerou grande confusão ou controvérsia.

Não é por coincidência que no ano seguinte aparece o mega sucesso THE BLAIR WITCH PROJECT (1999) de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez que, tendo aprendido a lição de THE LAST BROADCAST, utiliza na perfeição todos os truques do novo género. Mas mais do que isto, o filme representa o até onde uma estratégia de Found Footage consegue ir nas mãos de um distribuidor bem musculado (no caso, a Artisan Entertainment) – isto porque a realidade tão necessária ao sucesso do projecto deveu-se ao marketing profissional que durante meses martelou a cabeça do público com estas três coisas:

  1. Uma ficção como verdade (“hmm… então em 1994 um grupo de miúdos desapareceu enquanto investigava uma lenda local”);
  2. Um mito fabricado como se fosse um mito verdadeiro (The Blair Witch e o assassino Rustin Parr);
  3. Uma novidade fabricada (“OMG! …E não é que encontraram o material filmado?!?!”)

A dimensão do fenómeno THE BLAIR WITCH PROJECT é importante por três razões. Primeiro porque a eficácia na obtenção daquela resposta amplificada do público (o sonho do Sr. William Castle) devido à combinação entre ficção, documental e real transformou o Found Footage num subgénero apetecível – e basta vermos a infinidade de projectos que desde então utilizam a mesma estratégia. Segundo porque ela marca, ao mesmo tempo, o declínio do subgénero enquanto forma privilegiada na obtenção desta mesma resposta amplificada por parte do público (isto porque já no ano 2000… e 300 filmes depois a utilizar o mesmo estratagema, o público evoluiu e aprendeu que esta estratégia é apenas mais uma forma de contar histórias – e nada tem de extraordinário). E terceiro porque este declínio fez evoluir o próprio conceito de Found Footage: passou de mais um gimmick para o facto de hoje ser uma importante ferramenta criativa.

CLOVERFIELD (2008)

E é enquanto ferramenta criativa que o Found Footage é hoje utilizado. ZOMBIE DIARIES (2006) de Kevin Gates e Michael Bartlett, [REC] (2007) de Jaume Balagueró e Paco Plaza, DIARY OF THE DEAD (2007) de George A. Romero, PARANORMAL ACTIVITY (2007) de Oren Peli, CLOVERVIELD (2008) de Matt Reeves e THE LAST EXORCISM (2010) de Daniel Stamm já pertencem a esta nova forma de utilização do Found Footage: não como um gimmick para gerar confusão, controvérsia e sucesso comercial (até porque os factos e histórias narradas pertencem claramente ao domínio da ficção), mas sim como uma forma fascinante de tratar criativamente estas ficções. A resposta do público também não é a mesma. Já não existe o fascínio pelo facto da narrativa poder ser ou ter sido real (já ninguém se deixa levar), mas sim pelo facto da narrativa parecer real quando claramente não o é.

Mas aqui surge uma questão de Produção: se podemos utilizar esta estratégia, devemos fazê-lo?

O Found Footage, com o seu aspecto pouco tratado, imediato, instantâneo e até por vezes amador pode constituir efectivamente uma forma de baixar os custos: o equipamento parece ser barato, a equipa parece poder ser pequena, os planos parecem ser longos (logo a rodagem será curta), a iluminação é aparentemente simples… parece uma fórmula perfeita para os ultra-low-budgets, certo? Errado.

Exemplo 1: ATROCIOUS (2010) de Fernando Barreda Luna.

