Anatomia de um trailer – parte I.

Trailer, poster e título costumam ser os primeiros elementos de contacto entre um filme e o público – daí a extrema importância que as grandes cinematografias dão a estes objectos que em muitos casos estão no centro da estratégia de comunicação de uma obra. Não que um bom filme não possa atingir o sucesso com um mau poster, um mau trailer ou um mau título. Pode. Mas fica muito mais difícil. Os bons distribuidores sabem bem disto e dedicam muito tempo e energia na concepção e na discussão acerca destes objectos. Isto acontece porque produzir um trailer de dois minutos que comunique o necessário e o suficiente (sobre um filme 50 vezes maior) e que cumpra com todos os objectivos propostos requer a precisão de um laser.

O teaser e o trailer de RED EYE (2005) de Wes Craven são os exemplos que escolhemos para este post – não por serem perfeitos, mas sim porque são bastante precisos naquilo que desejam comunicar. O trailer possui dois minutos e 20 segundos enquanto o teaser fica-se por um minuto e 40 segundos (sensivelmente os standards norte-americanos para teasers e trailers).

O interessante aqui é que quase um minuto do trailer é gasto, propositadamente, a construir um filme diferente do verdadeiro. Ao longo deste minuto, aquilo que o trailer prepara é uma comédia romântica de dois estranhos (duas estrelas bastante magnéticas: Rachel McAdams e Cillian Murphy) que se conhecem por acaso num conjunto de coincidências fortuitas, destinadas ao romance. São sorrisos e mais sorrisos e mais sorrisos e mais sorrisos…😛

Primeiro, introduz-se a protagonista que deseja alguma coisa: apanhar um voo.

Note-se que o trailer utiliza texto para tornar claras quatro informações essenciais: 1) de onde ela vem (“a rough day”), 2) para onde ela deseja ir (Miami), 3) o que ela deve fazer para conseguir lá chegar (apanhar o “Red Eye”) e 4) o voo está atrasado. Nem todos os trailers utilizam texto. No entanto, uma parte significativa deles o faz na medida em que este recurso permite-nos avançar rapidamente com informações que, de outra forma, poderiam necessitar de mais tempo para serem construídas. O interessante aqui é que, neste início, o texto “fora do filme” (títulos) articula-se com o texto “dentro do filme” (ecrã de informações). Hmm… inteligente!

Uma vez estabelecido este ponto de partida, passamos para a construção da comédia romântica. A informação que nos foi dada será reforçada através do diálogo, onde a protagonista volta a explicar que está a apanhar o “Red Eye” para Miami que está atrasado.

Numa primeira leitura, podemos nos perguntar o motivo pelo qual o trailer repete uma informação que já foi dada anteriormente. Parece descuido, certo? Errado. A função desta repetição por diálogo não é introduzir o problema dela (já introduzido antes). A função aqui é introduzir o antagonista: ele está no mesmo voo que ela. O diálogo cá está para que ela pergunte “you?” ao que ele responderá “sadly, yes.” – com quilos de charme.🙂

A construção da comédia romântica continua, com a ajuda de títulos. O espectador está a ser praticamente conduzido pela mão com tamanha clareza e precisão. Lança-se a ideia de que aquilo tudo parece ser uma feliz coincidência na medida em que os dois estranhos continuam a encontrar-se: primeiro no bar e depois no próprio avião, onde ambos estão sentados lado a lado. A conclusão é simples e o título é incrivelmente preciso: “could be much more” – estabelecendo a ideia de que uma sucessão de acasos pode significar que os dois nasceram um para o outro (do acaso à necessidade). É claro que a ênfase nas trocas de sorrisos é propositada: estão aqui todos os clichés dos trailers de comédias românticas. O último não podia ser mais óbvio: o avião (o amor) descola. Lindo!🙂

O avião que descola fecha esta parte do trailer que a partir de agora irá revelar o verdadeiro filme.

No interior do avião, o aparente “love  interest” deixa cair a máscara e revela o seu verdadeiro objectivo.

Lisa: “So what do you do?”

Jackson: “…As fate would have it, my business is all about you.”

Neste momento, o trailer revela dois novos recursos (estas já claramente dentro do thriller – o verdadeiro género do filme): a confusão visual por via da montagem, da imagem e do som; e a repetição de uma mesma acção (o mesmo plano duas vezes) com o objectivo de focar a atenção do espectador na reacção da protagonista – cujo espírito muda radicalmente: da descontracção para a dupla atenção.

Estes recursos rompem com a comédia romântica que estava a ser composta. A “flashada” final (ao som de um trovão) sobre o plano da protagonista dá o golpe final.

