Archive for April, 2012

Estratégias de relacionamento e interacção, parte I.

April 19, 2012

Relacionamento e interacção com o público parecem ser duas das palavras mais importantes do Marketing nesta década. O cinema, no interior das Indústrias Criativas, tem sido palco privilegiado de inúmeras experiências na matéria. Algumas com imenso sucesso. Outras nem por isso. Mas seja qual for o caso, alguns géneros parecem estar mais bem posicionados do que outros na utilização destas estratégias. Filmes de terror, thrillers e ficção científica estão no centro disto tudo, e PARANORMAL ACTIVITY (2007) de Oren Peli é apenas um exemplo sonante que dispensa apresentações.

Mas ir buscar exemplos como PARANORMAL ACTIVITY, CLOVERFIELD (2008) ou o THE BLAIR WITCH PROJECT (1999) seria desinteressante na medida em que já muito foi escrito sobre estes filmes. O mais interessante é ver como outros filmes mais recentes procuram criar as suas próprias estratégias – isto num contexto onde parece haver ainda imenso espaço para a inovação e experimentação.

Nesta óptica, o post de hoje irá falar sobre um filme novo que ainda não estreou, mas que já começa a dar os seus primeiros passos neste maravilhoso mundo do marketing contemporâneo de cinema. O filme chama-se SOUND OF MY VOICE (2012) de Zal Batmanglij e apenas irá estrear na América no dia 27 de Abril – distribuição da Fox Searchlight (o braço da 20th Century Fox dedicado ao cinema independente). No entanto, quem quiser dar um salto ao website do filme (www.soundofmyvoicemovie.com) verá algo de muito interessante.

O site disponibiliza os primeiros 12 minutos do filme para quem quiser ver – estratégia que não é nova. No entanto, faz acompanhar a sessão de um conjunto interessante de paratextos que complementam a experiência e visam criar a envolvência e a interactividade típicas de um grande universo narrativo. A estratégia, neste exemplo concreto, não é necessariamente um sucesso (embora ainda seja muito cedo para avaliar resultados) e algumas opções parecem questionáveis. Mas a ideia é, em muitos casos, exactamente esta: lançar perguntas ao espectador – e não responder.

Uma vez no site, o filme começa logo.

A imagem passa a ocupar o ecrã inteiro a seguir ao logo da Fox Searchlight.

E se nos deslocarmos ao fundo da página, veremos uma barra de tempo (cor-de-rosa) onde podemos ver vários pontos a marcar o percurso.

Ao chegarmos ao primeiro ponto, surge sobre a imagem um botão.

Ao pressionarmos o botão, abrimos um novo menu…

…Que nos oferece duas opções: a) “Educate yourself” ou b) “Lets discuss”.

A primeira opção abre uma nova página, remetendo-nos para o Youtube onde somos convidados a ver um excerto de um filme obscuro de 1972 com uma história curiosa que envolve um fanático, o Cometa Halley, o fim do mundo e Jimi Hendrix. O ponto de ligação entre o filme e o paratexto é específico. Neste caso, tem a ver com o banho (ou o processo de limpeza corporal) pelo qual as personagens têm que passar antes de prosseguir.

A ideia por detrás desta ligação parece ser a chamada de atenção para os rituais de iniciação que veremos filme e a adequação destes àquilo que se passa na realidade.

Aqui fomos remetidos para um outro filme pré-existente. Podemos em qualquer altura regressar ao filme principal e prosseguir até o segundo ponto, onde o botão volta a aparecer no momento em que as personagens submetem-se a ter as mãos presas com uma cinta plástica.

Ao escolhermos novamente a opção “Educate yourself”, somos novamente remetidos para um vídeo do Youtube onde alguém nos ensina a partir uma cinta plástica igual àquela que vimos no filme. Pergunta: será que no filme as personagens terão de se libertar de uma cinta semelhante? A semente está plantada. 🙂

Os paratextos até agora têm sido independentes do filme e postados (no Youtube) originariamente por pessoas que nada têm a ver com ele. Este segundo vídeo, por exemplo data de 2009.

A próxima paragem é mais estranha. As personagens chegam ao destino e a câmara mostra muito rapidamente uma prateleira com garrafas de água mineral.

Somos remetidos para o website da água mineral Mountain Valley.

Como esta é uma marca distribuída apenas na América, pensámos tratar-se de uma marca ficcional. No entanto, o produto existe mesmo. Será product placement ou a marca possui mesmo alguma função na narrativa?

