O primeiro realizador da Bad Behavior: João Alves.

Conhecemos o João Alves na altura do BATS IN THE BELFRY, filme que venceu o prémio de melhor curta no MOTELx. A primeira coisa que nos chamou a atenção foi o empenho que o João põe em tudo aquilo que faz. A segunda foi o pragmatismo com o qual ele olha o cinema e não só. Na medida em que a montagem financeira dos nossos projectos avança, o João passou rapidamente para o topo da nossa lista de realizadores com quem queremos mesmo trabalhar. Neste sentido, acreditamos que parte do futuro do cinema português passa pelo João Alves.

Cá na BAD BEHAVIOR, adoramos os realizadores. Acreditamos fortemente no carácter único que cada realizador traz para os nossos projectos. E mais: queremos ajudar de forma decisiva os realizadores a construírem as suas carreiras. Passo a passo, numa relação de longa duração.

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João por que motivo o mundo perdeu um biólogo e ganhou um realizador?

O objectivo sempre foi cinema, mas na altura de escolher agrupamento e depois Universidade, tinha sempre aquele fantasma de “não se vive da arte” e então fui para a segunda paixão a ciência. Idealisticamente, tentar resolver os problemas do mundo. Depois percebi que não era bem o que achava que ia ser e comecei ainda durante o curso a aprender animação e a focar-me cada vez mais em aprender cinema com os extras de DVDs e tudo o resto a que conseguia deitar as mãos. Quando acabei o curso a decisão já estava tomada há muito tempo, que o futuro seria ligado ao cinema e não à ciência. Mas fica sempre aquela atitude inquisitiva de cientista.

E como foi que chegaste ao BATS IN THE BELFRY?

A ideia era fazer um piloto para uma série de desenhos animados para adultos, com terror e nudez, não por obrigação, mas se os guiões assim o pedissem sabia que teria essa liberdade. Comecei a pensar sobre que género de filmes gostava e já não via há muito tempo. A resposta foram os Westerns. Também nunca tinha visto um filme de terror no velho oeste por isso pareceu-me a escolha ideal. O meu monstro favorito é o vampiro por isso a escolha dos vilões foi fácil. Depois foi criar um anti-herói, tentar capturar aquela atitude de herói que não o é por escolha, mas justamente por falta dela.

Como foi o processo? Primeiro escreveste o guião ou foste escrevendo na medida em que ias fazendo a animação?

Quando surgiu a ideia em 2006 fiz um storyboard com os diálogos a serem anotações de rodapé nos vários quadros. Depois em 2010 quando decidi refazer o que era um episódio piloto para ser uma curta-metragem, olhei para esse storyboard e refiz 90%. Nunca houve guião, o storyboard foi o guia durante a produção toda, seguido à risca. Na fase final de edição percebi que tinha de acrescentar dois planos por causa do ritmo e depois do primeiro visionamento de teste estiquei uma cena para clarificar. Ajuda muito ter alguém de fora a ver o filme pela primeira vez e dizer-nos o que percebe e o que não ficou claro.

E quem foram estas pessoas de fora?

Foram os meus colegas e chefes do trabalho. Fiz um visionamento só para eles e no final todos tinham a mesma pergunta “como é que a dinamite foi ali parar”, passei o fim-de-semana seguinte a fazer storyboard e animar a sequência de luta que dá resposta a essa pergunta.

A vontade de concorrer ao prémio no MOTELx apareceu quando?

Na edição de 2009 do MOTELx. Nunca tinha ido a um festival de cinema focado num género e a atmosfera era incrível. Em todas as sessões a sala em peso ri das piadas, fica silenciosa na tensão e quando o vilão finalmente é morto pelo herói há palmas e assobios. As pessoas vivem o cinema. Toda a gente está naquelas salas porque gosta de terror ou porque alguém que gosta de terror os levou lá. O BATS IN THE BELFRY foi feito para esse público.

O que foi que aprendeste mais com o filme?

Aprendi que vale a pena ir atrás dos sonhos. Sei que soa a chavão romântico, mas é completamente verdade. Eu só queria ter algo feito por mim num écran de cinema, numa sala a sério, e trabalhei para isso. Três anos depois o filme continua a ser exibido em Portugal, Brasil e Inglaterra, foi comprado por um canal americano e agora até merchandising tem. Se acreditamos numa ideia, temos de trabalhar para a concretizar, mostrá-la a toda a gente (ninguém nos vem bater à porta a perguntar o que temos andado a fazer) e esperar o melhor, mas estar sempre preparado para o pior.

