Anatomia de um trailer – parte II.

Na semana passada, escrevemos sobre o teaser e o trailer do filme RED EYE (2005) de Wes Craven. O post de hoje será sobre uma realidade totalmente diferente.

Por vezes, a enorme visibilidade (ou notoriedade) de alguns projectos torna necessária a produção de um teaser que prepare os espectadores, lançando o projecto nas suas mentes e preparando o terreno para uma campanha promocional maior. Trata-se de uma forma de gerir a estratégia de comunicação do projecto, onde o distribuidor tenta construir uma decisão por parte do público. Isto significa que para alguns projectos, é necessária a existência de um teaser muito antes do filme sequer estar pronto (ou mesmo filmado) – trazendo um desafio: como fazer um teaser para um filme que ainda não existe?

Há dois exemplos muito interessantes que merecem ser estudados. Um deles vem de Hollywood, onde o marketing de cinema costuma estar sempre cem anos a frente de tudo (risos). O outro é um filme europeu, distribuído por uma major norte-americana. Ambos possuem duas coisas em comum: uma grande ideia e um custo assustadoramente baixo se analisarmos os elementos que os constituem.

Exemplo 1 – RESIDENT EVIL 2: APOCALYPSE (2004).

Este teaser comete a proeza de não conter uma única imagem do filme que promove. Pelo contrário, aquilo que vemos é um pseudo anúncio publicitário a um cosmético que se chama “Regenerate”. E para isto, as únicas coisas necessárias são uma actriz, duas ou três peças de mobiliário, um cão, três ou quatro animações digitais, alguns efeitos sobre a actriz, uma música genérica, uma voz… e umas flashadas de imagens do primeiro filme. (Risos)

Se estivesse mal feito, este teaser seria ofensivo. No entanto, está tudo impecavelmente bem feito ao ponto do espectador médio achar tudo isto muito mais caro do que verdadeiramente parece. Deste o lançamento deste teaser, a série RESIDENT EVIL tem apostado sistematicamente nesta estratégia de teasers que parecem promover produtos de consumo. Aliás, o último teaser da série faz exactamente o mesmo ao promover produtos Sony (que por acaso é a distribuidora do filme).

É claro que nada disto é propriamente novo. No entanto, resulta bem.🙂 Este teaser do mais recente RESIDENT EVIL é assombrosamente simples: quatro pessoas a repetir a mesma frase sobre um blue screen. Duh!🙂

Exemplo 2 – THE STEPFORD WIVES (2004)

Este teaser é muito semelhante ao anterior. A estratégia é falar sobre outra coisa e deixar o filme para o fim. Temos assim um conjunto de imagens de objectos de luxo lindamente bem filmados e uniformizados (sob o mesmo fundo negro), com voz e música. O objectivo é introduzir discretamente o universo (um mundo de luxo e exclusividade) e a premissa (“isn’t it time to have the ultimate in perfection?”). O fecho é em tudo semelhante ao RESIDENT EVIL: RETRIBUTION (2012): no fim podermos ver a estrela (caracterizada) a dizer duas frases.

Novamente estamos diante de um teaser que é tão simples que, se fosse mal feito, seria desastroso. Estes teasers mostram as possíveis articulações entre:

a) O material que está fora do filme (as imagens de artigos de luxo no teaser de THE STEPFORD WIVES),

b) O material retirado do filme (as várias imagens directamente retiradas dos filmes anteriores da série ou do filme presente),

c) O material produzido em específico para o teaser sem a envolvência da rodagem (as imagens finais da Nicole Kidman).

d) O material produzido em específico para o teaser com a envolvência da rodagem (as imagens de Alice no meio do caos).

e) O material passível de ser inserido no filme (o anúncio do cosmético Regenerate cujas imagens serão usadas no filme).

Como é lógico, a articulação entre estes cinco elementos depende da relação entre a altura em que o teaser deverá ser lançado e o estado da produção. No entanto, também é óbvio que todas estas decisões já foram pensadas e planeadas muito cedo.

A simplicidade destas estratégias não é nova. Se quisermos recuar no tempo, podemos encontrar o trailer de um filme do mestre Roman Polanski ainda mais simples! Estava-se nos anos 70 e o formato teaser ainda não existia oficialmente. Os trailers não possuíam a estandardização de hoje e muitos deles, se fossem feitos agora, seriam formalmente classificados como teaser (pela duração e pelo conteúdo). O exemplo abaixo é de um grande filme europeu: THE TENANT (1976).

Mostrem-nos os teasers de que gostam mais.🙂

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