O que faz um grande filme de terror?

A questão é simples e ao mesmo tempo complexa na medida em toca naquele elemento mais escorregadio de todos: a QUALIDADE. Tal como é verdade em relação a tudo (e o cinema não é excepção), a qualidade parece ser sempre uma questão de PERCEPÇÃO. Podemos discutir horas e horas acerca dos méritos de um filme – e discordar. Isto acontece porque há sempre algo de profundamente pessoal na forma como julgamos as coisas e os filmes; e que tem a ver (entre muitas coisas) com aquilo que já gostamos de ver, com o que esperamos que o filme nos dê, com a confirmação (ou frustração) destas expectativas, com aquilo que estamos dispostos a pagar e com as opções que possuímos de alternativas ao filme em causa.

Billy Wilder disse: “an audience is never wrong. An individual member of it may be an imbecile, but a thousand imbeciles together in the dark – that is critical genius”. Reparem que Billy Wilder identifica duas coisas: a possível imbecilidade de todos os espectadores e o valor concreto que a resposta de todos eles possui. É claro que o Sr. Wilder estava a generalizar na medida em que ter um público inteiramente composto por imbecis é tão implausível quanto ter um público inteiramente composto por pessoas brilhantes. No entanto, a mensagem é clara: é o público quem tem a palavra final acerca da qualidade de um filme. E mais importante: é o público quem eterniza um filme (transformando-o num clássico inesquecível) ou remete-o para o esquecimento eterno e o eventual desaparecimento.

Sendo o público esta entidade orgânica (seguindo a ideia de Billy Wilder), este mesmo público também pode mudar de ideias. Aliás, todos nós conhecemos filmes (são menos comuns, porém existem) que fracassaram na altura dos respectivos lançamentos mas que logo na década seguinte vieram a reconquistar milhares (ou milhões) de espectadores. THE THING (1982) é um destes exemplos. Estreou duas semanas após o E.T.: THE EXTRA-TERRESTRIAL (1982) e sofreu terrivelmente pelo facto dos espectadores (imbecis? – LOL!) estarem tão fascinados com o alien amoroso, sábio e pacífico de Steven Spielberg que a proposta do John Carpenter pareceu-lhes ofensivamente má.

Ora, nenhum dos filmes possuía qualquer problema. A questão era que a proposta do Sr. Spielberg foi percepcionada como sendo tão brilhante, inovadora e bem conseguida que uma outra proposta que (em termos criativos) parecia totalmente contrária foi percepcionada como tendo uma qualidade também contrária (ou melhor dita, uma falta de qualidade). Em ambos os casos, o tempo encarregou-se de pôr cada obra no seu devido lugar, fazendo desta forma, com que o público reavaliasse as qualidades de ambas e a sua posição face às mesmas. Bem vistas as coisas, a Natureza irá decompor e destruir todos os filmes, pondo-os a todos em total pé de igualdade. No entanto, algumas obras estão melhor posicionadas para sobreviver ao tempo, graças ao carinho do público que reconhece nelas (e não noutras) qualidade.

Mas há algo que o Sr. Wilder não disse directamente: o público também é sempre sincero. Ou gosta ou não; ou compreende ou não (com todos os pontos intermédios possíveis). Dentro de vinte anos, poderão mudar de ideias. Mas isto é só dentro de vinte anos.

Qualidade e importância também são duas coisas distintas. Se a (percepcionada🙂 ) qualidade de um filme parece torná-lo imediatamente importante, a importância em si também pode ser encontrada em obras que não tenham necessariamente qualidade. É aqui que entra, por exemplo, a reflexão sobre o cinema no seu todo ou sob um ponto de vista específico: histórico ou geográfico (ou outro). Há certamente uma grande quantidade de cinema sem grande qualidade. No entanto, outros elementos que não a qualidade marcam a importância destas obras – daí a necessidade de, por exemplo, preservá-las.

Mas voltando ao tema principal,🙂 há dias estivemos num fórum norte-americano a discutir com internautas aquilo que eles valorizavam num bom filme de terror. As respostas foram muito variadas e alguns elementos identificados mereceram a nossa atenção. Alguns, por vezes, estão tão relacionados entre si que parecem confundir-se. Outros são completamente inesperados. Nenhum elemento recolheu a unanimidade, demonstrando desta forma a diversidade de gostos, preocupações e percepções.

1 – Originalidade.

