Archive for September, 2012

A arte do pitching.

September 24, 2012

Há dias um amigo pediu-nos algumas dicas para um bom pitching. Ora, fazer um bom pitching é uma arte e depende de muitos elementos: do tempo de que dispomos, da receptividade dos ouvintes, de nós próprios e finalmente do material que temos para apresentar. Nós não decidimos o tempo de que dispomos nem controlamos a receptividade de quem nos ouve. No entanto, nós controlamos a 100% aquilo que dizemos e o somos sempre 100% responsáveis por aquilo que temos para apresentar. Neste sentido, apresentar de forma eficaz algo que, pela sua natureza, já é interessante pode mudar a receptividade dos ouvintes e comprar-nos mais tempo – porque um projecto realmente interessante irá certamente motivar mais conversa depois do pitching propriamente dito.

Um pitching existe porque há sempre demasiados projectos e pouco tempo. Logo, é fundamental estruturar a apresentação e demonstrar respeito por quem nos ouve. Assim, aqui ficam dez passos para aquilo que pode ser um bom pitching. Elas economizam tempo e salientam tudo aquilo que é importante.

1 – QUEM É O NOSSO PROTAGONISTA? Não existe uma grande história sem um grande protagonista. Comece por ele.

2 – QUAL É O SETUP DA NOSSA HISTÓRIA? Depois de revelar o protagonista, explique como e onde ele entra na história. Por outras palavras, explique em que momento da vida do protagonista nós o encontraremos. Em alguns casos, o protagonista está logo nos primeiros segundos do filme – ROSEMARY’S BABY (1968). Noutros casos, o protagonista apenas aparece ao fim de vários minutos – CHILD’S PLAY (1988). Esta dica aplica-se em ambos os casos. No primeiro, Rosemary e o marido acabam de encontrar o apartamento perfeito. No segundo, Karen está triste por não ter dinheiro para comprar uma boa prenda de aniversário para Andy e descobre pelas mãos de um vendedor de rua a prenda perfeita: um “Good Guy Doll” 🙂 .

3 – QUAL É A OPORTUNIDADE QUE ESTA HISTÓRIA APRESENTA AO NOSSO PROTAGONISTA? Explique em poucas palavras a importância desta oportunidade para o nosso protagonista (e o seu impacto na história). Este é o momento em que devemos também apresentar as forças de antagonismo e outras personagens relevantes. Em THE SILENCE OF THE LAMBS (1991), Clarice tem uma oportunidade única: contribuir para capturar o Buffalo Bill… através do Dr. Hannibal Lecter.

4 – QUAL É A MOTIVAÇÃO DO NOSSO PROTAGONISTA? Qual é o verdadeiro motivo que move o nosso protagonista? Em AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON (1981) a motivação do protagonista é puramente egoísta: dormir com a enfermeira. Em THE SHINING (1980), Wendy deseja ajudar o marido. Não devemos confundir esta dica com a anterior. A anterior é uma proposta que o universo fará ao protagonista. Esta vem de dentro do protagonista (aquilo que ele procura, deseja ou pensa que deseja) e define os passos do nosso protagonista.

5 – QUAL É O CONFLITO DO NOSSO PROTAGONISTA? Aqui, devemos explicar a interacção entre protagonistas e antagonistas. Em THE OTHERS (2001), Grace luta para descobrir a verdade e proteger os filhos. Mas os empregados parecem estar a esconder algo, as crianças não a respeitam e alguém anda a assustá-la. Em DAWN OF THE DEAD (1978), a vida no interior do centro comercial faz cada vez menos sentido na mesma medida em que o mundo exterior deixa de dar sinal de vida. Em DAY OF THE DEAD (1985), Sarah não sabe de quanto tempo dispõe por oposição a um Capitão Rhodes que vai ficando progressivamente mais paranóico e perigoso.

6 – QUAL É O ARCO DO NOSSO PROTAGONISTA? Estamos quase no final da apresentação. Explicamos o desenlace da história e – mais importante – que protagonista é este que agora temos? Está diferente? Está mudado? Como? Ou não mudou de todo? Terá o nosso protagonista descoberto que afinal deseja outra coisa? Ou será que ele revela-se fraco e desiste? E que preço paga? No final da segunda temporada de THE WALKING DEAD, Rick não é o mesmo homem que conhecemos no primeiro episódio da série. Como?

Até aqui, estivemos centrados no protagonista e na narrativa. Nos passos seguintes iremos falar sobre o valor do projecto.

7 – QUE ELEMENTOS CRIAM UMA FORTE RELAÇÃO DE EMPATIA ENTRE O ESPECTADOR E O NOSSO PROTAGONISTA? Ou por outras palavras, por que motivos os espectadores vão querer acompanhar o nosso protagonista na sua jornada? Como é que esperamos construir esta relação entre espectador e protagonista? Existem inúmeras formas. Temos que saber qual é a nossa.

8 – QUE ASSUNTOS E TEMAS SERÃO ABORDADOS PELA NOSSA HISTÓRIA? Ora, THE EXORCIST (1973) não é sobre uma simples possessão demoníaca. É um filme sobre um homem em plena crise de fé. NIGHT OF THE LIVING DEAD (1968) não é sobre zombies. É sobre a incapacidade que possuímos de agir de forma racional e evitar conflitos desnecessários (sobretudo durante momentos de crise).

9 – QUAIS SÃO OS ANTECEDENTES DE SUCESSO DA MINHA HISTÓRIA? Se devemos alguma coisa a outros filmes e outras histórias, então quais são? A maioria das pessoas pensa que ao apontar outros filmes de sucesso, estamos a revelar a falta de originalidade do nosso. Na verdade, não é nada disto que acontece. Aquilo que procuramos é ajudar os nossos ouvintes a identificar com mais exactidão os estilos, sentimentos, ideias, ambientes, personagens e outros elementos que a nossa história possui e que foram importantes para o sucesso de outros filmes.

E finalmente o remate final:

10 – QUAL É A NOSSA PAIXÃO POR ESTA HISTÓRIA? Convém ter bastante – caso contrário o projecto promete ser muito chato. Fazer filmes é muito caro e trabalhoso. Quem financia quer ter a certeza de que aquela história possui uma urgência: se não a contamos, morremos. Se o espectador não vir o nosso filme, irá perder muito. E pensem lá: a vida sem os filmes acima citados seria um vazio insuportável. 😀

Há outras formas de fazer um pitching. E nestas coisas não há fórmulas exactas. Aliás, na net ou mesmo em livros há montes de gente a defender esta ou outras formas totalmente diferentes. Nenhuma é a mais correcta na medida em que a história em si será sempre o grande ponto de interesse – e neste sentido o melhor pitching não salva um mau material.

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Notas soltas sobre Crowdfunding, parte 1.

September 14, 2012

Para muitas pessoas o crowdfunding parece ser uma excelente opção para financiamento de projectos. Cria-se uma conta, lança-se um projecto sensacional e depois é só esperar que milhares de pessoas lá apareçam a encher os cofres. Mas como em tudo na vida, as primeiras impressões costumam estar muito longe da realidade. O crowdfunding pode ser de facto uma excelente opção. No entanto, ele não funciona para tudo, exige muito cuidado e muito trabalho. Quem deseja ter uma campanha bem-sucedida acaba por dormir pouco.

Pensar o crowdfunding apenas como uma fonte de financiamento é um erro. Mais do que isto, ele é uma plataforma de criação de relacionamento entre o nosso projecto e o seu público. O objectivo é o engagement. O processo tem estas componentes: a) dar a conhecer, b) atrair, c) cativar, d) fascinar. Do primeiro ao último ponto, trabalha-se para tornar a relação irresistível entre o projecto e parte do “crowd”. Já a parte do “funding” tenderá a vir depois, naturalmente.

Cá estão algumas questões úteis a ter em conta ANTES de lançar uma campanha de crowdfunding.

1 – O crowdfunding é uma óptima forma de lançar projectos.

Não necessariamente. A enorme quantidade de projectos a procura de financiamento apenas favorece os mais fortes e aqueles que estão mais bem desenvolvidos. Isto significa que o crowdfunding funciona melhor para projectos em fase de finalização. Neste sentido, ter uma grande ideia pode ser demasiado vago. Ter um teaser é apenas ligeiramente melhor. Ter uma grande ideia, o filme inteiro já rodado, poder mostrar duas ou três cenas e ainda um trailer sensacional é o ideal. O crowdfunding, aqui, pode ser uma excelente forma de pagar uma parte da pós-produção. 🙂

É claro que existem projectos de enorme sucesso apenas a partir de uma grande ideia. THE PRESENT foi um destes projectos. Tratava-se de um relógio de parede único. Único porque possuía apenas um ponteiro – que ao longo de uma volta, marcava a progressão do ano. A campanha tinha como objectivo financiar o fabrico do objecto. Mas projectos assim são a excepção e não a regra. Na categoria de filmes, há um projecto bastante célebre – BRIDEGROOM – que é o exemplo de uma campanha bem-sucedida mesmo sendo apenas uma ideia na cabeça do autor. E que se pode dizer de DETROIT NEEDS A STATUE OF ROBOCOP!?

2 – Cuidado com as contrapartidas.

Idealmente, o dinheiro que procuramos obter deve cobrir as necessidades do projecto MAIS os custos relativos a produção das contrapartidas oferecidas. Se prometemos um objecto, um adereço ou um DVD com o filme, convém calcular os custos de produção e o envio destes objectos. Se prometemos uma conversa com o realizador, convém pensar no tempo a ser gasto com todas as conversas somadas. Se prometemos um jantar, convém deixar claras as circunstâncias, custos cobertos e não cobertos, etc.

Aquilo que devemos evitar é ter de gastar com as contrapartidas partes do financiamento que deveriam ir para o projecto que desejamos ver concretizado – ao ponto do projecto ser posto em causa. Pense também nos custos e comissões a pagar. Os backers do nosso projecto são pessoas generosas que apostam em nós – logo convém sermos realistas naquilo que podemos dar como contrapartidas. Regra de ouro: nunca decepcionar quem é generoso para connosco.

3 – Devemos ser realistas no plano de financiamento.

O Kickstarter, por exemplo, é claro num ponto: o financiamento apenas é entregue quando fica completo. Daí a necessidade de sermos razoáveis em relação àquilo que esperamos conseguir junto dos backers. Neste sentido, temos que pensar muito bem em relação às necessidades e possibilidades do projecto. Se pedimos mais do que aquilo que o projecto parece valer, então temos um problema. Aquilo de que necessitamos é de pragmatismo e capacidade auto-avaliação. Pedir cinco mil euros é diferente de pedir 50 mil. A escolha é sempre nossa. O risco também.

Cá está um bom exemplo: AMISS.

4 – Estejam prontos para preencher o dinheiro que falta.

Imaginem que a campanha termina dentro de duas horas e o vosso projecto já conseguiu $42.000 de um total de $50.000. No caso do Kickstarter, onde existe a necessidade de atingir 100% do valor proposto, a decisão é clara: avançam vocês com os $8.000 em falta ou não recebem nada. No caso do Indiegogo, não é necessária a obtenção dos 100% do montante proposto. O proponente pode decidir receber o montante arrecadado (com uma penalização na comissão cobrada pelo Indiegogo). Mas mais do que isto, esta simples diferença diz muito sobre os projectos que decidem entre uma ou outra plataforma. Os melhores backers parecem estar no Kickstarter na medida em que a exigência dos 100% parece dar aos projectos uma credibilidade acrescida e uma garantia mais séria de que, de facto, cada projecto recebe aquilo que é necessário para atingir o sucesso real. No entanto, a decisão é sempre vossa.

5 – Escolha com cuidado a plataforma de crowdfunding.

Existem centenas de plataformas dedicadas ao crowdfunding (sim, centenas!). Em Abril de 2012 eram 452, segundo o último relatório da Crowdsourcing.org. Elas não são todas iguais, não possuem o mesmo foco de actuação e não funcionam da mesma forma. O ArtistShare, por exemplo, é direccionado para música. O Kickstarter e o Indiegogo possuem várias áreas de projectos (incluindo cinema). Já o Mobcaster está vocacionado para projectos de TV. O Myfreeimplants destina-se a financiar implantes mamários (risos) em modelos que não os podem pagar. Decidir qual a plataforma mais indicada para o vosso projecto é crucial para o sucesso do mesmo.

6 – A incontornabilidade do universo anglo-saxónico.

E cá está a grande questão: a maioria esmagadora do crowdfunding tem lugar num universo de língua inglesa para projectos de língua inglesa. É claro que algumas áreas são mais sensíveis do que outras. Design e tecnologia são áreas que fluem com alguma facilidade independentemente da língua de base. Já no caso do cinema e vídeo, a realidade é diferente na medida em que a maior parte dos backers vem do universo anglo-saxónico. Isto não significa que projectos em língua portuguesa não possam ser financiados. Podem – embora estejam em desvantagem. Como é natural, o sucesso de projectos portugueses tenderá a aumentar na mesma proporção em que aumentam os backers portugueses.

Conhecemos em Portugal duas plataformas que podem ser boas alternativas: o Massivemov e o PPL.

7 – Cuidado com o tempo.

As várias plataformas permitem-nos escolher o tempo de duração de cada campanha. Mais tempo ou menos tempo não garantem o sucesso de um projecto. No entanto, o impacto de cada campanha perde-se ao fim de dias e alguns backers costumam esperar para ver a evolução das contribuições. Isto significa que campanhas muito longas podem não ser a melhor opção se pensarmos nisto: em meados de 2011, os técnicos do Kickstarter analisaram cada campanha feita nos dois anos anteriores. A descoberta foi simples: os projectos cujas campanhas tinha sido mais longas atingiram os objectivos com menos frequência. Naquela altura, 44% de todos os projectos tinha obtido sucesso. No entanto, esta percentagem baixava para 24% nos projectos que escolhiam a duração máxima de 90 dias (na sequência disto, o Kickstarter baixou o prazo máximo de campanha para os 60 dias). Ter muito tempo pode significar muitas coisas: falta de confiança, falta de urgência e desespero.


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