A arte do pitching.

Há dias um amigo pediu-nos algumas dicas para um bom pitching. Ora, fazer um bom pitching é uma arte e depende de muitos elementos: do tempo de que dispomos, da receptividade dos ouvintes, de nós próprios e finalmente do material que temos para apresentar. Nós não decidimos o tempo de que dispomos nem controlamos a receptividade de quem nos ouve. No entanto, nós controlamos a 100% aquilo que dizemos e o somos sempre 100% responsáveis por aquilo que temos para apresentar. Neste sentido, apresentar de forma eficaz algo que, pela sua natureza, já é interessante pode mudar a receptividade dos ouvintes e comprar-nos mais tempo – porque um projecto realmente interessante irá certamente motivar mais conversa depois do pitching propriamente dito.

Um pitching existe porque há sempre demasiados projectos e pouco tempo. Logo, é fundamental estruturar a apresentação e demonstrar respeito por quem nos ouve. Assim, aqui ficam dez passos para aquilo que pode ser um bom pitching. Elas economizam tempo e salientam tudo aquilo que é importante.

1 – QUEM É O NOSSO PROTAGONISTA? Não existe uma grande história sem um grande protagonista. Comece por ele.

2 – QUAL É O SETUP DA NOSSA HISTÓRIA? Depois de revelar o protagonista, explique como e onde ele entra na história. Por outras palavras, explique em que momento da vida do protagonista nós o encontraremos. Em alguns casos, o protagonista está logo nos primeiros segundos do filme – ROSEMARY’S BABY (1968). Noutros casos, o protagonista apenas aparece ao fim de vários minutos – CHILD’S PLAY (1988). Esta dica aplica-se em ambos os casos. No primeiro, Rosemary e o marido acabam de encontrar o apartamento perfeito. No segundo, Karen está triste por não ter dinheiro para comprar uma boa prenda de aniversário para Andy e descobre pelas mãos de um vendedor de rua a prenda perfeita: um “Good Guy Doll”🙂 .

3 – QUAL É A OPORTUNIDADE QUE ESTA HISTÓRIA APRESENTA AO NOSSO PROTAGONISTA? Explique em poucas palavras a importância desta oportunidade para o nosso protagonista (e o seu impacto na história). Este é o momento em que devemos também apresentar as forças de antagonismo e outras personagens relevantes. Em THE SILENCE OF THE LAMBS (1991), Clarice tem uma oportunidade única: contribuir para capturar o Buffalo Bill… através do Dr. Hannibal Lecter.

4 – QUAL É A MOTIVAÇÃO DO NOSSO PROTAGONISTA? Qual é o verdadeiro motivo que move o nosso protagonista? Em AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON (1981) a motivação do protagonista é puramente egoísta: dormir com a enfermeira. Em THE SHINING (1980), Wendy deseja ajudar o marido. Não devemos confundir esta dica com a anterior. A anterior é uma proposta que o universo fará ao protagonista. Esta vem de dentro do protagonista (aquilo que ele procura, deseja ou pensa que deseja) e define os passos do nosso protagonista.

5 – QUAL É O CONFLITO DO NOSSO PROTAGONISTA? Aqui, devemos explicar a interacção entre protagonistas e antagonistas. Em THE OTHERS (2001), Grace luta para descobrir a verdade e proteger os filhos. Mas os empregados parecem estar a esconder algo, as crianças não a respeitam e alguém anda a assustá-la. Em DAWN OF THE DEAD (1978), a vida no interior do centro comercial faz cada vez menos sentido na mesma medida em que o mundo exterior deixa de dar sinal de vida. Em DAY OF THE DEAD (1985), Sarah não sabe de quanto tempo dispõe por oposição a um Capitão Rhodes que vai ficando progressivamente mais paranóico e perigoso.

6 – QUAL É O ARCO DO NOSSO PROTAGONISTA? Estamos quase no final da apresentação. Explicamos o desenlace da história e – mais importante – que protagonista é este que agora temos? Está diferente? Está mudado? Como? Ou não mudou de todo? Terá o nosso protagonista descoberto que afinal deseja outra coisa? Ou será que ele revela-se fraco e desiste? E que preço paga? No final da segunda temporada de THE WALKING DEAD, Rick não é o mesmo homem que conhecemos no primeiro episódio da série. Como?

Até aqui, estivemos centrados no protagonista e na narrativa. Nos passos seguintes iremos falar sobre o valor do projecto.

7 – QUE ELEMENTOS CRIAM UMA FORTE RELAÇÃO DE EMPATIA ENTRE O ESPECTADOR E O NOSSO PROTAGONISTA? Ou por outras palavras, por que motivos os espectadores vão querer acompanhar o nosso protagonista na sua jornada? Como é que esperamos construir esta relação entre espectador e protagonista? Existem inúmeras formas. Temos que saber qual é a nossa.

8 – QUE ASSUNTOS E TEMAS SERÃO ABORDADOS PELA NOSSA HISTÓRIA? Ora, THE EXORCIST (1973) não é sobre uma simples possessão demoníaca. É um filme sobre um homem em plena crise de fé. NIGHT OF THE LIVING DEAD (1968) não é sobre zombies. É sobre a incapacidade que possuímos de agir de forma racional e evitar conflitos desnecessários (sobretudo durante momentos de crise).

9 – QUAIS SÃO OS ANTECEDENTES DE SUCESSO DA MINHA HISTÓRIA? Se devemos alguma coisa a outros filmes e outras histórias, então quais são? A maioria das pessoas pensa que ao apontar outros filmes de sucesso, estamos a revelar a falta de originalidade do nosso. Na verdade, não é nada disto que acontece. Aquilo que procuramos é ajudar os nossos ouvintes a identificar com mais exactidão os estilos, sentimentos, ideias, ambientes, personagens e outros elementos que a nossa história possui e que foram importantes para o sucesso de outros filmes.

E finalmente o remate final:

10 – QUAL É A NOSSA PAIXÃO POR ESTA HISTÓRIA? Convém ter bastante – caso contrário o projecto promete ser muito chato. Fazer filmes é muito caro e trabalhoso. Quem financia quer ter a certeza de que aquela história possui uma urgência: se não a contamos, morremos. Se o espectador não vir o nosso filme, irá perder muito. E pensem lá: a vida sem os filmes acima citados seria um vazio insuportável.😀

Há outras formas de fazer um pitching. E nestas coisas não há fórmulas exactas. Aliás, na net ou mesmo em livros há montes de gente a defender esta ou outras formas totalmente diferentes. Nenhuma é a mais correcta na medida em que a história em si será sempre o grande ponto de interesse – e neste sentido o melhor pitching não salva um mau material.

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