Algumas pessoas falaram na questão da originalidade – aquela ideia de que existem conceitos e premissas que parecem novas, pouco comuns, diferentes ou simplesmente difíceis de encontrar noutros filmes. Não parece haver uma unanimidade face àquilo que se considera original, mostrando, num certo sentido, que não é possível extrair originalidade a partir de uma fórmula. A originalidade parece ser uma daquelas coisas que dependem realmente do génio ou do talento pessoal dos criadores do projecto. Esta originalidade pode não estar no projecto inteiro e pode ser gerida. Ou seja: pode-se partir do banal e progredir para algo original – o que nos leva a concluir que existem muitas formas de ser-se original. O desafio é sempre criativo.

2 – Atmosfera.

A maioria esmagadora das pessoas que mencionou este elemento teve dificuldades em defini-lo. No entanto, toda a gente parece ser capaz de resumi-lo e qualificá-lo quando vamos buscar exemplos: tensa, elegante, opressiva, ruidosa, seca, suja, enganadora, etc. Parece sempre haver uma atmosfera específica num dado filme (ou não?). A dificuldade em definir o que é a atmosfera tem a ver com o facto de para ela contribuírem todos os elementos do filme (imagem, som, direcção de arte, montagem, etc.). Neste sentido, toda a gente parece concordar em duas coisas: a atmosfera é uma construção (raramente obra do acaso) e funciona bem sobretudo quando imprime ao filme algo de único e original.

3 – Suspense, imprevisibilidade e antecipação.

A maioria das pessoas não compreende bem a natureza do suspense. Para muitas, o suspense é simplesmente definido como “we don’t know what’s gonna happen”, quando na verdade, este sentimento tem mais a ver o carácter não-previsível de uma determinada cena, sequência ou história. No entanto, a imprevisibilidade é também parte do suspense. Algumas pessoas, no entanto, sabem a diferença e introduzem um novo elemento: a antecipação. No suspense, sabemos que algo pode ou irá acontecer (porque sabemos mais do que o protagonista). Vemos as condições a formarem-se. No entanto, não conseguimos prever quando irá acontecer e passamos por minutos intermináveis de antecipação frustrada até o momento em que acontece – não exactamente onde esperávamos🙂 . Tal como a atmosfera, o suspense também é algo que se constrói. E dá muito trabalho. Quando funciona, é igual a ouro.

4 – Uma boa história.

O que é uma boa história? Também ninguém parece saber definir. No entanto, este é um dos elementos mais citados. O problema é que uma boa história para uns pode não a ser para outros. Voltamos ao problema da percepção. No entanto, a tentativa de definição parece nos levar sempre para esta conclusão: uma boa história é a verificação de um conjunto de elementos que (juntos) criam valor: personagens, originalidade, atmosfera, suspense, etc. Aqui, a Arte parece copiar a Economia (juntar os elementos certos significa obter um valor superior à simples soma).

5 – Empatia.

Ninguém usou esta palavra. No entanto, várias pessoas tocaram o seu significado: “you care about the character” ou “you feel that same thing could happen to you” ou ainda “you feel you would go nuts if you were in his place”. A empatia é um processo de identificação entre espectador e protagonista onde o primeiro sente-se ligado ao segundo. Neste sentido, deixa de ser-nos irrelevante aquilo que acontece às personagens. Uma vez envolvidos, tornamos nosso o drama deles. Há várias formas de gerar este sentimento na medida em que ele é também uma construção. No fundo, a ideia parece ser simples: desenvolve as tuas personagens como tu gostarias de ser desenvolvido.🙂

6 – Gore realístico.

Nem toda a gente aprecia o gore. Aliás, este parece ser o elemento mais controverso. Quem curte, adora! Quem acha-o desnecessário, lamenta o valor que alguns filmes lhe atribuem. ROSEMARY’S BABY (1968) e THE HAUNTING (1963) são dos poucos filmes de terror onde o grau de gore é quase nulo, sendo frequentemente citados como exemplos de que não são necessários baldes de gore para conseguir-se um grande filme de terror. E quando alguém diz “mas estes filmes são muito antigos”, podemos sempre ir buscar outros: THE OTHERS (2001), THE ORPHANAGE (2007) ou ainda THE SILENCE OF THE LAMBS (1991). Algumas pessoas defendem o gore, como sendo um elemento potencialmente espectacular. É verdade. No entanto, tudo é uma questão de necessidade: se sentimos a necessidade dele, então convém que o mesmo contribua de facto para o valor do projecto. Mas neste elemento (risos) volta-se sempre à questão da percepção pessoal de cada um. Dammit!🙂 O realismo também é outro factor importante: não basta ser gore. Temos que acreditar nele.