A próxima paragem será diferente das demais porque já parece ter sido produzida no âmbito do filme. A cena em causa mostra um aperto de mãos secreto com vários passos específicos. Somos remetidos para uma página da net onde existem fotos e vídeos de pessoas que partilham o mesmo aperto de mãos.

As paragens seguintes irão remeter para mais conteúdos feitos a propósito do filme.

Num deles, voltamos ao Youtube onde uma mulher faz uma peregrinação até o local sagrado citado no filme.

Este vídeo foi postado por um utilizador que se chama 4twentyseven2012. Ora (risos), esta é a data de estreia do filme: 27/04/2012. Este utilizador possui ainda um segundo vídeo que aparecerá noutro ponto de paragem:

“Your Future Is Now” é um vídeo de depoimentos acerca do culto mostrado no filme. Nele, os seguidores falam sobre as suas experiências.

Outros pontos parecem ainda mais enigmáticos: a página da Wikipedia sobre uma data mencionada, a localização de um sítio que aparentemente tem a ver com o culto (que parece funcionar no mesmo sítio de um centro cultural ucraniano) e um outro website que chama a atenção para uma simbologia relevante para a história (que recorre a fotografias que – não se sabe ao certo – podem ou não ter sido alteradas).

Os doze minutos de filme terminam com uma revelação acerca da personagem.

A experiência destes doze minutos de filme está bastante cuidada, com os botões e com toda a estratégia de paragens. No entanto, a real pertinência de quase metade destes paratextos nos parece questionável na medida em que pouco oferecem ao espectador – ou se oferecem, é algo que não nos é claro. Qual a relevância de sermos remetidos para o website de uma marca de água mineral? Qual a relevância de sermos remetidos para a página da Wikipedia com a data de nascimento da personagem? Pode ser que o filme (ou a história) venha a desenvolver melhor cada uma destas questões. No entanto, o problema está aqui: sem que saibamos o que está por detrás de algumas destas paragens, a relevância parece desaparecer e parte de uma experiência que devia ser fascinante e estimulante não o é.

Prova disto é a pouca envolvência dos espectadores nas discussões (os “Let’s discuss”) que surgem como alternativa aos “Educate yourself”. As pessoas que escrevem são em pequeno número e não dizem nada de relevante. Algumas até mostram uma reacção negativa ao pensarem que o remeter para o website da água mineral é uma publicidade paga.

A internet é um laboratório fascinante para o marketing cinematográfico e o cinema independente (este filme não é um bom exemplo por ser distribuído por uma major) está bem posicionado para tirar o melhor partido das oportunidades. No entanto, se estratégias bem concebidas podem ser relativamente acessíveis em termos de custo, elas podem ser bastante difíceis de conceber e a sua articulação pode ser complexa. Não basta criar os pontos de interacção. Eles necessitam de ser relevantes. Não basta remeter para uma página qualquer. Ela necessita de fazer sentido (agora e não apenas depois de vermos o filme). Não basta existir. É fundamental envolver e fascinar.

SOUND OF MY VOICE, que ainda não estreou, é um exemplo muito interessante destas tentativas e experiências. Estaremos atentos ao percurso desta estratégia para ver que efeitos ela terá na vida do filme.

Há sempre lições a aprender. 🙂

Dez curtas-metragens de terror para uma Sexta-feira 13.

April 13, 2012

Para esta Sexta-feira 13, seleccionámos dez curtas-metragens.

1 – DE GENFØDTE (2010, Dinamarca) de Henrik Bjerregaard Clausen.

2 – BAK LIKKEDE DØRER (2008, Noruega) de Aleksander Nordaas.

3 – 2 GODE TORBEDOER (2010, Noruega) de Thomas Lunde

4 – HUNTED (2011, Austrália) de Clifton Schulke.

5 – CUPCAKE (2010, Estados Unidos) de Kai Blackwood.

6 – CAN I CALL YOU? (2006, Austrália) de Ed Lyons.

7 – LOVE HURTS (2009, Holanda) de Shariff Nasr.

8 – RED BALLOON (2010, Reino Unido) de Damien Macé e Alexis Wajsbrot.

9 – ENDLESS (2011, Reino Unido) de Matt Bloom

10 – THE DUMMY (1983, Estados Unidos) de Louis La Volpe.

Anatomia de um trailer – parte II.

April 11, 2012

Na semana passada, escrevemos sobre o teaser e o trailer do filme RED EYE (2005) de Wes Craven. O post de hoje será sobre uma realidade totalmente diferente.