E como surgiu a experiência de Austin?

A ida para Austin foi um concurso aberto pela ZON em parceria com a Universidade do Texas para estudantes universitários ou trabalhadores das empresas que foram finalistas nos Prémios ZON, eu fazia parte desta segunda categoria. Os meus chefes reencaminharam-me o e-mail da ZON e perguntaram se estaria interessado, aceitei a oferta imediatamente. Eles fizeram uma carta de recomendação enquanto eu preparei uma reel com um apanhado dos meus melhores trabalhos até a data e candidatei-me. Havia dez vagas. Eu fui um dos sortudos a ir para Austin dois meses com tudo pago, estudar animação e efeitos especiais na Universidade do Texas.

E quais as principais diferenças entre Austin e o universo de cá?

A atitude é completamente diferente. Nós estivemos lá em Junho e Julho, ou seja durante as férias de Verão, por isso em vez dos alunos normais de UT quem andava pelo campus era pessoal que não foi a casa nas férias, os alunos que iam entrar em Setembro e alunos das escolas primárias que estavam em Summer Camps. Eram dezenas de crianças que andavam pelos corredores com câmaras e perches às costas a fazer os seus próprios filmes. Tinham aulas teóricas e depois davam-lhes o material para as mãos e deixavam-nos andar por ali a filmar sem adultos por perto. Outros tinham aulas de como fazer jogos de computador, banda desenhada. Tudo áreas que cá são menosprezadas. Lá são incentivadas desde a infância. Ensinam-lhes, dão-lhes o material para as mãos e confiam neles não só para cuidarem das coisas como para no final da semana apresentarem um trabalho completo. Foi super inspirador ver a dedicação e empenho daqueles pequenos cineastas de um lado para o outro focados no que estavam a fazer, cada um com a sua função bem definida.

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Queres falar um pouco sobre os teus novos projectos?

Tenho dois projectos a avançarem paralelamente. O que é mais para breve é a minha estreia em imagem real, que vai ser um desafio que tem tanto de estimulante como de assustador. É a primeira curta da BAD BEHAVIOR, o que trás consigo ainda mais responsabilidade, mas também traz uma equipa jovem e dinâmica, com vontade de fazer filmes de terror inovadores e originais. É uma aposta do produtor que vai ser rodada este Verão em Lisboa, e vai ser um desafio espectacular. O outro projecto chama-se INHUMAN que é o próximo passo em relação ao BATS IN THE BELFRY. Também é animação de terror mas desta vez é ficção-cientifica. Tenho uma equipa, mas ainda vai demorar algum tempo. Estamos na fase de design conceptual e com o storyboard já muito avançado, mas a curta da BAD BEHAVIOR é uma excelente oportunidade de fazer algo diferente e em imagem real, por isso tem prioridade enquanto o INHUMAN vai demorar um pouco mais a concluir. Além disso estabeleci uma loja online para vender merchandising oficial das curtas-metragens. A loja Vesper já está activa em zazzle.com/vesperstore e tem coisas que normalmente só os blockbusters disponibilizam. É mais uma aposta para quebrar o mito de que as curtas não são viáveis comercialmente. Demasiado capitalista? (risos)

Nop. (risos)

Ok.

Quais as dificuldades em passar da animação para o live action?

A maior dificuldade é sem dúvida perder o controlo absoluto. Em animação, os cenários são desenhados de raiz, os personagens também, a forma como se movimentam e como interagem com o ambiente, a iluminação, absolutamente tudo é controlável desde o primeiro instante. Não é preciso respeitar as leis da física e (quase) nem temos limitações que não sejam a nossa imaginação e o guião. Em imagem real os objectos estão lá todos, os actores as paredes, as luzes, e ainda tem de haver espaço para a equipa. Temos de ter cuidado com reflexos para não aparecerem coisas que não devem, temos um monte de pessoas a trabalhar juntas que a cada momento têm de estar a dar o seu melhor para o trabalho final. Não há “undo”, não há o repetir renders com a câmara noutro sítio. Há menos margem para tentativa e erro durante a rodagem, o que torna a pré-produção ainda mais importante.