Por esta altura já pouca gente acredita que esta família sequer existe… ou que o filme tenha sido montado com base em material de vídeo proveniente da cena do crime. A estratégia já foi demasiado utilizada para não ser óbvia. O problema surge quando começamos a ver o filme: nos primeiros 55 minutos não acontece nada a não ser o facto dos irmãos andarem pelo mato a captar imagens desinteressantes e a conversar. Esta gestão do tempo é muito semelhante àquilo que foi feito no próprio THE BLAIR WITCH PROJECT onde aquilo que se procura é um crescendo constante até o clímax final. No entanto, a diferença está toda no espectador. Em 1999, a credulidade do público (inexperiente) estava toda do lado do filme. Em 2011 (e 300 filmes depois) já ninguém tem pachorra… porque já ninguém acredita ou mesmo especula. CLOVERFIELD e [REC], é preciso lembrar, começam os seus espectáculos muito cedo justamente por saberem que o público já não tolera 50 minutos de mero pretexto para o fim (este sim, interessante). ATROCIOUS até pode ser curto (foi exibido em duas versões cuja média é 80 minutos) mas a história é ainda mais curta.

Exemplo 2 – THE TROLL HUNTER (2010) de André Øvredal.

Este filme norueguês está a fazer sucesso por onde tem passado. Isto acontece porque os seus criadores perceberam que o Found Footage é uma ferramenta criativa e não um pretexto para se poder fazer um filme barato. E como qualquer boa ferramenta, ela potencia uma boa história – nunca a substitui. THE TROLL HUNTER não foi um filme barato nem simples. Mas parte de uma ideia excelente e desenvolve-a bem ao longo dos seus 90 minutos. O Found Footage é mais uma ferramenta criativa ao serviço da história, dos actores, dos décors, dos efeitos e do realizador. THE TROLL HUNTER obtém sucesso ao incluir a estratégia de Found Footage no seu pacote de surpresas. ATROCIOUS falha ao obrigar o espectador a aguentar uma eternidade de tempo em cenas que nada oferecem ao espectador.

Estes dois exemplos mostram formas totalmente distintas de olhar para o Found Footage. Mas na prática tudo se resume a isto: se temos uma boa história, boas personagens e percebemos que o Found Footage pode potenciar aquilo que temos, então ele é uma opção a considerar. Se não temos uma boa história e o Found Footage apenas serve para que possamos pôr a câmara a vaguear no escuro durante dez minutos – e esticar uma curta-metragem até esta passar a longa – então mais vale voltar atrás e reescrever o projecto. Se o Found Footage serve para nos permitir não mostrar nada quando a protagonista é atacada (ou seja, um pretexto para não gastar dinheiro numa cena de clímax), então estamos a anular a combinação de ficção, documental e real que quando bem feita resulta tão bem. O público actual é bem experimentado e sabe a diferença.

E que tal um pouco de terror brasileiro?

August 6, 2011

Tal como acontece com Portugal, o Brasil infelizmente também não é conhecido pelos grandes filmes de terror que produz. No entanto, o público brasileiro gosta muito do cinema de terror e o género possui ampla distribuição (em salas de cinema e em home video). Os filmes que se seguem foram produzidos com baixíssimo orçamento e em grande parte por equipas não-profissionais – demonstrando o potencial do género, se bem produzido, no mercado de língua portuguesa. Eles representam uma enorme vontade por parte do público de ver cinema de terror em português. Aliás, citando as palavras imortais de Fernando Pessoa se ele fosse um zombie: “nnh… a… p-p… ahh… triah.. êee…llnng… prrr… tuhh… gzzz-aahh!”

1 – A ERA DOS MORTOS (2007) de Rodrigo Brandão.

Este filme tem cerca de 40 minutos e foi produzido por um grupo de amigos com duas coisas em comum: Minas Gerais e zombies. A combinação pode parecer estranha… mas o filme é uma delícia na forma como reproduz fielmente todas as convenções do género. Não sabemos quanto o filme inteiro custou. Mas neste caso o custo é irrelevante porque aquilo que o filme mostra é o amor dos seus criadores pelo género. E mais: o filme pode ser visto à borlix no site oficial da ERA DOS MORTOS. E como se o filme não fosse suficiente, o projecto deu origem a um conjunto de bandas desenhadas muito curtas que também podem ser encontradas gratuitamente no website.

2 – A MALETA (2010) de Rodrigo Brandão.