Por vezes, a enorme visibilidade (ou notoriedade) de alguns projectos torna necessária a produção de um teaser que prepare os espectadores, lançando o projecto nas suas mentes e preparando o terreno para uma campanha promocional maior. Trata-se de uma forma de gerir a estratégia de comunicação do projecto, onde o distribuidor tenta construir uma decisão por parte do público. Isto significa que para alguns projectos, é necessária a existência de um teaser muito antes do filme sequer estar pronto (ou mesmo filmado) – trazendo um desafio: como fazer um teaser para um filme que ainda não existe?

Há dois exemplos muito interessantes que merecem ser estudados. Um deles vem de Hollywood, onde o marketing de cinema costuma estar sempre cem anos a frente de tudo (risos). O outro é um filme europeu, distribuído por uma major norte-americana. Ambos possuem duas coisas em comum: uma grande ideia e um custo assustadoramente baixo se analisarmos os elementos que os constituem.

Exemplo 1 – RESIDENT EVIL 2: APOCALYPSE (2004).

Este teaser comete a proeza de não conter uma única imagem do filme que promove. Pelo contrário, aquilo que vemos é um pseudo anúncio publicitário a um cosmético que se chama “Regenerate”. E para isto, as únicas coisas necessárias são uma actriz, duas ou três peças de mobiliário, um cão, três ou quatro animações digitais, alguns efeitos sobre a actriz, uma música genérica, uma voz… e umas flashadas de imagens do primeiro filme. (Risos)

Se estivesse mal feito, este teaser seria ofensivo. No entanto, está tudo impecavelmente bem feito ao ponto do espectador médio achar tudo isto muito mais caro do que verdadeiramente parece. Deste o lançamento deste teaser, a série RESIDENT EVIL tem apostado sistematicamente nesta estratégia de teasers que parecem promover produtos de consumo. Aliás, o último teaser da série faz exactamente o mesmo ao promover produtos Sony (que por acaso é a distribuidora do filme).

É claro que nada disto é propriamente novo. No entanto, resulta bem. 🙂 Este teaser do mais recente RESIDENT EVIL é assombrosamente simples: quatro pessoas a repetir a mesma frase sobre um blue screen. Duh! 🙂

Exemplo 2 – THE STEPFORD WIVES (2004)

Este teaser é muito semelhante ao anterior. A estratégia é falar sobre outra coisa e deixar o filme para o fim. Temos assim um conjunto de imagens de objectos de luxo lindamente bem filmados e uniformizados (sob o mesmo fundo negro), com voz e música. O objectivo é introduzir discretamente o universo (um mundo de luxo e exclusividade) e a premissa (“isn’t it time to have the ultimate in perfection?”). O fecho é em tudo semelhante ao RESIDENT EVIL: RETRIBUTION (2012): no fim podermos ver a estrela (caracterizada) a dizer duas frases.

Novamente estamos diante de um teaser que é tão simples que, se fosse mal feito, seria desastroso. Estes teasers mostram as possíveis articulações entre:

a) O material que está fora do filme (as imagens de artigos de luxo no teaser de THE STEPFORD WIVES),

b) O material retirado do filme (as várias imagens directamente retiradas dos filmes anteriores da série ou do filme presente),

c) O material produzido em específico para o teaser sem a envolvência da rodagem (as imagens finais da Nicole Kidman).

d) O material produzido em específico para o teaser com a envolvência da rodagem (as imagens de Alice no meio do caos).

e) O material passível de ser inserido no filme (o anúncio do cosmético Regenerate cujas imagens serão usadas no filme).

Como é lógico, a articulação entre estes cinco elementos depende da relação entre a altura em que o teaser deverá ser lançado e o estado da produção. No entanto, também é óbvio que todas estas decisões já foram pensadas e planeadas muito cedo.

A simplicidade destas estratégias não é nova. Se quisermos recuar no tempo, podemos encontrar o trailer de um filme do mestre Roman Polanski ainda mais simples! Estava-se nos anos 70 e o formato teaser ainda não existia oficialmente. Os trailers não possuíam a estandardização de hoje e muitos deles, se fossem feitos agora, seriam formalmente classificados como teaser (pela duração e pelo conteúdo). O exemplo abaixo é de um grande filme europeu: THE TENANT (1976).

Mostrem-nos os teasers de que gostam mais. 🙂

A Bad Behavior deseja a todos uma excelente Páscoa!

April 8, 2012

Este bem poderia ser um daqueles coelhinhos bem fofinhos que as crianças tanto adoram.

Mas este é ligeiramente diferente. 🙂

Anatomia de um trailer – parte I.