Que filmes exerceram maior influência sobre o teu trabalho?

Especificamente de terror THE THING, THE EVIL DEAD e ALIEN sem dúvida. Mas no geral sou mais ecléctico, com tendência para filmes dos anos 80/90 com efeitos especiais. ROBOCOP, TOTAL RECALL, TERMINATOR 2, JURASSIC PARK, ALIENS, THE GOOD, THE BAD AND THE UGLY, HOLLOW MAN, BEETLEJUICE, DIE HARD, NOTHING BUT TROUBLE, GREMLINS, BACK TO THE FUTURE, CHILD’S PLAY, STAR WARS e muitos outros. Sou do tempo das VHS, de ficar acordado até tarde a gravar um filme e depois revê-los durante semanas até saber falas de cor.

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8 Respostas to “O primeiro realizador da Bad Behavior: João Alves.”

  1. Virgílio Says:

    Boa!
    Gostei muito do artigo… (A curta ainda não vi.)
    Talvez um dia haja um filme de terror realizado por João Alves, com argumento de Virgílio Vieira Tebas… E banda sonora de O Quarto Fantasma🙂
    Com pimentos electrónicos

  2. alucardcorner Says:

    A questão que se coloca, a curta existe para venda em algum formato? Obrg

    • Bad Behavior Says:

      Olá, Alucardcorner:
      Boa pergunta. Infelizmente, as curtas-metragens não são um formato comercial. Longe vão os tempos em que as curtas faziam parte da programação habitual das salas de cinema (e não só). Hoje as curtas praticamente só têm uma função: permitir ao realizador (e demais técnicos, claro) ganhar experiência que permita ao produtor captar financiamentos para mais projectos daquele realizador: mais curtas ou até uma longa. É claro que se a curta ficar mesmo boa, não irá faltar hipóteses de exibição (festivais, televisão, internet, etc.). No entanto, por mais bem-sucedida que a curta seja, ela nunca irá pagar directamente o investimento feito (em tempo e dinheiro, por exemplo). É claro que pode haver excepções… mas são excepções.
      Uma curta não pode ser vista como um objecto puramente comercial. Ela é um passo estratégico, muito mais que qualquer outra coisa.🙂

      • alucardcorner Says:

        Antes de mais obrigado pela resposta! É sempre bom saber que os vossos leitores são “ouvidos”. A minha pergunta surgiu devido a outras curtas de terror portuguesas terem o seu lançamento em formato dvd. Logo pensei que esta excelente curta também tivesse tido essa “sorte”. Se algum dia acontecer, eu estarei lá para adquirir.

        Boa sorte para futuros projectos, e a curiosidade aumenta agora sobre essa curta que o João e o BB estão a preparar.:)

        Cumps
        Ricardo [Alucard corner]

  3. Aurora Feijoo Says:

    Gosto muito do facto de um criador deixar a sua obra ser analisada por pessoas alheias antes de sair para lá fora. Deveria ser um paso obrigatório para cada realizador não só na posprodução se não também nas diferentes etapas do proceso. Mas, sobre tudo, na parte final. Com o resultado pronto para ser mostrado.
    Ao meu parecer, as estórias devem ser contadas para o público entender o que quer ser esprimido em forma narrativa. Não serve dizer que é problema seu, dos que não perciveram o filme.

    Ainda há realizadores que acham que quanto mais escura, complexa e incomprensível seja a sua estória, melhor e mais inteligente é o filme. Eu não compartilho essa ideia. Acho que as emoções, sentimentos, decisões, fracasos e sucesos das personagens correspondem a situações universais. E por tanto comprensíveis pelas pessoas, as quais consiguem empatizar com o que vem na ecrã em uma primeira leitura do filme. Depois podem vir segundas, terças… a outros níves que enriquecem com novos e mais profundos matices o primer olhar. Mas a trama não se ve comprometida com a falta de informação que o espectador precisa para comprender o que está a acontecer.

    E se uma pessoa consigue falar da complexidade humana e fazer-se percever pelo público, esse é o primeiro paso para chegar as pessoas com as tuas estórias. Esse é o verdadeiro sucesso. O outro, não serve.

    Tinha esta reflexão na minha cabeça e as palavras da entrevista serviram para a tirar para fora.
    Adorei ‘Bats in the Belfry”. É uma excelente estória animada. Obrigada João Alves.

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