O próximo bloco introduz vários novos elementos: o objecto roubado, o pai da protagonista (parte essencial do plot), primeiras reacções, mais confusão e desnorteamento visual/sonoro…

…E finalmente a ameaça principal que nos mostra aquilo que está em jogo: “you tell the flight attendant and you dad dies.”

Este plano de Cillian Murphy é um dos mais longos do trailer: toda a frieza do antagonista é aqui visível. A montagem faz aqui duas coisas interessantes: permite tempo ao plano (pondo em evidência a performance do actor) e assinala a gravidade da situação pondo o ecrã totalmente a negro (estes ecrãs negros marcam o ritmo e separam cada nova ideia – irão aparecer em muitos sítios no trailer e no teaser).

A partir do separador negro, é adicionado outro elemento: alguém planeou um atentado terrorista. Em consequência disto, começam as tentativas da protagonista de obter ajuda – todas frustradas pelo antagonista que, na casa de banho, sobre a gravidade da situação alerta: “stop gambling with his life!”

Este trailer é tão bem gerido que consegue até encontrar tempo para introduzir uma nota de humor ao mostrar as hospedeiras antipáticas que não fazem a mínima ideia do que se está a passar: “excuse me, this isn’t a motel!”

Mas este momento mais leve não está aqui por acaso. A sua função no trailer é, com humor, fazer a transição (novamente o ecrã a negro a fazer as separações) para o momento seguinte: a protagonista ataca – em câmara lenta, evidenciando a singularidade do momento para a narrativa. O humor oferece-nos o momento de descompressão antes do grande ataque.

Note-se, entretanto, o rigor e a precisão deste trabalho: o trailer não mostra nem o ataque completo (o plano corta antes do impacto) nem a arma usada. Fica-se pelo simples impulso! Mensagem: “querem saber mais? Vejam o filme!”🙂

Se o humor é aqui usado como contraponto da enorme tensão do momento do ataque, o título “this Summer” desencadeia o fim do trailer. A partir daqui, a estratégia passa a ser dar ao espectador fragmentos aparentemente desconexos (mas sempre numa montagem tensa) acerca do resto do filme. Ora, tendo iniciado o drama da protagonista, este trailer já não nos oferecerá mais nada: apenas pistas para o que virá a seguir: uma luta contra o tempo que não ficará confinada ao avião (várias perseguições e a multiplicação dos espaços parecem ser uma preocupação deste final).

Este trailer termina com uma imagem que remete para um dos posters – antes de entrar nos billing blocks obrigatórios.

🙂

O teaser é muito semelhante ao trailer num aspecto: segue a mesma estratégia de construir uma comédia romântica, mas de forma ainda mais explícita – com outros títulos mais explicativos e mais ecrãs negros a marcar o ritmo. E gasta a maior parte do seu tempo a fazê-lo (um minuto e dez segundos).

É aqui que começam as diferenças (com a indicação final “sometimes fate isn’t what it seems”).

Ao contrário do que irá acontecer com o trailer (que lança o problema da protagonista), neste teaser nada nos será dado. A pergunta “so, what do you do?” fica sem resposta. Ao invés da resposta, o teaser introduz um enigma: “quem é este homem?” O olho vermelho é uma representação deste enigma (arriscada na medida em que pode remeter o espectador para o universo do sobrenatural (algo que nada tem a ver com o filme).

O teaser decide correr o risco e não avançar mais nada. O objectivo é que o espectador fique na dúvida.

Começa aqui a preparação para a conclusão: nome do realizador e uma breve montagem tensa de imagens relacionadas com a parte do filme passada no avião (e quase nenhuma sobre o resto do plot).

A conclusão vem sob a forma de um longo e único plano (entre dois títulos) da reacção da protagonista àquilo que ela acabou de descobrir. Ao contrário do trailer (que revela o problema), este teaser mostra apenas o impacto… e a imagem forte da protagonista e seu antagonista lado a lado para a viagem.

Os títulos aqui também não são claros e adicionam dúvidas que ficam sem resposta. Esta conclusão é reforçada pela afirmação do antagonista: “sometimes bad things happen to good people”. Segue-se a mesma imagem que faz a ligação com o poster (também utilizada no trailer) e o billing block final.

Teaser e trailer partilham a mesma estratégia de construir um filme falso para depois revelar o filme verdadeiro. O teaser até apoia-se mais e gasta mais tempo nesta criação. Mas eles diferem naquilo que depois revelam. O teaser não revela nada. Lança dúvidas no espectador e mostra apenas o impacto na protagonista (sem revelar nada sobre o antagonista). O trailer é muito mais claro: introduz todos os elementos relevantes para o problema da protagonista, deixando apenas uma conclusão final: ela irá lutar.

Temos muito que aprender com exemplos destes.🙂

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