…E eles continuaram a fazer filmes. Esta curta-metragem de apenas 15 minutos está impecável e mostra evolução. Pode ser vista gratuitamente no youtube. De tanto amor pelo género, generosidade e talento, só se pode dizer isto: esperamos que estes produtores continuem a filmar. 🙂

3 – A CAPITAL DOS MORTOS (2008) de Tiago Belotti.

Brasília é uma daquelas cidades que não deixam ninguém indiferente: ou amamos ou odiamos. Mas nunca nos passou pela cabeça que a cidade do “você sabe com quem está falando?” pudesse ser o cenário para um Zombie Apocalypse. Este vídeo é uma longa-metragem totalmente independente produzida com imensa coragem que pode ser encontrada à venda no website oficial A CAPITAL DOS MORTOS. O DVD é uma edição de dois discos (no less!) com uma quantidade de extras que faria inveja ao mensalão (risos). E tudo custa apenas R$20,00 (que em Euros são peanuts). Já ficámos a saber que a sequela está agendada para 2012 e que o orçamento será actualizado. Cá vai o trailer.

4 – PORTO DOS MORTOS (2008) de Davi de Oliveira Pinheiro.

É impossível não gostar de um filme onde o protagonista conduz um Ford Maverick que transborda estilo. Infelizmente não conseguimos encontrar este DVD em lado algum – logo não vimos o filme. No entanto, o esforço parece ter ficado muito interessante. O trailer e a sinopse indicam que o filme tem mais do que apenas zombies 🙂 . O website oficial de PORTO DOS MORTOS infelizmente é minimal e não possui mais do que o trailer. E já agora: lemos que o “porto” do título tem a ver com a cidade de Porto Alegre, no sul do Brasil. E o título internacional do projecto é BEYOND THE GRAVE. Também queremos um Maverick!!! 🙂

5 – MANGUE NEGRO (2008) de Rodrigo Aragão.

Se numa bela manhã o grande Glauber Rocha tivesse acordado com vontade de fazer um filme de zombies, o resultado muito provavelmente seria algo semelhante a… MANGUE NEGRO. Se o Peter Jackson fosse brasileiro, MANGUE NEGRO provavelmente seria o seu BRAINDEAD. Enough said? Esta obra produzida num lindo manguezal algures no estado do Espírito Santo possui uma “brasilidade” que não encontramos em muitas produções do cinema brasileiro actual. E o charme deste filme está no facto dele jamais se levar demasiado a sério – o que torna os efeitos especiais ainda mais divertidos de ver. A edição em DVD é excelente e merece ser comprada. Ficámos espantados ao ver como uma equipa tão pequena (e com tão poucos meios) conseguiu fazer tanto. É claro que os poucos meios implicam grandes limitações de produção. Mas é impossível não nos rendermos a pessoas com tamanha paixão pelo gore. O website oficial de MANGUE NEGRO possui ampla informação sobre o filme.

6 – ELES COMEM SUA CARNE (1996) e ZOMBIO (1999) de Peter Baiestorf.

The best is for the last… e para fechar esta pequena lista sugerimos ainda duas produções absolutamente originais. ELES COMEM SUA CARNE é descrito como “uma linda história sobre um grupo de canibais que se diverte comendo fiscais da prefeitura”. Mas o filme é mais do que isto: trata-se de uma orgia canibal non-stop com laivos de psicadelismo, dark, camp, Raul Seixas e John Waters. Parece impossível? Imperdível! Já ZOMBIO é um filme de zombies mais clássico – com um pequeno detalhe: trata-se de, como bem explica o realizador, uma homenagem ao mestre italiano Lucio Fulci. ZOMBIO é, aliás, considerado o primeiro filme de zombies brasileiro. Peter Baiestorf é um videomaker incontornável nas produções independentes brasileiras e a sua filmografia é enooooorme. É dele um dos nossos filmes favoritos: O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO (1995). Baiestorf parece ter duas grandes qualidades: uma cultura enciclopédica sobre cinema de terror (e não só!) e uma natural incapacidade para ficar parado. Hail to the king! 🙂


%d bloggers like this: