O Evento que Mudou o Cinema de Terror Foi Há 45 Anos.

Foi há precisamente 45 anos que a linda Sharon Tate, esposa de Roman Polanski, foi brutalmente assassinada na companhia de amigos, a mando de um tal Charles Manson. O crime que mais tarde se chamaria “The Tate-LaBianca Murders” foi um dos momentos mais marcantes da segunda metade do século XX, pois não poderia haver uma forma PIOR de fechar os anos 60, a “Era de Aquário”, o “Paz e Amor”, o “Summer of Love” e todas aquelas coisas que nos vêm à cabeça quando pensamos naquela década.

A relevância dos crimes possui várias dimensões – todas com impacto claro no cinema de terror que se passou a fazer a seguir. Mas por que motivo estes eventos foram tão decisivos? Este post tentará explicar alguns.

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É preciso perceber que os serial killers nunca foram uma coisa nova (e antes que os leitores mais conhecedores venham dizer que Charles Manson – ou os crimes em causa – têm pouco a ver com a classificação de “serial killer“, descansem e continuem a ler) e que já há muito faziam parte do universo dos filmes. THE BOSTON STRANGLER (1968) de Richard Fleischer é um excelente exemplo: um filme que narra os assassinatos cometidos por Albert DeSalvo. PSYCHO de Alfred Hitchcock e PEEPING TOM de Michael Powell (ambos de 1960) são apenas os exemplos mais sonantes que mostram como o cinema já há muito se apaixonara pelos serial killers. Ora, qual é a mudança operada pelo assassinato de Sharon Tate?

Se olharmos bem para os filmes citados, temos de admitir que eles não estão 100% dentro do cinema de terror da mesma forma que NIGHT OF THE LIVING DEAD (1968) de George A. Romero, THE HAUNTING (1963) de Robert Wise ou ROSEMARY’S BABY (1968) estão. O universo dos serial killers (mais ou menos sórdido do ponto de vista visual) no cinema sempre esteve mais próximo do género Policial mais ou menos violento, com mais ou menos drama, mais ou menos tenso – mas quase sempre Policial.

Ora, o assassinato de Sharon Tate traz algo de diferente. Não se tratavam de vítimas anónimas (donas de casa, adolescentes ou prostitutas que raramente inspiram curiosidade pública – quem é que sabe o nome de algum vítima do Albert DeSalvo ou do Ted Bundy?). Pelo contrário, aqui tratava-se da realeza de Hollywood: uma starlet absolutamente linda, em clara ascensão, hiper-publicitada e querida; casada com um realizador do momento. No meio, estava ainda uma herdeira milionária (Abigail Folger) e mais algumas pessoas do meio cinematográfico.

Mas mais do que isto, Manson não estava preocupado apenas com a quantidade de assassinatos, mas sim com a qualidade dos mesmos enquanto espetáculo. Ele sabia muito bem que na época em que estava, mais do que matar, era preciso chocar – e quem conhece o aftermath (o livro HELTER SKELTER (1974) editado pelo procurador Vincent Bugliosi continua a ser uma referência no assunto) facilmente admite que a “Família” Manson deu ao público meses e meses de choques consecutivos.

Charles Manson muda o conceito de “monstro-estrela” – algo que até a época, no cinema, pertencia apenas a criaturas de fora da realidade (Drácula, Godzilla, fantasmas, etc.). Manson traz para dentro deste conceito o homem comum, banal e quase invisível, mas capaz de coisas muito piores do que qualquer outro monstro da Universal.

A evolução do género terror nos anos 70 tomou o curso que tomou porque em grande parte Charles Manson mostrou ao Cinema tudo aquilo que este levaria anos a perceber: a) como a violência pode ser espetacular, b) como os assassinos podem se transformar em personagens ainda mais atraentes do que os heróis, c) o quão gostamos de ver beleza, juventude e inocência serem amoralmente destruídas e d) o quão negra é a escuridão num país de luzes tão intensas. Manson mostrou ao cinema o quanto gostamos de estimular a nossa curiosidade pelo mórbido. O mundo pode ter criado os serial killers, mas Charles Manson criou os slashers.

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THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE (1974) de Tobe Hooper, CANNIBAL HOLOCAUST (1980) de Ruggero Deodato e FRIDAY THE 13TH (1980) de Sean S. Cunningham jamais teriam sido possíveis sem Charles Manson. Leatherface (que também possuía a sua “família”), Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger (só para citar os mais conhecidos) somente são espectaculares porque Charles Manson foi espectacular. E eles não morrem também porque ano após ano Charles Manson continua a regressar – já não como um assassino, mas como mito. Seria difícil tentar perceber quem tem mais fãs: se Manson ou Leatherface. Chega a ser muito interessante o facto de que, ao contrário dos assassinos da ficção, Manson não matou (pelas suas próprias mão, isto é) nenhuma das vítimas que o tornaram célebre – a mostrar como o cinema é eficaz a simplificar o complexo e a corrigir as eventuais subtilezas da realidade que não caibam em 90 minutos.

Este post não tem como objectivo engrandecer a figura de Charles Manson ou perdoar/justificar os seus actos. Muito pelo contrário, é mais do que óbvio que o conjunto de horrores e vidas destruídas por aquele grupo de pessoas será sempre algo a lamentar. Mas a História é composta em igual medida pelos bons e pelos maus; e no cinema de terror, a partir de 1970, Manson, seus seguidores, seus actos e vítimas tiveram um impacto claro. Elas mostraram ao cinema alguns dos nossos maiores medos enquanto sociedade: a aleatoriedade do Mal, da violência, a escuridão possível no interior de cada desconhecido e a forma como estas coisas nos atraem – coisas que 45 anos depois continuam profundamente contemporâneas.

Rolling stone bomber

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