April 2, 2012

Trailer, poster e título costumam ser os primeiros elementos de contacto entre um filme e o público – daí a extrema importância que as grandes cinematografias dão a estes objectos que em muitos casos estão no centro da estratégia de comunicação de uma obra. Não que um bom filme não possa atingir o sucesso com um mau poster, um mau trailer ou um mau título. Pode. Mas fica muito mais difícil. Os bons distribuidores sabem bem disto e dedicam muito tempo e energia na concepção e na discussão acerca destes objectos. Isto acontece porque produzir um trailer de dois minutos que comunique o necessário e o suficiente (sobre um filme 50 vezes maior) e que cumpra com todos os objectivos propostos requer a precisão de um laser.

O teaser e o trailer de RED EYE (2005) de Wes Craven são os exemplos que escolhemos para este post – não por serem perfeitos, mas sim porque são bastante precisos naquilo que desejam comunicar. O trailer possui dois minutos e 20 segundos enquanto o teaser fica-se por um minuto e 40 segundos (sensivelmente os standards norte-americanos para teasers e trailers).

O interessante aqui é que quase um minuto do trailer é gasto, propositadamente, a construir um filme diferente do verdadeiro. Ao longo deste minuto, aquilo que o trailer prepara é uma comédia romântica de dois estranhos (duas estrelas bastante magnéticas: Rachel McAdams e Cillian Murphy) que se conhecem por acaso num conjunto de coincidências fortuitas, destinadas ao romance. São sorrisos e mais sorrisos e mais sorrisos e mais sorrisos… 😛

Primeiro, introduz-se a protagonista que deseja alguma coisa: apanhar um voo.

Note-se que o trailer utiliza texto para tornar claras quatro informações essenciais: 1) de onde ela vem (“a rough day”), 2) para onde ela deseja ir (Miami), 3) o que ela deve fazer para conseguir lá chegar (apanhar o “Red Eye”) e 4) o voo está atrasado. Nem todos os trailers utilizam texto. No entanto, uma parte significativa deles o faz na medida em que este recurso permite-nos avançar rapidamente com informações que, de outra forma, poderiam necessitar de mais tempo para serem construídas. O interessante aqui é que, neste início, o texto “fora do filme” (títulos) articula-se com o texto “dentro do filme” (ecrã de informações). Hmm… inteligente!

Uma vez estabelecido este ponto de partida, passamos para a construção da comédia romântica. A informação que nos foi dada será reforçada através do diálogo, onde a protagonista volta a explicar que está a apanhar o “Red Eye” para Miami que está atrasado.

Numa primeira leitura, podemos nos perguntar o motivo pelo qual o trailer repete uma informação que já foi dada anteriormente. Parece descuido, certo? Errado. A função desta repetição por diálogo não é introduzir o problema dela (já introduzido antes). A função aqui é introduzir o antagonista: ele está no mesmo voo que ela. O diálogo cá está para que ela pergunte “you?” ao que ele responderá “sadly, yes.” – com quilos de charme. 🙂

A construção da comédia romântica continua, com a ajuda de títulos. O espectador está a ser praticamente conduzido pela mão com tamanha clareza e precisão. Lança-se a ideia de que aquilo tudo parece ser uma feliz coincidência na medida em que os dois estranhos continuam a encontrar-se: primeiro no bar e depois no próprio avião, onde ambos estão sentados lado a lado. A conclusão é simples e o título é incrivelmente preciso: “could be much more” – estabelecendo a ideia de que uma sucessão de acasos pode significar que os dois nasceram um para o outro (do acaso à necessidade). É claro que a ênfase nas trocas de sorrisos é propositada: estão aqui todos os clichés dos trailers de comédias românticas. O último não podia ser mais óbvio: o avião (o amor) descola. Lindo! 🙂

O avião que descola fecha esta parte do trailer que a partir de agora irá revelar o verdadeiro filme.

No interior do avião, o aparente “love  interest” deixa cair a máscara e revela o seu verdadeiro objectivo.

Lisa: “So what do you do?”

Jackson: “…As fate would have it, my business is all about you.”

Neste momento, o trailer revela dois novos recursos (estas já claramente dentro do thriller – o verdadeiro género do filme): a confusão visual por via da montagem, da imagem e do som; e a repetição de uma mesma acção (o mesmo plano duas vezes) com o objectivo de focar a atenção do espectador na reacção da protagonista – cujo espírito muda radicalmente: da descontracção para a dupla atenção.

Estes recursos rompem com a comédia romântica que estava a ser composta. A “flashada” final (ao som de um trovão) sobre o plano da protagonista dá o golpe final.

O próximo bloco introduz vários novos elementos: o objecto roubado, o pai da protagonista (parte essencial do plot), primeiras reacções, mais confusão e desnorteamento visual/sonoro…

…E finalmente a ameaça principal que nos mostra aquilo que está em jogo: “you tell the flight attendant and you dad dies.”

