Anatomia de uma cena (I): “Um Lobisomem Americano em Londres”.

Esta é uma das cenas mais eficazes alguma vez já produzidas num filme de terror. Trata-se da cena do ataque no metro de Londres no clássico de John Landis AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON (1981), onde um incauto passageiro do metro é caçado e morto pela personagem referida no título.

A magia desta cena tem a ver com dois elementos essenciais: a simplicidade/fluidez  da planificação e o espaço labiríntico da estação do metro. Juntos, estes dois elementos imprimem uma pressão sobre a personagem, fazendo com que o espectador se esqueça completamente do facto da cena quase não mostrar o lobisomem. Isto faz desta cena uma lição em economia na medida em que a cena é tão excelente que nem damos por falta do elemento mais caro de todos: o monstro.

A transição para cena é feita através de um plano apertado no lobisomem que, segundo nos é dado a entender, ataca um grupo de mendigos que passa a noite num ferro-velho.

SEGUNDO MENDIGO: "Mary, mother of God!"

Numa noite repleta de ataques, John Landis opta por não perder tempo com esta cena, preferindo concentrar o espectáculo na cena do metro. A cena dos mendigos é terminada assim que as três personagens se apercebem da presença do monstro. A passagem para a cena seguinte é feita em dois planos.

O primeiro mostra o lobisomem a atacar.

O segundo plano estabelece uma ligação SONORA entre o som do lobisomem a atacar e o som do comboio: duas enormes bestas.

PLANO 1 – Establishing shot.

Passamos para o primeiro plano da cena que visa introduzir o espaço: uma estação do metro.

PLANO 2 – Apresentação da vítima.

Passamos para um plano das portas de uma das carruagens que se abre. Vemos um homem que sai…

…E que caminha até uma máquina. A câmara acompanha-o com uma panorâmica para a esquerda.

O homem introduz moedas na máquina.

PLANO 3 – O metro segue viagem.

A câmara salta para o outro lado com o objectivo de mostrar que o comboio está a seguir viagem, deixando o homem inteiramente sozinho na gare vazia. O ambiente ameaçador está a compor-se e cada plano soma uma nova informação: agora sabemos que o homem está sozinho.

PLANO 4 – Retomamos o eixo inicial.

Este retorno ao eixo inicial soma uma nova informação: o homem ouve o ecoar de um PRIMEIRO uivo e pára antes de seguir caminho. Fica clara agora a comparação entre o lobisomem e o comboio: o homem ouve o primeiro uivo e não sabe exactamente que som é aquele.

PLANO 5 – Um plano e uma nova informação.

Agora é a própria personagem que percebe que está sozinha.

PLANO 6 – A personagem e mais uma informação.

Voltamos ao homem que, ao perceber que está sozinho, ouve um SEGUNDO uivo. A ideia de que aquele ruído não foi um comboio começa a surgir.

O homem decide falar.

HOMEM: "Hello. Is someone there?"

Ao não obter resposta, decide ir-se embora.

Surge um TERCEIRO uivo e a mensagem clara de que aquilo NÃO é um comboio.

HOMEM: "I can assure you this is not in the least bit amusing".

PLANO 7 – Um plano subjectivo.

A percepção de uma gare vazia torna-se agora num motivo de preocupação: ele não está realmente sozinho.

VOZ DO HOMEM: "I shall report this".

PLANO 8 – O homem segue caminho.

PLANO 9 – O homem abandona o espaço.

A gare permanece vazia.

PLANO 10 – A percepção do perigo persegue-o.

Começa aqui um plano que segue a personagem que está visivelmente preocupada.

PLANO 11 – Nova informação.

Ao chegar a um corredor…

…o homem ouve um QUARTO uivo.

O homem pára, assustado. Ele agora percebe que está a ser perseguido. (Nota: o grande sentido de humor de John Landis é visível no anúncio de um espectáculo porno neste plano cheio de tensão.)

PLANO 12 – POV do lobisomem.

But it’s too late! O lobisomem encontra o homem.

PLANO 13 – Choque.

Assustado, o homem foge.

HOMEM: "Good Lord!"

PLANO 14 – Começa a perseguição.

Regressamos ao ponto de vista do monstro que caça o homem.

PLANO 15 – Reverse shot

O homem continua a sua fuga na tentativa de deixar para trás o lobisomem que o persegue.

PLANO 16 – O monstro aproxima-se.

PLANO 17 – O desespero agora é total.

A fuga começa a ficar atabalhoada.

O homem está a ficar cansado.

As saídas que encontra estão fechadas. Ele escorrega.

É óbvio que este animal urbano não está equipado para escapar. Sua tentativa de saltar sobre a grade é desajeitada.

Ele cai. Ao levantar-se, deixa pistas pelo caminho.

PLANO 18 – Fim da linha.

A incapacidade do homem face ao lobisomem em todo o seu esplendor: papéis, canetas… tudo espalhado.

PLANO 19 – A espera.

Após tanta fluidez da câmara a acompanhar a fuga da personagem, estes dois planos fixos mostram um homem que já não consegue escapar.

Toda a montagem até agora levava até ao limite do possível os planos SEM o monstro – rapidamente mudando para um novo plano (também ele, sem monstro, também levado ao limite).

Mas agora a câmara pára e o plano espera.

O plano simplesmente deixa-se ficar. O corte não chega.

A montagem deixa o plano esgotar o limite de tempo sem mostro. E finalmente… o lobisomem aparece!

Lá no fundo.

PLANO 20 – POV do lobisomem a aproximar-se.

A cena termina exactamente da forma como começou: com um corte brusco para a cena seguinte. No entanto, ao invés de outra imagem do lobisomem a atacar, veremos um leão – uma ideia excelente na medida em que o plano de corte também serve para introduzir o sítio onde terá a lugar a cena seguinte: um jardim zoológico.

Como se pode ver, nesta cena de AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON, cada plano soma novas informações com enorme precisão. Quer do ponto de vista visual, quer do ponto de vista sonoro, a progressão é exemplar.

🙂

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