Filme europeu da semana: The Company of Wolves.

Antes do INTERVIEW WITH THE VAMPIRE (1994), antes do THE CRYING GAME (1992), do WE’RE NO ANGELS (1989) e da MONA LISA (1986), Neil Jordan escreveu e realizou este filme de lobisomens totalmente diferente do habitual. Numa casa de campo, na Inglaterra dos anos 80, uma rapariga está na cama a dormir. Ela sonha ser uma camponesa do século XVIII que após a morte da irmã fica sob a guarda da avó. Esta avó, por sua vez, tenta alertar a neta para os perigos do desejo, dos homens e da floresta🙂 e conta-lhe histórias que mostram um pouco destes perigos.

Na prática estamos diante de uma estrutura ímpar de histórias dentro de uma história dentro de outra história. Mas THE COMPANY OF WOLVES (1984) é muito mais do que isto. Trata-se de uma colecção de histórias fantásticas que giram em torno de lobos e lobisomens… mas que falam realmente sobre folclore, erotismo, adolescência, desprezo e a descoberta do sexo.

Original key art.

Esta produção foi quase inteiramente filmada em estúdio e a floresta onde tem lugar a maior parte da acção é impressionante. Impressionante é também a melhor descrição de um belíssimo trabalho de production design do grande Anton Furst que aqui assina o seu terceiro filme. Mais tarde, Anton Furst assinaria também o production design de FULL METAL JACKET (1987) e BATMAN (1989). A música composta por George Fenton é da melhor que já se ouviu no género – George Fenton, aliás, seria o responsável pela música de outro grande filme: DANGEROUS LIAISONS (1988) que lhe valeria uma indicação para um Óscar.

THE COMPANY OF WOLVES lembra muitos outros filmes: entre eles, um pouco do THE RED SHOES (1948) da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger e ainda KWAIDAN (1964) do Masaki Kobayashi. O ambiente dominante é onírico, surreal e luxuriante. Cá está uma obra para descobrir: um exemplo raro de terror europeu que em muito ultrapassa o mero género.

É desnecessário dizer que o filme possuiu a sua quota de incompreensão – em especial se pensarmos que num certo sentido, THE COMPANY OF WOLVES é uma espécie de antítese do célebre AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON (1981) do John Landis. No entanto, esta obra de Neil Jordan – um terror claramente poético, longe daquilo que seria de esperar de um filme de lobisomens nos anos 80 – tem captado um número sempre crescente de seguidores desde a altura do seu lançamento. Algum do charme do filme deriva, ainda, do facto de ele ser por vezes anacrónico (outra raridade no género). Um exemplo disto é a cena em que o Diabo (Terence Stamp num papel perfeito🙂 ) aparece num Rolls Royce branco em pleno século XVIII.

A historieta da mulher que transforma os convidados de um banquete de casamento em lobos é imperdível!

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Uma resposta to “Filme europeu da semana: The Company of Wolves.”

  1. alcaminhante Says:

    Para mim continua a ser um dos melhores e mais esquecidos filmes de fantasia de sempre. Talvez por nao ser americano, mesmo embora tendo sido popular por ca quando estreou no cinema acabou por ficar na prateleira da memória colectiva ao longo dos anos.

    Os efeitos na altura eram brutais e a transformação dos lobos marcou tanta gente quanto o alien a saltar do peito no filme de riddley scott e mesmo continua a ser fascinante.
    O design continua a ser um dos meus favoritos, pois aquela floresta e aldeia saiem directamente do melhor dos contos de fada com uma pitada de misterio.

    Terry Gilliam no Brothers Grim parece ter tentado uma estética parecida mas no caso dele acho que ficou muito artificial, coisa que nao acontece neste A Companhia dos Lobos de Neil Jordan pois a meio do filme ninguem se lembra mais que a floresta é um cenário (quase tao boa quanto a de Legend um ano mais tarde filmada por Riddley Scott tambem.

    E o estilo capuchinho vermelho está magnifico com grande destaque para a avozinha…não só é a avozinha do capuchinho vermelho como tem qualquer coisa de perturbante ao mesmo tempo. Até eu que nao gosto particularmente da “Jessica Fletcher” tenho que dar o braço a torcer e concordar que a actriz tem aqui um papel fantastico.

    Para mim isto continua mesmo a ser um dos melhores cruzamentos de fantasia com terror e se calhar até deve ter sido o primeiro filme de fantasia que não foi tratado como se fosse um produto para crianças como era normal associar a fantasia ao cinema antigamente. Mostrou que a fantasia tambem pode ser um genero adulto.

    Curiosamente estes anos 83/84 foram excelentes para a produçao de filmes de fantasia que nao tratavam os adultos por imbecis nem as criancinhas por bébés. Lady Hawke de Richard Donner podia ser uma lenda Portuguesa medieval, Legend foi uma espécie de antecipaçao do Tolkien e a Historia Interminavel conseguiu no meio de todos os efeitos adaptar perfeitamente nao o livro mas a atmosfera do livro num filme que ainda hoje agrada tanto a putos como a adultos que gostam de fantasia.
    Até o Krull ja bem mais dentro do blockbuster americano tem o seu encanto.
    Até á chegada de Lord of the Rings, se calhar a melhor colheita de filmes de fantasia num estilo moderno aconteceu mesmo por volta de 83 / 84 onde tambem nao podemos esquecer o Dune de David Lynch.
    Fico com a sensação que antigamente ate o cinema comercial arriscava mais em criar universos novos sem ter tecnologia para isso do que acontece hoje onde se pode fazer tudo mas nao ha imaginaçao para nada.

    A companhia dos loboms continua a ser um filme fantastico ainda hoje e espero que nao continue tao desconhecido junto dos fans de fantasia que se calhar ainda nao tinham nascido quando estreou.

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