Este plano de Cillian Murphy é um dos mais longos do trailer: toda a frieza do antagonista é aqui visível. A montagem faz aqui duas coisas interessantes: permite tempo ao plano (pondo em evidência a performance do actor) e assinala a gravidade da situação pondo o ecrã totalmente a negro (estes ecrãs negros marcam o ritmo e separam cada nova ideia – irão aparecer em muitos sítios no trailer e no teaser).

A partir do separador negro, é adicionado outro elemento: alguém planeou um atentado terrorista. Em consequência disto, começam as tentativas da protagonista de obter ajuda – todas frustradas pelo antagonista que, na casa de banho, sobre a gravidade da situação alerta: “stop gambling with his life!”

Este trailer é tão bem gerido que consegue até encontrar tempo para introduzir uma nota de humor ao mostrar as hospedeiras antipáticas que não fazem a mínima ideia do que se está a passar: “excuse me, this isn’t a motel!”

Mas este momento mais leve não está aqui por acaso. A sua função no trailer é, com humor, fazer a transição (novamente o ecrã a negro a fazer as separações) para o momento seguinte: a protagonista ataca – em câmara lenta, evidenciando a singularidade do momento para a narrativa. O humor oferece-nos o momento de descompressão antes do grande ataque.

Note-se, entretanto, o rigor e a precisão deste trabalho: o trailer não mostra nem o ataque completo (o plano corta antes do impacto) nem a arma usada. Fica-se pelo simples impulso! Mensagem: “querem saber mais? Vejam o filme!” 🙂

Se o humor é aqui usado como contraponto da enorme tensão do momento do ataque, o título “this Summer” desencadeia o fim do trailer. A partir daqui, a estratégia passa a ser dar ao espectador fragmentos aparentemente desconexos (mas sempre numa montagem tensa) acerca do resto do filme. Ora, tendo iniciado o drama da protagonista, este trailer já não nos oferecerá mais nada: apenas pistas para o que virá a seguir: uma luta contra o tempo que não ficará confinada ao avião (várias perseguições e a multiplicação dos espaços parecem ser uma preocupação deste final).

Este trailer termina com uma imagem que remete para um dos posters – antes de entrar nos billing blocks obrigatórios.

🙂

O teaser é muito semelhante ao trailer num aspecto: segue a mesma estratégia de construir uma comédia romântica, mas de forma ainda mais explícita – com outros títulos mais explicativos e mais ecrãs negros a marcar o ritmo. E gasta a maior parte do seu tempo a fazê-lo (um minuto e dez segundos).

É aqui que começam as diferenças (com a indicação final “sometimes fate isn’t what it seems”).

Ao contrário do que irá acontecer com o trailer (que lança o problema da protagonista), neste teaser nada nos será dado. A pergunta “so, what do you do?” fica sem resposta. Ao invés da resposta, o teaser introduz um enigma: “quem é este homem?” O olho vermelho é uma representação deste enigma (arriscada na medida em que pode remeter o espectador para o universo do sobrenatural (algo que nada tem a ver com o filme).

O teaser decide correr o risco e não avançar mais nada. O objectivo é que o espectador fique na dúvida.

Começa aqui a preparação para a conclusão: nome do realizador e uma breve montagem tensa de imagens relacionadas com a parte do filme passada no avião (e quase nenhuma sobre o resto do plot).

A conclusão vem sob a forma de um longo e único plano (entre dois títulos) da reacção da protagonista àquilo que ela acabou de descobrir. Ao contrário do trailer (que revela o problema), este teaser mostra apenas o impacto… e a imagem forte da protagonista e seu antagonista lado a lado para a viagem.

Os títulos aqui também não são claros e adicionam dúvidas que ficam sem resposta. Esta conclusão é reforçada pela afirmação do antagonista: “sometimes bad things happen to good people”. Segue-se a mesma imagem que faz a ligação com o poster (também utilizada no trailer) e o billing block final.

Teaser e trailer partilham a mesma estratégia de construir um filme falso para depois revelar o filme verdadeiro. O teaser até apoia-se mais e gasta mais tempo nesta criação. Mas eles diferem naquilo que depois revelam. O teaser não revela nada. Lança dúvidas no espectador e mostra apenas o impacto na protagonista (sem revelar nada sobre o antagonista). O trailer é muito mais claro: introduz todos os elementos relevantes para o problema da protagonista, deixando apenas uma conclusão final: ela irá lutar.

Temos muito que aprender com exemplos destes. 🙂


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