7 – Coisas que podiam mesmo acontecer.

Este elemento mistura vários conceitos. Algumas pessoas valorizam filmes onde o horror parece ser muito possível (ligação clara com a realidade). Isto equivale a um improvável que é tornado possível. HOSTEL (2005) e THE LAST HOUSE ON THE LEFT (1972 e 2009) são bons exemplos. É improvável que aconteça… mas não é de todo impossível (basta a vontade de alguém ou uma ajuda do acaso). Outras pessoas valorizam o posto: o impossível tornado plausível. CHRISTINE (1983), POLTERGEIST (1982), CHILD’S PLAY (1988) e ainda FRIGHT NIGHT (1985 e 2011). Esta distinção tem a ver com dois ramos distintos (dentro do género) no que diz respeito à natureza da ameaça: natural ou sobrenatural. No entanto, o espectro é rico o suficiente para nos permitir estar em ambos os lados: THE SHINING (1980) e mais recentemente MARTYRS (2008) são bons exemplos. Já ALIEN (1979) vai mais além: ainda não é possível. Talvez, um dia🙂 . O que é importante reter é que há inúmeras formas de combinar o possível, o impossível, o improvável e o plausível. A questão principal parece ser: “funciona?”. Aqui, a eficácia vale mais do que a eficiência.

8 – Bons actores.

Pouca gente referiu este elemento – mostrando que num certo sentido, os espectadores do género põem outras coisas mais alto, nas suas listas. Isto é estranho na medida em que a empatia parece ser um elemento popular. Será possível haver uma relação empática apesar de maus actores? Provavelmente a experiência não seria a mesma se puséssemos a Lindsay Lohan no lugar da Sigourney Weaver em ALIENS (1986). Pusemos a questão e todos concordaram. A questão é que alguns grandes filmes de terror oferecem coisas que parecem minimizar outros problemas (nos actores, por exemplo). No entanto, esta teoria não está provada. Em tempos, ouvimos alguém dizer que o terror é, de todos, o género que perdoa mais facilmente. Faz muito sentido (ver o elemento seguinte).

9 – The “fun” element.

Este elemento várias vezes citado parece trazer alguma luz à questão anterior. Ele ajuda-nos a explicar filmes como STARSHIP TROOPERS (1997), BRAINDEAD (1992), THE TOXIC AVENGER (1984) e as inúmeras sequelas do FRIDAY THE 13TH (1980), do HALLOWEEN (1978), do FINAL DESTINANTION (2000) e do SAW (2004). Os actores bem podem ser péssimos; a história bem pode ser repetitiva, mas nada parece impedir os espectadores de retirar destes filmes quantidades industriais de “fun”. E ainda bem!🙂 Mas não nos enganemos: este elemento não é apenas desculpa para maus filmes. Pelo contrário, as grandes obras do género, todas, partilham este elemento. Por alguma razão será.🙂

10 – Criaturas assustadoras.

Este foi outro elemento que dividiu as opiniões. Nem toda a gente sente a falta de criaturas assustadoras. No entanto, quase toda a gente valoriza uma ameaça de grandes proporções. As criaturas podem ser horríveis, mas tal não garante que elas sejam eficazes. Já o Norman Bates está longe de ser assustador (e resulta lindamente) – o que nos chama a atenção para o facto de que um grande Mal muitas vezes esconde-se por detrás de uma cara simpática. Outro traço significativo no género é o perigo desmesurado da ameaça e a (por vezes) total impossibilidade de qualquer resolução satisfatória. Veja-se os zombies: são assustadores, mortais, estão sempre em grande número e parecem ser impossíveis de erradicar. Por outras palavras, “we’re f*cked!” O interessante é que continuamos a gostar disto!🙂

11 – Visão.

Algumas pessoas mencionaram este termo estranho, normalmente identificado com o valor que um bom realizador traz para um projecto. Esta visão pode assumir muitas formas concretas no interior de um filme – e os grandes realizadores conseguem torná-la clara utilizando inúmeras ferramentas. No entanto, parece haver algo de comum nestes filmes: eles são objectos inconfundíveis, únicos e acabam por influenciar inúmeros outros filmes. A visão acaba por ser aquele elemento distinto que um determinado realizador traz para a mesa – fazendo com que Sam Raimi e George A. Romero sejam tão diferentes entre si. E esta visão reflecte-se na forma como estes realizadores tratam as personagens, na gestão que fazem do ritmo, na sua relação com a violência… ou nos próprios monstros que criam (aqui, David Cronemberg e John Carpenter são bem diferentes). O interessante é que muitos realizadores, produtores e visionários, ao longo dos anos, têm dado ao género inúmeras vias possíveis que acabam sempre por ir desbravando novos territórios.

