Notoriedade versus infâmia: notas soltas.

ESTE POST CONTÉM SPOILERS.

O senso comum diz que a violência e o sexo vendem. A verdade, porém, é um pouco mais complexa do que isto. O cinema de terror sempre foi subversivo por natureza. Ele choca, ofende, assusta, expõe, exagera, satiriza, critica, cria desconforto e faz tudo aquilo mais de que o status quo não gosta. E os fãs do género procuram exactamente este tipo de experiências – o que nos leva a concluir que, neste género, quanto mais, melhor.

No entanto, não devemos nunca confundir notoriedade com infâmia. E no passado recente, existem dois filmes que ilustram bem esta questão: A SERBIAN FILM (2010) e THE HUMAN CENTIPEDE II (FULL SEQUENCE) (2011).

A fronteira entre a notoriedade e a infâmia é muito opaca. Em A SERBIAN FILM, um actor de filmes pornográficos pratica actos de enorme sadismo, crueldade e violência sexual. A qualidade do argumento, da realização, da fotografia e de tantos outros departamentos permite ao filme possuir um conjunto de situações-limite que põem o filme dentro do campo da notoriedade – porque o espectador possui a percepção clara de que a experiência que o filme apresenta será difícil de igualar. No entanto, tudo muda quando o protagonista viola o próprio filho de sete anos, numa cena em que a planificação aproxima o filme da pedofilia explícita.

É claro que no cinema, as coisas nunca são aquilo que parecem ser. O actor realmente violou uma criança? É claro que não! No entanto, não é da produção que se fala, mas sim do seu efeito no ecrã. O problema é que a realização foi de tal forma precisa e clara na planificação/execução/montagem da cena que o efeito final até poderia ser utilizado como pornografia infantil se assim o quiséssemos. O problema não está nos 99,99% de nós que não faz esta utilização, mas sim nos 0,01% que poderiam fazê-lo. O filme tem como objectivo ser um objecto de pornografia infantil? Claro que não! Mas talvez, para alguns pedófilos, possa ser. E se pode ser… então acabará invariavelmente por sê-lo.

O resultado destas conclusões põe o filme numa zona pouco clara que, dada a gravidade do tema (pornografia infantil) irá naturalmente causar reacções extremas e problemas potencialmente perigosos para aqueles que neles estiverem envolvidos. Daí o filme ter sido banido em inúmeros países – e a sua mera apresentação em festivais ter causado tantos problemas. E agora voltamos ao ponto inicial: o filme passou de notório à infame – tendo o seu percurso comercial sofrido danos irreparáveis. Com uma distribuição comercial reduzida ao mínimo, o filme dificilmente irá recuperar o investimento feito. Toda esta notoriedade (transformada em infâmia) simplesmente não conseguirá ser convertida em vendas.

O próprio espectador sofrerá indirectamente na medida em que será sempre muito difícil encontrar uma versão do filme (se considerarmos as eventuais versões em DVD) que não tenha sofrido cortes em maior ou menor grau. E mesmo que o filme venha a ser lançado numa versão “unrated” (como recentemente aconteceu no mercado norte-americano) isto está longe de significar que o filme está completo. Significa apenas que a obra não foi submetida a classificação (mesmo tendo sofrido alguns cortes). E mais: se considerarmos o mundo dos downloads ilegais, será sempre muito difícil garantir que naquele ficheiro está uma versão sem cortes (até porque os cortes poderão variar de país para país, dando origem a una enormidade de versões – todas cortadas – em circulação). Em resumo: nunca se saberá com certeza.

A notoriedade é um elemento que pode ser explorado conforme a sua contribuição para a correcta percepção daquilo que o filme é ou tem de relevante dentro do género. No entanto, o movimento de transição para a o estado de infâmia é algo que nunca se deseja – porque a partir daqui, o percurso comercial da obra está todo posto em causa. A qualidade é sempre uma questão de percepção. E a luta no mercado trava-se sempre no campo da percepção (a nossa capacidade de comunicar ao mercado elementos de qualidade que sejam percepcionados enquanto tal).

O filme THE HUMAN CENTIPEDE II (FULL SEQUENCE) ilustra um caso um pouco diferente, salientando as nuances desta questão. Tendo sido banido no Reino Unido, até parece que estamos diante de outro caso infame. Mas não é bem assim. De facto, o filme possui imagens chocantes, violentas e degradantes. No entanto, nada daquilo que o filme possui chega aos calcanhares de um tema tão sensível (e legalmente amedrontador) quanto a pedofilia. O resultado é que toda a aparente infâmia em torno deste filme está do lado de um elemento – em si mesmo – já banal: a violência física. O filme apenas colhe a notoriedade por ser mais explícito (na violência) ou mais chocante (no sadismo das situações) do que 300 outros filmes que outrora foram considerados explícitos e chocantes. Porém, 300% de crueldade notória são acompanhados de 0% de elementos (como a pedofilia) que poderiam trazer uma REAL infâmia.

Tal como acontece com o filme da Sérvia, THE HUMAN CENTIPEDE II também não irá escapar a uma onda constante de cortes (e encontrar uma versão integral do filme será igualmente difícil). No entanto, a infâmia notória de A SERBIAN FILM irá durar anos e o medo resultante disto irá prejudicar o filme durante muito tempo. Já THE HUMAN CENTIPEDE II é infame simplesmente por ser notoriamente violento – e este factor de violência tende a esbater-se no tempo. Uma versão integral do filme de Tom Six será digerível pelo mercado muito mais facilmente do que uma versão integral do A SERBIAN FILM.

A notoriedade é sempre transitória e mais cedo ou mais tarde o tempo se encarregará de relativizar os elementos mais sensíveis do filme. A infâmia, porém, é bem mais longa e radical – ainda mais quando na sua origem está um elemento (pedofilia) ao qual ninguém quer estar associado. E a provar este facto estão retalhistas de vários países que se recusam a vender o filme.

A notoriedade vende? É discutível. Provavelmente a resposta é afirmativa se a notoriedade não for contra a distribuição e a comercialização do filme. Salvaguardado este ponto de vista, será sempre melhor um filme notório do que um banal. No entanto, é preciso sempre uma grande dose de cuidado para nunca se cair na infâmia – caso contrário o projecto pode vir a encontrar sérios obstáculos no seu caminho até o público.

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2 Respostas to “Notoriedade versus infâmia: notas soltas.”

  1. Nuno Reis Says:

    O Centipede tem ambições de ser vendido para diversos países por isso imagino que não esteja a ser muito cortado. Quanto à polémica em torno do Serbian Film foi fenómeno passageiro (o Angel Sala ainda está enrolado no processo e deve discordar), mas excepto esse cenário que referiste de ser usado em circuitos marginais como ponografia, depressa passará a polémica e dentro de poucos anos teremos a versão integral à venda. Até porque já a vi duas vezes sem problemas.

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