Mais notas sobre a violência.

Há coisa de três semanas, estávamos a pesquisar na net algumas imagens de violência (no âmbito de um guião que estamos a desenvolver) e deparámo-nos com um website onde podíamos ver vários vídeos provenientes da sangrenta guerra dos gangs de narcotraficantes no México (e não somente). Os vídeos eram mais que brutais: eram chocantes. Num deles, um homem amarrado tentava responder a provocações do seu carrasco. Suas respostas eram erráticas, confusas e pouco claras. Não havia súplicas, pedidos de clemência nem lágrimas. A vítima mais parecia um zombie meio atordoado cujo cérebro já desligara os circuitos principais na tentativa de bloquear a dor do momento que se aproximava. Cinco minutos depois, o algoz entrava em cena e decapitava-o com uma faca. A vítima não ofereceu resistência. O acto levou mais tempo do que esperávamos – a mostrar que, ao contrário do que vemos nos filmes, o corpo humano é uma barreira surpreendentemente difícil, que exige capacidades assustadoras por parte daqueles que a desejam transpor.

Noutro vídeo, ainda mais absurdo (adjectivos mais apropriados nos escapam), dois homens amarrados são destruídos por um terceiro que impõe uma serra eléctrica. Tal como nos filmes? Não. Pior! E não é pior apenas porque assim o parece. É pior porque sabemos que estamos diante do “the real thing”. A questão é antiga: cortejamos Satanás até o momento em que o verdadeiro “senhor” aparece e expõe o total amadorismo e estupidez da nossa t-shirt com o Charles Manson.

Subitamente, centenas de assassinos ficcionais parecem miúdos birrentos e toda a violência parece ballet. Centenas de Scream Queens e toneladas de efeitos prostéticos não conseguem reproduzir a simplicidade de maldade dos homens ou a fortaleza da máquina humana. Mas este mundo de assassinatos para milhões é aquele que temos. Surpreendente é que não seja novo. Basta ir ao Coliseu de Roma.

Mas há nestes vídeos coisas ainda mais arrepiantes (quando pensamos nelas): o tempo que se leva a matar alguém é longo. No cinema é o contrário: basta um machado ou uma faca e já está. Mas a realidade é sempre mais complexa. O homem da esquerda é degolado com uma faca. Parece não haver dor – ou se ela existe, o estado mental da vítima desligou-a. Também não há gritos (ao contrário do cinema). Enquanto o seu pescoço é cortado, ouvimos a vítima a tentar respirar. É uma respiração difícil de descrever. Mas podemos tentar: parece que os pulmões estão no automático e que o ar entra e sai livremente sem ter que passar pelos espaços apertados no nariz, traqueia, etc. É uma respiração forte e ruidosa. Molhada.

A violência continua e é tão difícil degolar alguém que esta realidade faz o carrasco parecer incompetente. Não. Ele é competente. O corpo humano é que dá mesmo luta! E os pulmões não param. Continuam a bombar litros e litros de ar como se de um cavalo de corridas se tratasse. O tempo continua a correr e a dada altura surge o desconforto adicional de não sabermos quanto tempo mais aquilo irá durar. Quanto tempo o pulmão irá aguentar? Quantos golpes faltam? É impossível prever. O tempo corre indefinido.

O carrasco parece já ter cortado tudo e o corpo parece continuar a funcionar como se tivesse vontade própria. Por esta altura, surge-nos a seguinte questão: o que será que está a passar pela cabeça da vítima? Será que ela ainda lá está? Estará consciente do que lhe está a acontecer? E por quanto tempo assim manter-se-á? Se o corpo continua a respirar, então é provável que a vítima ainda lá esteja consciente – mesmo contra a sua vontade – à mercê de um cérebro que ainda não vê motivos para parar (e que luta). Quando a faca chegar à coluna, a decapitação irá ficar ainda mais lenta e difícil. E irá necessitar de ainda mais força. Quatro, cinco, seis minutos. Estará a vítima consciente?

Ao encontrar a coluna, o carrasco percebe que não está a ir a lado algum e começa a desferir golpes ainda mais fortes. Os braços saltam a cada golpe, como se por reflexo. Mas já se passaram largos minutos. Por quanto tempo teremos reflexos? Estará a vítima a ouvir aquilo que se passa a sua volta? Existirá um momento em que a vítima compreende que morreu? Se existe um espírito, em que altura ele desliga-se do corpo? Este processo, quando acontece, será instantâneo ou gradual?

Ao longo dos minutos, as respostas vão ficando mais e mais vagas. Até um ponto em que fundem-se no desconhecido mais absoluto. A partir daqui, já não sabemos sequer que perguntas fazer.

A não ser uma: por que motivo fazemos tanto mal uns aos outros? Por que razão impomos tanto sofrimento aos nossos semelhantes?

Não deveríamos fazer o contrário?

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