12 – Violência.

Nem toda a gente gosta da violência. No entanto, este elemento parece estar na cabeça da esmagadora maioria dos amantes do género. Mas a violência NUNCA deve ser confundida com o gore. REPULSION (1965) e DEAD CALM (1989) são dois filmes violentos, mas sem grandes doses de gore. Sometimes, it’s all in the head🙂 . BLUE VELVET (1986) e BLOOD SIMPLE (1984) gerem muito bem a relação entre violência e gore (ao ponto de parecerem ter mais gore do que realmente têm). Mas é preciso admitir: este é um género violento. E quem não aguenta a violência (mesmo sem gore) deve procurar outro género.🙂

13 – Things that make you jump.

Aaaahhhh… os sustos. Não são um elemento necessário. Mas são muito comuns e costumam ser uma das partes quase essenciais do “fun”. Mas toda a gente parece concordar que apenas os sustos não chegam para um grande filme. Mas temos que ser honestos:  por vezes, basta um susto bem dado para pôr um filme na História. Exemplo? CARRIE (1976).

14 – Hot girls/guys.

Isto explica também o facto do género ser tão popular entre os jovens. Para além disto há imensa literatura acerca da relação privilegiada entre o sexo e o cinema de terror. Oh, yeah!😛

15 – Blood covered beauty.

Algumas pessoas levantaram a questão de que alguns filmes parecem atingir um certo grau de beleza mesmo no meio do grotesco mais extremo. Parece paradoxal. No entanto, este a é uma característica relativamente comum na Arte Moderna. A beleza não é necessariamente bela. No lado negro da força também encontramos poesia. Talvez a palavra mais acertada seja “afectação”, na medida em que um género subversivo como é o horror afecta muitos espectadores em modos e qualidades distintos. Mas se existe alguma beleza em Edgar Allan Poe (há imensa!), então certamente que ela também é possível no Leatherface, no Pinhead e no Alien. Cá está novamente a questão da percepção. A beleza está mesmo nos olhos de quem a vê – e ainda bem!

Não existe uma fórmula para um grande filme de terror. Aquilo que existe é a sensibilidade, o gosto e a capacidade dos realizadores e produtores em criar pontes para/com o público. Estas pontes comunicam coisas, ligam pessoas, permitindo desta forma o encontro feliz das percepções.🙂 E é isto que são os bons filmes de terror: grandes pontes entre a Arte e o público. Suspeitamos que dentro de trezentos anos, quem quiser estudar o nosso tempo irá certamente olhar para o nosso cinema de terror.

Etiquetas: , , ,

4 Respostas to “O que faz um grande filme de terror?”

  1. filipe melo Says:

    yes!!!

  2. alucardcorner Says:

    Muito bom!😀

    Realmente um bom filme, seja ele terror ou de outro género tem ai elementos que são essências, mas no final um bom filme depende da opinião de cada um de nos..

  3. Micael Espinha Says:

    Porreiro este vosso post.
    Eu acrescentaria estas palavras do Robert Mckee, que fala sobre “destinos piores do que a morte” nas histórias de terror:

    Também H. P Lovecraft procurou identificar os principais elementos que constituem uma boa história de terror. O medo do desconhecido aparece em destaque:

    http://www.amazon.com/The-Annotated-Supernatural-Horror-Literature/dp/0967321506

    • Bad Behavior Says:

      Absolutamente verdade, Mic!
      A relação do ser humano com o desconhecido tem sido a mais fecunda de todas ao longo destes milhares de anos da nossa existência. É fascinante imaginar que (por um mero exemplo) coisas como a Ciência e a Religião nascem justamente desta nossa relação nunca-resolvida (LOL!). Esta relação complexa é mais um elemento que nos separa das outras criaturas. O McKee está coberto de razão quanto aos destinos piores que a morte. Caramba, É O McKEE QUEM FALA!! LOL! – mas faz todo o sentido na medida em que o verdadeiro Mal é aquele que consegue ir mais além daquilo que o protagonista imaginou… pior do que a morte.🙂

      O livro do Lovecraft é uma excelente sugestão que iremos partilhar no nosso Facebook dentro de alguns minutos…🙂

      Muito obrigado!!!🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: